Está
difícil acompanhar o ritmo que a Polícia Federal imprimiu nos últimos
tempos. A cada quinze dias, é deflagrada uma nova operação,
sempre de nome pitoresco. A da semana passada, intitulada Xeque-Mate, que colocou
no xadrez oitenta integrantes de uma quadrilha que explorava e vendia ilegalmente
máquinas caça-níqueis, criou um constrangimento para o presidente
da República. Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão
mais velho de Lula, teve a casa vasculhada por agentes da PF e foi indiciado por
"tráfico de influência no Executivo" e "exploração
de prestígio no Judiciário". Em reportagens publicadas em outubro
de 2005, VEJA contou a seus leitores como Vavá, usando de seu parentesco
com Lula, tentava intermediar negócios entre empresários e órgãos
do governo federal. A reportagem foi rechaçada com as condenações
habituais, entre elas a de ser mostra do "preconceito das elites" contra
os petistas. Agora, a operação da PF não só confirma
o que VEJA havia apurado com rigor como levanta a suspeita de que os negócios
de Vavá ultrapassaram a fronteira da falta de ética para adentrar
o território da criminalidade.
Outro
embaraço para Lula é que, entre os detidos, há um compadre
seu, o petista Dario Morelli. Assessor da prefeitura de Diadema até ser
preso, ele faz parte do círculo mais íntimo do presidente. É
um dos "faz-tudo" que servem à família de Lula, assim
como Freud Godoy, aquele do caso do dossiê contra os tucanos. Morelli é
ligado ao ex-deputado José Dirceu, de quem foi segurança na campanha
de 1994. A amizade com Lula e Marisa data de vinte anos, aproximadamente. Numa
ocasião, Morelli chegou a registrar um boletim de ocorrência sobre
o roubo de um celular de Marisa. Em retribuição à sua dedicação,
Lula tornou-se padrinho de um dos filhos do "faz-tudo" e o ajudou a
conseguir empregos em administrações do PT.
As
investigações da Polícia Federal indicam que Vavá
e Morelli têm relações estreitas com integrantes da quadrilha
dos caça-níqueis. O empresário Nilton Cezar Servo, apontado
como chefe da máfia, é amigo dos dois. Em um depoimento à
PF, um ex-funcionário de Servo diz que o empresário repassava a
Vavá quantias que chegavam a 3.000 reais. A polícia trabalha com
a hipótese de que o irmão do presidente fazia a aproximação
com autoridades do Executivo e do Judiciário capazes de garantir a impunidade
desse pessoal. Nos últimos anos, sem regulamentação, o negócio
dos caça-níqueis transitou pela zona cinzenta da ilegalidade e sobreviveu
à custa de liminares. A PF pediu a prisão de Vavá, mas a
Justiça negou o pedido, por entender que o tráfico de influência
não chegou a beneficiar a quadrilha.
Fotos Muriel Gomes/Correio
de Uberlândia, Marcos Fernandes
Dario Morelli (à dir.),
segurança e amigo de Lula há vinte anos, e o empresário Nilton
Servo, acusado de chefiar a máfia dos caça-níqueis: troca
de telefonemas e pagamentos a Vavá
Lula,
que estava em visita à Índia, concedeu o benefício da dúvida
ao irmão. Para o presidente, Vavá "não tem cabeça
para fazer lobby". Diz um deputado petista de São Paulo: "Convivi
com ele. Trata-se de um bronco, não tem estofo nem contatos suficientes
em Brasília. Na verdade, conseguiu enrolar alguns empresários dizendo
que, por ser irmão de Lula, abria portas no governo". De fato, chamar
o irmão do presidente de lobista pode ser exagero o que não
afasta a possibilidade, ainda pendente de maiores investigações,
de que Vavá tenha efetivamente cometido algum tipo de crime.
Em
2005, VEJA noticiou que ele havia aberto um escritório em São Bernardo
do Campo para intermediar demandas de empresários junto ao poder público.
Tudo o que se sabe desse período é que conseguiu fazer com que César
Alvarez, assessor especial da Presidência, se reunisse com representantes
da Federação Brasileira de Hospitais, então credora de uma
dívida de 580 milhões de reais com a União. E que, também
por intervenção de Vavá, o chefe-de-gabinete de Lula, Gilberto
Carvalho, recebeu o empresário português Emídio Mendes, cujo
interesse era fazer parcerias com a Petrobras. Dias após a publicação
das reportagens de VEJA, Vavá abandonou o escritório. Um mês
depois, as chaves do imóvel, que era alugado, foram devolvidas ao proprietário.
Mas, pelo visto, ele continuou a atuar, só que em zonas de mais penumbra.
A partir de escutas telefônicas, a polícia descobriu que Vavá,
Morelli e Servo se falavam freqüentemente. Suspeita-se de que os dois primeiros,
além de prestar serviços a Servo, tinham sociedade em casas de jogo
na região do ABC paulista. "Aqui, todo mundo sabe que Vavá
e Dario são sócios", disse a VEJA
um vereador de Diadema. O irmão
do presidente Lula é mesmo um problema tamanho-família.