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Sintonia fina
Chico Buarque dá
uma
mãozinha na tradução de
livro de um poeta portenho

Flávio
Moura
Editorial Perfil

Juan
Gelman: militância e lirismo sem pudor |
O poeta argentino Juan Gelman é um dos mais divulgados da América
Latina. Publicou mais de vinte livros nos últimos quarenta anos,
teve a obra traduzida pelo mundo afora e é um dos autores mais
lidos e queridos de seu país. Nada disso, no entanto, fez com que
se tornasse conhecido no Brasil um lugar onde livros de poesia
nunca venderam muito mesmo. Só agora, pela primeira vez, uma das
obras de Gelman vai sair por aqui. E com uma curiosidade e tanto: Amor
que Serena, Termina? (Record; 159 páginas; 22 reais) tem
o aval e uma ajudinha na tradução de ninguém menos
que o cantor e compositor Chico Buarque. Chico é admirador de Gelman.
Avesso aos holofotes, no entanto, ele preferiu não aparecer nos
créditos do livro. Para decepção da Editora Record,
que adoraria poder estampar seu nome em letras garrafais na capa, uma
menção a ele é feita apenas nas últimas linhas
da última página, em galante nota assinada pelo tradutor
Eric Nepomuceno: "As traduções foram severa e cuidadosamente
revisadas por Chico Buarque de Hollanda, que é o responsável
pela maioria dos acertos".
Nepomuceno
exagera. A participação de Chico como "tradutor" é
antes de mais nada uma curiosidade. Que as fãs não se assanhem
pensando que ele tenha emendado os versos do poeta argentino com outros
de sua própria lavra. No geral, as alterações sugeridas
por ele foram singelas, para dizer o mínimo. A palavra "quintais",
por exemplo, foi substituída por "pátios". "Cabeleira" virou
"melena". A forma, esta sim um pouco truncada, "os reconhecem" virou "são
reconhecidos". E "orvalho" foi trocado por "rocio". No mais, ele cortou
artigos e sugeriu alterações menores. "Foi uma questão
de afinação", diz Eric Nepomuceno, amigo do compositor.
Tradutor de prosa, essa é a primeira vez que ele se arrisca a lidar
com poemas. Daí a idéia de pedir a consultoria.
Tasso Marcelo/Ag. Estado

Chico
Buarque: o cantor não quis seu nome nos créditos
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Vale a pena
ler Gelman. Nascido em 1930, ele pertenceu ao mesmo grupo intelectual
do escritor Julio Cortázar, que era sincero admirador de seus textos.
Entre seus livros mais famosos estão Traducciones I. Los Poemas
de John Wendell e Traducciones II. Los Poemas de Jamanokuchi Ando,
em que inventa escritores e as traduções de suas obras fictícias.
Sua poesia tem marcas políticas fortes, mas se caracteriza principalmente
pelo coloquialismo dos versos e por um lirismo despudorado. No Brasil,
um equivalente próximo seria o poeta Ferreira Gullar. Além
dos traços já mencionados, ambos têm em comum um passado
de militância política. Gelman foi perseguido pela ditadura
argentina, teve o filho e a nora mortos pelo regime e empreendeu uma campanha,
maciçamente apoiada por intelectuais de esquerda, para encontrar
a neta. Ela nasceu em 1976, quando a mãe estava presa no Uruguai,
e só foi descobrir sua verdadeira história em março
do ano passado, quando o avô finalmente a achou.
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