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Livros Subsídios
autorais Era o que faltava: agora
os escritores também querem financiamento público
 Jerônimo
Teixeira 
Há uma longa tradição de escritores brasileiros que ganham
a vida como funcionários públicos uma linhagem que já
incluiu gente do naipe de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Até agora,
contudo, os escritores não haviam cultivado um mau hábito renitente
de cineastas e outros profissionais da cultura: pedir dinheiro ao governo para
financiar suas obras. Isso mudou. Formado no ano passado, o movimento Literatura
Urgente reúne um grupo aguerrido de autores que pedem ao Ministério
da Cultura a criação de "políticas públicas" que fomentem
o "desenvolvimento do trabalho criativo". Em português corrente, o que eles
querem é ganhar um troco. Reivindicam 30% do Fundo Pró-Leitura
uma iniciativa ainda em gestação destinada ao fomento de bibliotecas
e à disseminação da leitura no país para a
"criação literária". Calcula-se que o fundo, a ser constituído
por 1% dos rendimentos de editoras, distribuidoras e livrarias, movimentaria cerca
de 40 milhões de reais por ano. Ou seja, os escritores estão pedindo
12 milhões. "Somos a base da cadeia produtiva do livro, mas nunca fomos
lembrados nas políticas públicas. Escritor não vive de brisa",
justifica-se o poeta Ademir Assunção, um dos redatores do manifesto
do Literatura Urgente. Para escrever
um livro são necessários papel e lápis. Um lápis basta,
se o sujeito não apertar muito. Depois disso, a melhor esperança
é que haja na vizinhança um público leitor amplo e ávido.
Nesse ambiente, os escritores conseguirão vender e serão remunerados
com direitos autorais. Os que venderem mais poderão até ficar ricos
(J.K. Rowling, da série Harry Potter, é hoje mais rica que
a rainha da Inglaterra). Os que venderem menos talvez tenham de complementar a
renda com outros trabalhos. Mas, se dinheiro público precisa ser gasto,
que seja com o fomento à leitura, e não com pensões para
escrevinhadores tiradas do bolso do contribuinte. "Ninguém
quer mamata do governo. Só queremos a valorização do criador",
diz o contista Marcelino Freire, membro de primeira hora do movimento. A tal valorização,
porém, inclui propostas descaradas (veja quadro). Entre elas, "bolsas
de criação" e intercâmbios com Portugal e países latino-americanos
(sim, um trem da alegria letrado). O movimento foi iniciativa de um grupo de escritores
da nova geração, mas seu manifesto arregimentou 181 signatários,
incluindo veteranos como Ignácio de Loyola Brandão e Sérgio
Sant'Anna. O documento foi redigido com base em informações equivocadas.
Somente na semana passada, em reunião com o coordenador do Programa Nacional
do Livro, Leitura e Bibliotecas do Ministério da Cultura, Galeno Amorim,
o grupo descobriu que o Fundo Pró-Leitura não é exatamente
do Estado: está sendo constituído pela contribuição
espontânea da indústria editorial, como uma espécie de contrapartida
a uma isenção de tributos que o setor recebeu no ano passado. É
um fundo para fins públicos, mas com gestão privada. O Literatura
Urgente desanimou, mas não se deu por vencido. A reivindicação
de 30% ainda está na mesa, enquanto novas opções são
exploradas. "Começamos a pensar em leis municipais de fomento à
literatura", anuncia Assunção.
Mamata das letras Um
movimento de escritores reivindica 30% de um fundo de 40 milhões de reais
para a "criação literária". Eis algumas propostas
• Financiamento
de caravanas de autores que viajariam pelo país para divulgar seus livros
em universidades • Compras governamentais
de livros editados pelos próprios escritores, eliminando a intermediação
das editoras • Concessão de
vinte bolsas por ano para os escritores criarem seus livros, totalizando uma despesa
anual de 700 000 reais | | |