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Ciência Trampolim
do tempo Com raciocínio lógico,
cientistas descartam o maior perigo da viagem ao passado, a tentação
de mudar o futuro  Thereza
Venturoli
Há quatro anos, o físico
inglês Stephen W. Hawking chegou à conclusão de que a viagem
no tempo era possível. Antes, considerava tal idéia uma agressão
ao senso lógico e, por isso, impossível. A questão que o
atormentava era o que se convencionou chamar de paradoxo do avô. Se alguém
conseguisse viajar ao passado e matar o próprio avô antes que ele
tivesse filhos, esse viajante não poderia ter nascido e muito menos
ter voltado no tempo para matar o avô. Três cientistas do Instituto
de Tecnologia da Califórnia, liderados pelo físico Kip Thorne, acreditam
ter resolvido a questão. Eles transportaram o paradoxo para o jogo de bilhar:
se uma bola fosse lançada pelo taco numa caçapa que fosse a entrada
de uma máquina do tempo e voltasse à mesa segundos antes da jogada,
poderia colidir com ela própria e impedir que caísse no buraco.
Depois de se debruçarem durante meses em intrincados cálculos matemáticos,
os físicos concluíram que, ao voltar à mesa, a bola poderia
apenas resvalar em si própria, alterando sua trajetória, mas ainda
assim caindo novamente na caçapa. "A experiência sugere que as leis
da física favorecem a construção de uma máquina do
tempo", escreveu Kip Thorne. E quanto
ao assassinato do avô? No universo bem organizado da física, isso
seria um paradoxo e, portanto, não deve ser possível. Como dois
ímãs que se repelem, neto e avô jamais se encontrariam. A
solução do paradoxo do avô não pode nem precisaria
ser demonstrada em termos práticos, pois a principal ferramenta da física
teórica é o raciocínio lógico. Foi assim, apenas observando
o mundo, que Albert Einstein descobriu que o tempo e o espaço não
eram como os cientistas até então pensavam. A viagem no tempo é
estudada com persistência por cientistas dos principais centros de pesquisa.
Para eles, embora a invenção de um mecanismo que permita a alguém
se deslocar no tempo ainda esbarre em problemas logísticos de toda ordem,
viajar ao passado ou ao futuro é, em teoria, perfeitamente possível.
Há dois meses, alguns desses estudiosos se encontraram para discutir experiências
no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, uma das catedrais da ciência
e da tecnologia nos Estados Unidos. O que move esses cientistas não é
exatamente a perspectiva de mandar alguém ao passado como se enviam astronautas
ao espaço. Suas pesquisas abrem novos horizontes nos estudos sobre o tempo,
que podem elucidar questões fundamentais como a origem do universo ou a
composição dos buracos negros do cosmo. "As viagens no tempo são
úteis principalmente como experiências de pensamento. São
ferramentas para explorar profundamente a relatividade e extrair visões
esclarecedoras sobre a natureza do tempo e do espaço", disse a VEJA o físico
Francisco Lobo, da Universidade de Lisboa, especialista em relatividade.
A maioria dos cientistas, inclusive Albert Einstein, sempre resistiu à
idéia de viagens no tempo. Isso até que, em 1988, o mesmo Kip Thorne,
que desvendou o paradoxo do avô, publicou dois estudos concluindo que as
leis da física, em teoria, sustentam as viagens no tempo através
dos chamados buracos de minhoca, túneis que se supõe existirem no
cosmo, gerados pelo Big Bang, e que servem como atalho entre pontos distantes
do universo. Curiosamente, Thorne começou a montar a teoria dos buracos
de minhoca como máquinas do tempo com base na ficção científica.
Quando escrevia o romance Contato, o astrônomo Carl Sagan (1934-1996),
da Universidade Cornell, esbarrou num problema: como fazer a heroína Ellie
Arroway, vivida no cinema por Jodie Foster, atravessar distâncias imensuráveis
na Via Láctea? Sagan consultou Thorne. A resposta: a heroína deveria
atravessar um buraco de minhoca. Ninguém
jamais viu um buraco de minhoca, mas a teoria da relatividade de Einstein dá
aos físicos a confiança de que, se um dia toparmos com uma dessas
bizarras estruturas, poderemos usá-la como máquina do tempo. Antes
de Einstein, seguindo as leis de Isaac Newton, os físicos encaravam o tempo
como algo absoluto e universal um segundo é sempre um segundo, tanto
para um motorista parado no engarrafamento quanto para um astronauta viajando
a 27.000 quilômetros por hora no ônibus espacial. Na teoria da relatividade,
Einstein rompeu com esse senso comum e demonstrou que o tempo varia conforme a
velocidade em que se encontra o observador. Quanto mais rápido alguém
viaja, mais longo fica cada segundo, em comparação a quem ficou
parado. Esse seria o fundamento usado na construção de uma máquina
do tempo. Em teoria, bastaria encontrar um buraco de minhoca, deixar uma das bocas
parada perto da Terra e fazer a outra boca viajar muito rápido, a uma velocidade
próxima à da luz, para criar uma defasagem de tempo entre a entrada
e a saída do túnel. Não é exatamente fácil
montar uma máquina do tempo. Além da dificuldade de achar buracos
de minhoca, nossa tecnologia não é capaz de construir uma nave que
possa arrastar a boca do túnel cosmo afora ainda mais a uma velocidade
próxima à da luz. Mas isso, para a ciência, é mero
detalhe. Como escreveu Stephen Hawking, "ainda que a viagem no tempo se mostre
impossível, é importante entendermos por que ela é impossível".
Como funcionaria a máquina do tempo 1.
Uma nave com um acelerador de partículas lançada ao espaço
cria o que os cientistas chamam de buraco de minhoca. Essa estrutura cósmica,
remanescente do Big Bang, é um túnel que conecta dois pontos do
universo muito distantes no tempo e no espaço estabelecendo um atalho entre
eles 2. A nave reboca uma das extremidades
do buraco de minhoca movendo-se a uma velocidade próxima à da luz,
o que faz com que o tempo passe mais lentamente nesse trecho do túnel.
O buraco de minhoca vira assim uma máquina do tempo. Basta entrar por uma
extremidade e sair pela outra para viajar ao passado ou ao futuro |
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A solução para o paradoxo do avô 
As várias teorias sobre viagens no tempo esbarram numa impossibilidade
lógica: o que aconteceria se alguém voltasse ao passado e matasse
o próprio avô antes que tivesse filhos? Nesse caso, o viajante não
poderia ter nascido nem voltado no tempo para matar o avô. Chama-se a isso
o paradoxo do avôn O cientista americano Kip Thorne, do Instituto de Tecnologia
da Califórnia, acha que encontrou uma solução lógica
para o paradoxo do avô. Segundo ele, os cálculos matemáticos
demonstram que alguém que sai do presente e volta para o passado nunca
poderia estar em posição de interferir no futuro. Ele jamais encontraria
o avô ou, se o encontrasse e o desafiasse para um duelo, erraria o tiro.
Avô e neto seriam como ímãs que se repelem | |
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