Exposição
relembra a obra de Paul Poiret, o estilista que, na virada do século
XX, decretou o fim dos vestidões
Fotos
Divulgação e Ars/ADAGP/Divulgação
Marcas
registradas: capas em forma de casaco, túnica oriental rebordada e promoção
por meio de clientes como Peggy Guggenheim
Diz
a lenda no mundo da moda que certo dia, no começo do século XX,
aconteceu o seguinte diálogo:
"Por
quem a senhora está de luto, madame?", perguntou Paul Poiret, o veterano
costureiro que havia dominado Paris com suas formas fluidas espalhadas em drapeados
sensuais e cores quentes.
"Pelo
senhor", respondeu Coco Chanel, a então jovem mestra da simplicidade chique
em preto, preto, preto e algum branco.
A troca de farpas pode ser pura ficção, mas traduz com propriedade
o momento em que o lançador dos fundamentos do modernismo na moda passou
o cetro, muito a contragosto, para aquela que levaria a fama merecida
de grande reformuladora do guarda-roupa feminino. Em 1903, Poiret abriu um ateliê
em Paris e mudou para sempre a silhueta das mulheres. Antes de Poiret, elas eram
um corpo partido e espremido ao meio pelo espartilho e coberto por
metros de tecido. Seguindo o espírito das transformações
da época, ele aboliu o aperto e o saião, envolvendo a figura feminina
em casacos amplos e elegantes, em vestidos afunilados, ajustados na altura do
busto, e, ousadia maior, em calças compridas do tipo odalisca e pantalona.
Era a típica melindrosa, a mulher de cabelos curtos e comportamento atrevido
que sacudiu os anos dourados. Uma amostra da obra pioneira desse costureiro mais
conhecido pelos fashionistas, como são chamados os loucos por moda, está
na exposição Poiret King of Fashion, no Metropolitan
Museum de Nova York. Cerca de vinte magníficos modelos do acervo do museu
(adquiridos num leilão promovido pela neta do estilista em 2005) e outros
trinta emprestados são exibidos em cenários da belle époque
especialmente criados para a mostra. "O significado histórico e a influência
do trabalho de Poiret são extraordinários, presentes na moda até
hoje", diz o curador da mostra, Harold Koda, para quem o estilista francês
se enquadra na definição de "pré-moderno".
O
maior destaque da exibição são os casacos para ser usados
sobre vestidos de noite, quase sem costura, como se fossem capas elegantemente
drapeadas, com acabamentos luxuosos e inspiração oriental. Abre
a exposição o Révérend, de 1905, de lã vermelha
e seda adamascada marfim, parte de uma série inspirada nos quimonos japoneses.
Da mesma fonte nasceu o Paris, de 1919, um corte de seda vermelha que se transforma
em casaco como se fosse dobradura, sem uma única costura (um vídeo
explica, passo a passo, a construção). La Perse, magnífica
capa-casaco de veludo com punhos de pele de coelho confeccionada em 1911, é
uma visão de arder nos olhos, pela imponência e pela estampa chamativa
do artista Raoul Dufy. Poiret era o oposto do estereótipo do estilista
contemporâneo: gordo, bigodudo e louco pela mulher e musa, Denise. Fascinado
pelo Oriente, como estava em voga na época, promoveu em 1911 uma festa
das Mil e Uma Noites para 300 convidados em que 900 garrafas de champanhe foram
consumidas, as árvores ostentavam macacos e papagaios de verdade, rapazes
com pouca roupa serviam delícias exóticas e todos os convidados
tinham de estar a caráter (quem chegava sem fantasia ou ia embora ou vestia
um dos trajes criados por Poiret para a ocasião). Denise trajava calça
de odalisca e túnica recobertas de tranças e contas de cores variadas,
a extravagância máxima. Na saída, cada convidado ganhou um
pacotinho contendo um perfume criado por Poiret como comenta Koda, "provavelmente
a primeira sacolinha de brinde da história".
