Para ajudar os invasores a lidar com uma de suas grandes carências, a que
chamaríamos de "síndrome de abstinência da ação
revolucionária". Defesa da autonomia universitária, decretos espúrios
do governador, reivindicações de alojamentos melhores, tudo isso
é secundário. O básico, o decisivo, tão primordial
quanto o impulso do bebê ao procurar o seio da mãe, é o desejo
de dar combate a semelhante mal, doído como punhalada, exigente como a
fome.
Invadir reitoria
não é pouco para preencher tal anseio?
Pratica-se a ação revolucionária
que se pode, não a que se quer. Sem praticá-la, o estudante brasileiro
não terá completado sua educação sentimental. Mais
tarde na vida ele poderá ocupar altas posições no sistema
que hoje contesta ou mesmo ceder às ofertas de corrupção
de que o país é pródigo, mas, condescendente consigo mesmo,
sempre lembrará com um sorriso satisfeito os tempos de rebeldia. Como quem
diz: "Sim, minha educação foi completa".
O estudante brasileiro!?
Perdão, a generalização
não cabe. O estudante das faculdades particulares não é bobo
de fazer greve, ele que empenha no estudo seu rico dinheirinho. Isso é
para estudantes de universidades públicas. Mais propriamente, para os estudantes
da USP. Mais propriamente ainda, para os de certas faculdades da USP, aquelas
que, ao contrário da medicina ou da engenharia, não exigem tanto
estudo assim, nem tanto compromisso com a carreira.
Os invasores de reitoria têm nostalgia da ditadura?
Sem dúvida. Eis uma conseqüência
cruel mais uma da ditadura: temos de conviver com os nostálgicos
dela. Há os nostálgicos porque acham que ela foi boa e os nostálgicos
da luta contra ela. Ah, aqueles tempos em que se tinha uma causa... Em que a opressão
era real, institucional, tangível... Bem que a polícia poderia ter
ajudado, com uma operação de desocupação da reitoria.
Não seria ainda a ditadura, mas uma ação de força,
que com sorte produziria algum sangue. Até a semana passada, no entanto,
as autoridades negavam tal gostinho aos invasores.
Eles sofreriam por ter nascido na época errada?
Sim. O invasor de reitorias é um nostálgico
de uma vida não vivida. Os mais ardentes não se cansarão
de lamentar a falta de um Palácio de Inverno a conquistar, uma Sierra Maestra
da qual descer para o triunfo. Como um Julien Sorel, de O Vermelho e o Negro,
que se julgava roubado por não lhe ser permitido repetir as proezas de
Napoleão, ou uma Madame Bovary, consumida pela falta de amores tão
arrebatadores quanto os que lia nos romances (que bom que existe a literatura
francesa para nos explicar as sutilezas da vida), sofrem da frustração
de viver não só na época, mas no lugar errado. Eles têm
sede de heroísmo, num tempo de cansaço e desilusão com os
heróis.
Que
é o "Movimento Estudantil" de que se fala nessas horas?
Mistério. Sabe-se o que é o Movimento
Negro ou o Movimento Feminino. Já o "Movimento Estudantil", dada a condição
efêmera do estudante, em contraste com as condições de negro
ou de mulher, que são permanentes, é difícil saber para onde
se movimenta. Os estudantes filiados a partidecos de extrema esquerda pretendem
movimentar-se em direção a regimes como o de Cuba ou o da Coréia
do Norte, mas isso por força de seus partidos, não do "Movimento
Estudantil". O papel mais fácil de distinguir no "Movimento Estudantil"
é o de, com esse nome cheio de pompa e pretensão, ajudar na simulação
da ação revolucionária.
Os invasores da reitoria serão punidos?
Nenhuma hipótese. Se há uma vantagem em viver no Brasil de hoje
é a de poder brincar de rebelde sem o risco de levar troco. Neste Brasil
tolerante ao ponto da permissividade, invasor de reitoria goza de tanta impunidade
quanto senador que tem negócio escuso com empreiteira.
O senador Romero Jucá
enviou ao colunista carta em resposta ao texto publicado nesta página na
edição passada. A íntegra da carta, dada sua extensão,
vai publicada em VEJA on-line (www.veja.com.br). O senador contesta, de
modo convincente, a denúncia de que tem torneiras de ouro no banheiro de
casa e a de que foi o campeão de emendas em favor de obras da empreiteira
Gautama. O colunista se retrata, em relação a esses itens. As demais
denúncias citadas, a despeito da defesa do missivista, compõem um
repertório que continua a rondar-lhe os passos. No mais, o senador convida
o colunista a visitar Roraima, "para constatar as realizações da
prefeita Teresa Jucá" (sua esposa) e as dele próprio, quando governador
(o colunista agradece, mas no momento tem outras prioridades de viagem), e afirma-se
empenhado no "trabalho incansável de buscar soluções para
os problemas nacionais", ele que, em vez de pular de partido e de fidelidades
como macaco de galho, como afirmava o texto, o que faz é "servir ao meu
país" (a pátria, quem sabe, um dia agradecerá).