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André
Petry Qual a salvação?
"O que resta é torcer para que, uma hora
qualquer, Lula aja. Aja como quem viu a crise, entendeu a crise e lancetou
a crise. O diabo é que talvez Lula seja menor que a
crise" O esporte nacional
na política, agora, é especular sobre o seguinte: o que Lula deve
fazer para salvar seu governo? Há várias alternativas. As mais elementares
estão descritas no manifesto lançado pela esquerda do próprio
PT. Em resumo, a esquerda petista prega um "choque ético-político".
O que é isso? É não recorrer à ficção
de que há "movimentos conspiratórios e golpistas". É suspender
alianças nas quais a "barganha política sufoca o compromisso com
a moralidade pública". É reduzir o número de cargos de confiança.
É definir "fronteiras" entre o PT e o governo. Só assim, afirma
a nota, Lula e o PT não transformarão "a chance histórica
dada por 53 milhões de brasileiros" em "fracasso político e ético"
do primeiro presidente de origem operária do país.
Existe alguma possibilidade de que isso seja feito?
Não, nenhuma. Para tomar essas
medidas, é preciso agir, ter força, sangue, verve e o governo
vive num estado que varia entre a perplexidade, a letargia e a catatonia. E o
governo, quando finalmente age, aprofunda-se no erro original, como boi em direção
ao matadouro. Agora mesmo, fez a "barganha política que sufoca o compromisso
com a moralidade pública".
Lula tem dificuldade para agir. É notório que gosta mais de falar
do que de fazer. É notório que é um líder de massas,
não um administrador da máquina. Por isso mesmo, uma alternativa
para a superação da crise é convidar Lula a falar, a explicar-se,
quem sabe até pedir desculpas. O jornalista Clovis Rossi, da Folha de
S.Paulo, escreveu isso. Sugeriu que Lula fizesse como Bill Clinton, que, depois
de ser flagrado cedendo aos encantos da estagiária da Casa Branca, foi
à televisão pedir desculpas. "Pedir desculpas ao público
e à família", escreveu o jornalista.
Essa é a diferença com Lula. Clinton podia pedir desculpas com credibilidade
porque cometera um deslize de caráter pessoal, personalíssimo aliás.
Do qual, portanto, tinha absoluto controle, a menos que fosse adepto do sexo patológico.
Mas Lula não cometeu deslize
de caráter pessoal. Seu erro é mais amplo, é político-administrativo,
no mínimo. Vai pedir desculpas pelo quê? Por ter colocado no governo
seus companheiros mais longevos e fiéis? Por ter construído sua
carreira política dentro do PT? Por ter feito as alianças políticas
erradas? Isso é uma ficção. É quase como pedir desculpas
por ter sido eleito presidente. Não,
Lula não é Collor. E também não é Clinton.
Então, qual a salvação?
Agora mesmo, discute-se outra alternativa, que não exige nem ação
firme de Lula nem discurseira inútil: revogar a emenda da reeleição.
É uma alternativa que só existe na cabeça dos políticos
porque pode lhes acalmar os ânimos, dos tucanos e pefelistas, mas não
resolve nada para a sociedade, que ainda quer, quererá sempre, uma faxina
ética em que a sujeira salta aos olhos.
O melhor, o que ainda resta de esperança, é torcer para que, uma
hora qualquer, Lula aja. Aja como quem viu a crise, entendeu a crise e
lancetou a crise. O diabo é
que talvez Lula seja menor que a crise. |