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Edição 2012

13 de junho de 2007
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Moda
O inventor do moderno

Exposição relembra a obra de Paul Poiret, o estilista que,
na virada do século XX, decretou o fim dos vestidões

 

Fotos Divulgação e Ars/ADAGP/Divulgação

Marcas registradas: capas em forma de casaco, túnica oriental rebordada e promoção por meio de clientes como Peggy Guggenheim


Diz a lenda no mundo da moda que certo dia, no começo do século XX, aconteceu o seguinte diálogo:

"Por quem a senhora está de luto, madame?", perguntou Paul Poiret, o veterano costureiro que havia dominado Paris com suas formas fluidas espalhadas em drapeados sensuais e cores quentes.

"Pelo senhor", respondeu Coco Chanel, a então jovem mestra da simplicidade chique em preto, preto, preto e algum branco.

A troca de farpas pode ser pura ficção, mas traduz com propriedade o momento em que o lançador dos fundamentos do modernismo na moda passou o cetro, muito a contragosto, para aquela que levaria a fama – merecida – de grande reformuladora do guarda-roupa feminino. Em 1903, Poiret abriu um ateliê em Paris e mudou para sempre a silhueta das mulheres. Antes de Poiret, elas eram um corpo partido – e espremido – ao meio pelo espartilho e coberto por metros de tecido. Seguindo o espírito das transformações da época, ele aboliu o aperto e o saião, envolvendo a figura feminina em casacos amplos e elegantes, em vestidos afunilados, ajustados na altura do busto, e, ousadia maior, em calças compridas do tipo odalisca e pantalona. Era a típica melindrosa, a mulher de cabelos curtos e comportamento atrevido que sacudiu os anos dourados. Uma amostra da obra pioneira desse costureiro mais conhecido pelos fashionistas, como são chamados os loucos por moda, está na exposição Poiret – King of Fashion, no Metropolitan Museum de Nova York. Cerca de vinte magníficos modelos do acervo do museu (adquiridos num leilão promovido pela neta do estilista em 2005) e outros trinta emprestados são exibidos em cenários da belle époque especialmente criados para a mostra. "O significado histórico e a influência do trabalho de Poiret são extraordinários, presentes na moda até hoje", diz o curador da mostra, Harold Koda, para quem o estilista francês se enquadra na definição de "pré-moderno".

O maior destaque da exibição são os casacos para ser usados sobre vestidos de noite, quase sem costura, como se fossem capas elegantemente drapeadas, com acabamentos luxuosos e inspiração oriental. Abre a exposição o Révérend, de 1905, de lã vermelha e seda adamascada marfim, parte de uma série inspirada nos quimonos japoneses. Da mesma fonte nasceu o Paris, de 1919, um corte de seda vermelha que se transforma em casaco como se fosse dobradura, sem uma única costura (um vídeo explica, passo a passo, a construção). La Perse, magnífica capa-casaco de veludo com punhos de pele de coelho confeccionada em 1911, é uma visão de arder nos olhos, pela imponência e pela estampa chamativa do artista Raoul Dufy. Poiret era o oposto do estereótipo do estilista contemporâneo: gordo, bigodudo e louco pela mulher e musa, Denise. Fascinado pelo Oriente, como estava em voga na época, promoveu em 1911 uma festa das Mil e Uma Noites para 300 convidados em que 900 garrafas de champanhe foram consumidas, as árvores ostentavam macacos e papagaios de verdade, rapazes com pouca roupa serviam delícias exóticas e todos os convidados tinham de estar a caráter (quem chegava sem fantasia ou ia embora ou vestia um dos trajes criados por Poiret para a ocasião). Denise trajava calça de odalisca e túnica recobertas de tranças e contas de cores variadas, a extravagância máxima. Na saída, cada convidado ganhou um pacotinho contendo um perfume criado por Poiret – como comenta Koda, "provavelmente a primeira sacolinha de brinde da história".

Antecipando-se ao que viria a ser chamado de marketing e fixação de marca, Poiret emprestou nome e estilo a perfumes e objetos de decoração e divulgava seus modelos no corpo das celebridades da época, como as atrizes Sarah Bernhardt, Isadora Duncan e Josephine Baker, além da milionária americana Peggy Guggenheim, colecionadora de arte e lançadora de tendências que todos faziam questão de cultivar. Superado pelas rápidas mudanças, assistiu enraivecido à ascensão da jovem mademoiselle Chanel, que levou adiante o conceito da simplificação da silhueta feminina. Nesse momento, Poiret fincou pé e se recusou a dar o passo adiante. Pelo contrário: enquanto o vestido secava e subia, ele criava túnicas como a Pré Catelan, de 1918, de cetim preto e dourado – maravilhosa, mas fora de seu tempo. Denise foi embora (levando um imenso guarda-roupa), o dinheiro acabou e Poiret morreu magro e na miséria, em 1944, sustentado por amigos. A exposição do Met abre uma janela para seu passado de glórias – fugaz, como a própria moda.

 

TODO MUNDO QUER DAR MAIS

Um novo tipo de obra de arte anda aparecendo nos leilões da Christie's e da Sotheby's: roupas velhas. Com todo o respeito, no caso de peças elaboradas por grandes nomes da costura, alvo de crescente cobiça entre os curadores dos departamentos de moda dos museus, estes também um setor em franca expansão. Por serem, em geral, raras, exclusivas e bem preservadas – embora tecidos envelheçam mal –, essas peças custam caro. O leilão de 600 roupas e objetos desenhados por Paul Poiret, guardados por sua mulher, Denise, e vendidos por sua neta arrecadou cerca de 2,4 milhões de dólares, sendo que 580 000 dólares (o valor foi calculado pelo The New York Times comparando o catálogo com a lista de preços publicada) vieram de artigos arrematados pelo Costume Institute do Metropolitan Museum de Nova York. Entre os ambiciosos compradores que puxam os preços para o alto, o mais notório é um novato no meio: o milionário chileno Jorge Yarur Bascuñán, 46 anos, que se prepara para inaugurar em julho, em Santiago, seu Museo de la Moda, com acervo de mais de 8 000 peças. "Por causa de Jorge, os preços de alguns dos artigos mais glamourosos que apareceram no mercado nos últimos tempos subiram a níveis inaceitáveis", reclama Harold Koda, curador do Costume Institute.

Yarur admite que, por inexperiência, pode ter inflacionado valores no começo, mas isso não acontece mais. Aliás, ele nem vai pessoalmente aos leilões. "Sou tímido e não me sinto bem em ambientes com muitas pessoas. Sempre mando algum representante", disse ele a VEJA. Solteiro e único herdeiro de um dos maiores bancos do Chile, Yarur resolveu transformar a mansão dos pais em museu, numa homenagem póstuma. Empenhou esforço e talão de cheques, comprando do clássico (um casaquinho de Poiret por mais de 60 000 dólares) ao pop (um dos sutiãs cônicos que Jean Paul Gaultier fez para Madonna, por 21 000 dólares). Aquecido por tantos interessados, o comércio de trajes fora de série extrapola todos os limites quando a roupa em questão, além de grife, beleza e história, tem fama. Há duas semanas, na Christie's de Nova York, "um colecionador europeu" pagou cerca de 200 000 dólares por um vestidinho rosa usado por Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo. Ainda longe do recorde, batido por outro vestido do mesmo filme: em dezembro passado, o legendário longo preto Givenchy que Audrey usa na primeira cena foi arrematado pela própria Givenchy por 811 800 dólares. Impressionante, para um vestido usado.

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