Antecipando-se ao que viria a ser chamado de marketing e fixação
de marca, Poiret emprestou nome e estilo a perfumes e objetos de decoração
e divulgava seus modelos no corpo das celebridades da época, como as atrizes
Sarah Bernhardt, Isadora Duncan e Josephine Baker, além da milionária
americana Peggy Guggenheim, colecionadora de arte e lançadora de tendências
que todos faziam questão de cultivar. Superado pelas rápidas mudanças,
assistiu enraivecido à ascensão da jovem mademoiselle Chanel, que
levou adiante o conceito da simplificação da silhueta feminina.
Nesse momento, Poiret fincou pé e se recusou a dar o passo adiante. Pelo
contrário: enquanto o vestido secava e subia, ele criava túnicas
como a Pré Catelan, de 1918, de cetim preto e dourado maravilhosa,
mas fora de seu tempo. Denise foi embora (levando um imenso guarda-roupa), o dinheiro
acabou e Poiret morreu magro e na miséria, em 1944, sustentado por amigos.
A exposição do Met abre uma janela para seu passado de glórias
fugaz, como a própria moda.
TODO MUNDO QUER DAR MAIS
Um novo tipo de obra de arte anda aparecendo nos leilões
da Christie's e da Sotheby's: roupas velhas. Com todo o respeito, no caso de peças
elaboradas por grandes nomes da costura, alvo de crescente cobiça entre
os curadores dos departamentos de moda dos museus, estes também um setor
em franca expansão. Por serem, em geral, raras, exclusivas e bem preservadas
embora tecidos envelheçam mal , essas peças custam
caro. O leilão de 600 roupas e objetos desenhados por Paul Poiret, guardados
por sua mulher, Denise, e vendidos por sua neta arrecadou cerca de 2,4 milhões
de dólares, sendo que 580 000 dólares (o valor foi calculado pelo
The New York Times comparando o catálogo com a lista de preços
publicada) vieram de artigos arrematados pelo Costume Institute do Metropolitan
Museum de Nova York. Entre os ambiciosos compradores que puxam os preços
para o alto, o mais notório é um novato no meio: o milionário
chileno Jorge Yarur Bascuñán, 46 anos, que se prepara para inaugurar
em julho, em Santiago, seu Museo de la Moda, com acervo de mais de 8 000 peças.
"Por causa de Jorge, os preços de alguns dos artigos mais glamourosos que
apareceram no mercado nos últimos tempos subiram a níveis inaceitáveis",
reclama Harold Koda, curador do Costume Institute.
Yarur admite que, por inexperiência, pode ter inflacionado valores no começo,
mas isso não acontece mais. Aliás, ele nem vai pessoalmente aos
leilões. "Sou tímido e não me sinto bem em ambientes com
muitas pessoas. Sempre mando algum representante", disse ele a VEJA. Solteiro
e único herdeiro de um dos maiores bancos do Chile, Yarur resolveu transformar
a mansão dos pais em museu, numa homenagem póstuma. Empenhou esforço
e talão de cheques, comprando do clássico (um casaquinho de Poiret
por mais de 60 000 dólares) ao pop (um dos sutiãs cônicos
que Jean Paul Gaultier fez para Madonna, por 21 000 dólares). Aquecido
por tantos interessados, o comércio de trajes fora de série extrapola
todos os limites quando a roupa em questão, além de grife, beleza
e história, tem fama. Há duas semanas, na Christie's de Nova York,
"um colecionador europeu" pagou cerca de 200 000 dólares por um vestidinho
rosa usado por Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo. Ainda longe
do recorde, batido por outro vestido do mesmo filme: em dezembro passado, o legendário
longo preto Givenchy que Audrey usa na primeira cena foi arrematado pela própria
Givenchy por 811 800 dólares. Impressionante, para um vestido usado.