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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

A representação política

"Resta que, num contexto de crise, os
cidadãos podem irromper no espaço
da
representação política e apresentar cobranças
precisas aos partidos e aos eleitos"


        Ilustração Ale Setti


Inglês, americano, argentino ou brasileiro, o cidadão perde às vezes o pé quando escolhe programas de governo, filia-se a partidos políticos e elege seus governantes.

Em 31 de maio deste ano, o semanário londrino The Economist, próximo do Partido Conservador, declarou voto no candidato trabalhista. A revista alinhou argumentos conservadores em favor de sua escolha e, com o humor peculiar à imprensa inglesa, concluiu: "Tony Blair é o único conservador disponível que tem credibilidade".

Pouco tempo antes, em 30 de abril, a revista New Yorker publicava um ensaio mostrando o poder do vice-presidente, Dick Cheney. Segundo o semanário americano, Cheney, estribado na experiência obtida nas presidências Ford e Bush pai e fortalecido por sua influência na atual administração, age como um primeiro-ministro ou até como um "co-presidente" no governo de George W. Bush. Depois de muita recontagem de votos para desempatar Bush e Gore, os americanos descobrem que o vencedor é... Dick Cheney.

Na Argentina, a ambigüidade política é ainda mais paradoxal. Derrotado por Fernando de la Rúa por quase cinco vezes mais votos nas presidenciais de 1999, o ex-candidato Domingo Cavallo assumiu no mês de março o Ministério da Economia argentino, com poderes próprios de um chefe de governo.

No final das contas, qual o sentido das eleições, das candidaturas e dos programas políticos e partidários? Trata-se, nos casos citados, de desvios políticos circunstanciais, comandados pelo interesse nacional, independentemente dos partidos e dos cargos governamentais? Ou, ao contrário, tais fatos configuram a inadequação do sistema democrático à nova ordem mundial? O assunto está na agenda dos cientistas políticos e dos constitucionalistas.

Resta que, num contexto de crise, os cidadãos podem irromper no espaço da representação política e apresentar cobranças precisas aos partidos e aos eleitos. Será logo o caso na Argentina e já é fato concreto no Brasil, onde o apagão faz as críticas convergirem diretamente para o presidente da República.

Há razões para isso. A energia elétrica marcou a entrada do Brasil na modernidade. O país mal viu passar a Primeira Revolução Industrial, baseada no carvão e na máquina a vapor, mas entrou firme na Segunda, movida pela eletricidade e pelo petróleo. Depois da frustração causada pela inexistência de reservas de petróleo no interior das terras, as hidrelétricas, com nomes poéticos e sonoros (Três Marias, Xingó, Tucuruí), incorporaram-se ao imaginário nacional. Os brasileiros domavam a portentosa natureza de seu território. Em vez de ficar deitado eternamente em berço esplêndido, o gigante se erguia, escorava catadupas d'água nas barragens e gerava energia. No caso, o gigante era o Estado, planificador e construtor das hidrelétricas. O padrão perdurou até os anos 90, quando vieram as privatizações e cessaram os investimentos públicos no setor energético. Ao mesmo tempo, surgiu a misturada de agências reguladoras. Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e ANP (Agência Nacional do Petróleo) aparecem como siglas malsonantes que baralham a imagem do poder público e diluem as responsabilidades.

Urbanizado, muito mais dependente da eletricidade do que há trinta anos, o país manifesta seu descontentamento diante da falta de energia elétrica. Primeiro presidente a ser reeleito na História brasileira, FHC recebe a conta de sua longevidade no Planalto: fica difícil alegar surpresa quando, auxiliado pelo mesmo ministro da Fazenda, já se governa há seis anos e meio seguidos.

Em todo o caso, nos próximos meses estará em jogo algo muito mais precioso que algumas dezenas de megawatts. Estará em jogo a aptidão da sociedade brasileira para não desperdiçar a energia democrática que permite a superação das crises e a sobrevivência das nações civilizadas.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)

 
 
   
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