A microssérie A Pedra do Reino: difícil,
mas bonita
A Pedra do Reino
(estréia nesta terça-feira, às 22h, na Rede Globo)
Quaderna, o herói da microssérie, se julga predestinado:
quer fazer de um lugarejo nordestino um reino e aspira, por meio da poesia, à
condição de "gênio da raça". À maneira dele,
a produção do diretor Luiz Fernando Carvalho tem algo de quixotesco
em sua busca por um estilo de teledramaturgia que não seja tributário
das novelas. As falas preservam o rebuscamento do romance de Ariano Suassuna.
A narrativa funde presente, passado e imaginação. É difícil,
em suma. Mas isso se compensa com a bela fotografia e uma produção
esmerada, gravada no sertão da Paraíba com um elenco quase 100%
nordestino como é o caso de Irandhir Santos, o protagonista. Entre
os poucos conhecidos está Cacá Carvalho, o Jamanta da novela Belíssima
mas tão disfarçado sob a carranca de um juiz que nem
parece ele mesmo.
Divulgação
Cohen como o rapper Ali G: o rei da "documentira"
Ali G (terças-feiras,
às 22h30, na Sony) O comediante inglês Sacha Baron Cohen é
o criador de um dos mais subversivos personagens de todos os tempos: o repórter
cazaque Borat. Com seu inglês trepidante, ele expõe o anti-semitismo,
a homofobia e outras questões incômodas em suas falsas entrevistas.
Bem antes de se consagrar com o longa-metragem do personagem, Cohen já
exercitava na televisão esse estilo que se pode chamar de "documentira".
Transmitido pelo Channel 4 inglês no início da década, Ali
G lançou Borat e outros dois personagens hilários aos quais
os brasileiros só tinham acesso até agora pelos vídeos da
internet o rapper branco que dá nome ao programa e o repórter
gay de moda Bruno. Assim como no caso de Borat, a estultice de ambos não
deixa pedra sobre pedra.
LIVROS
Máximas
e Pensamentos, de Chamfort (tradução de Cláudio Figueiredo;
José Olympio; 84 páginas; 22 reais) Adepto de primeira hora
da Revolução Francesa, Sébastien-Roch-Nicolas Chamfort (1741-1794)
acabou se indispondo com os revolucionários e decidiu se matar para não
ser preso. Desfigurou o rosto com um tiro e cortou-se várias vezes, mas
só morreu meses depois, em decorrência dos ferimentos. Esse suicídio
desastrado não é o fato mais original da vida de Chamfort: ele era
também um pensador agudo, colecionando pérolas de ceticismo em papéis
avulsos que só foram editados após sua morte. Suas máximas
certeiras estão carregadas de desprezo pelas falsidades da vida social
e pela banalidade do senso comum: "A opinião pública é a
rainha da sociedade, porque a tolice é a rainha dos tolos". Leia
trecho.
David Levenson/Getty Images
Rushdie: um pouco de tudo. Inclusive de
importância histórica
Cruze
Esta Linha, de Salman Rushdie (tradução de José Rubens
Siqueira; Companhia das Letras; 400 páginas; 56 reais) Nessa coletânea
de ensaios, conferências e artigos escritos entre 1992 e 2002, o escritor
anglo-indiano Salman Rushdie incluiu um pouco de tudo. Ele opina sobre literatura,
rock, fotografia, cinema, política. A peça central é uma
seção intitulada Mensagens dos Anos da Peste e não
será exagero dizer que ela confere importância histórica à
obra. Trata-se de um apanhado dos textos que Rushdie escreveu nos anos
90, quando vivia ameaçado pela fatwa (sentença de morte) proferida
pelo aiatolá Khomeini, do Irã. O pecado de Rushdie foi ter escrito
um romance, Os Versos Satânicos, reputado como blasfemo pelo fanatismo
islâmico. Com lucidez e coragem, o escritor argumentava que a importância
do "caso Rushdie" ultrapassa a vida do cidadão Salman Rushdie: diz respeito
a valores caros ao Ocidente, como o estado secular e a liberdade de expressão.
É uma lástima que a edição brasileira seja apenas
uma seleção do original em inglês mais de trinta textos
foram cortados, incluindo trechos de Mensagens dos Anos da Peste.Leia
trecho.
Uf Andersen/Getty Images
McEwan: uma peça de câmara irretocável
Na Praia,
de Ian McEwan (tradução de Bernardo Carvalho; Companhia das Letras;
130 páginas; 33 reais) Edward, um acadêmico de história,
e Florence, uma sensível violinista, conheceram-se na universidade e se
apaixonaram. O novo livro de McEwan provavelmente o melhor escritor da
literatura inglesa contemporânea acompanha a noite de núpcias
do casal, em um hotel na praia inglesa de Chesil. É uma história
de inadequação sexual: os dois são virgens, e o ano é
1962, pouco antes das revoluções de comportamento que caracterizariam
aquela década. O drama íntimo de Na Praia não tem
o fôlego de Reparação, romance lançado pelo
autor em 2001. Perto dessa obra sinfônica, o novo livro soa como uma peça
de câmara mas a execução, como de costume em McEwan,
é irretocável. Leia
trecho.
DISCOS
La
Revancha del Tango e Lunatico, Gotan Project (MCD)
Atualmente existem diversas bandas de música eletrônica que usam
o tango como fonte de inspiração. Nenhuma delas, porém, alcança
o nível do Gotan Project. Formado por músicos argentinos e franceses,
o grupo atualiza o tango sem descaracterizá-lo. Por exemplo: eles colocaram
voz num tema de Astor Piazzolla (Vuevo al Sur) e trabalharam com Gustavo
Beytelmann, uma autoridade no gênero. Revancha del Tango e Lunatico
estão sendo lançados na esteira das apresentações
do Gotan Project no Brasil. São trabalhos distintos: o primeiro é
mais eletrônico. Lunatico nome do cavalo de corridas de Carlos
Gardel conta com uma produção esmerada, que inclui um quarteto
de cordas e a presença luminosa da cantora Cristina Vilallonga.
Tim Leyes/The New York Times
Feist: do punk ao violão tímido
The Reminder, Feist
(Universal) As primeiras experiências dessa cantora e compositora
canadense no showbiz poderiam indicar tudo, menos uma carreira de sucesso. Feist
participou de uma banda de punk rock reza a lenda que sua voz se tornou
rouca de tanto gritar no palco e atuou na figuração das apresentações
da cantora de música eletrônica Peaches. Mas a carreira-solo de Feist
não tem nada em comum com suas experiências anteriores. Sua especialidade
são canções de acento folk, acompanhadas por um violão
tímido há um ou outro barulhinho eletrônico
e cantadas de modo doce. The Reminder é o segundo disco-solo da
cantora e traz baladas lindas, como I Feel It All e uma releitura para
See-Line Woman (creditada erradamente como Sea Lion Woman), da artista
de jazz Nina Simone.