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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Sintonia fina

Chico Buarque dá uma
mãozinha na tradução de
livro de um poeta portenho

Flávio Moura


Editorial Perfil

Juan Gelman: militância e lirismo sem pudor


O poeta argentino Juan Gelman é um dos mais divulgados da América Latina. Publicou mais de vinte livros nos últimos quarenta anos, teve a obra traduzida pelo mundo afora e é um dos autores mais lidos e queridos de seu país. Nada disso, no entanto, fez com que se tornasse conhecido no Brasil – um lugar onde livros de poesia nunca venderam muito mesmo. Só agora, pela primeira vez, uma das obras de Gelman vai sair por aqui. E com uma curiosidade e tanto: Amor que Serena, Termina? (Record; 159 páginas; 22 reais) tem o aval e uma ajudinha na tradução de ninguém menos que o cantor e compositor Chico Buarque. Chico é admirador de Gelman. Avesso aos holofotes, no entanto, ele preferiu não aparecer nos créditos do livro. Para decepção da Editora Record, que adoraria poder estampar seu nome em letras garrafais na capa, uma menção a ele é feita apenas nas últimas linhas da última página, em galante nota assinada pelo tradutor Eric Nepomuceno: "As traduções foram severa e cuidadosamente revisadas por Chico Buarque de Hollanda, que é o responsável pela maioria dos acertos".

Nepomuceno exagera. A participação de Chico como "tradutor" é antes de mais nada uma curiosidade. Que as fãs não se assanhem pensando que ele tenha emendado os versos do poeta argentino com outros de sua própria lavra. No geral, as alterações sugeridas por ele foram singelas, para dizer o mínimo. A palavra "quintais", por exemplo, foi substituída por "pátios". "Cabeleira" virou "melena". A forma, esta sim um pouco truncada, "os reconhecem" virou "são reconhecidos". E "orvalho" foi trocado por "rocio". No mais, ele cortou artigos e sugeriu alterações menores. "Foi uma questão de afinação", diz Eric Nepomuceno, amigo do compositor. Tradutor de prosa, essa é a primeira vez que ele se arrisca a lidar com poemas. Daí a idéia de pedir a consultoria.

 
Tasso Marcelo/Ag. Estado

Chico Buarque: o cantor não quis seu nome nos créditos

Vale a pena ler Gelman. Nascido em 1930, ele pertenceu ao mesmo grupo intelectual do escritor Julio Cortázar, que era sincero admirador de seus textos. Entre seus livros mais famosos estão Traducciones I. Los Poemas de John Wendell e Traducciones II. Los Poemas de Jamanokuchi Ando, em que inventa escritores e as traduções de suas obras fictícias. Sua poesia tem marcas políticas fortes, mas se caracteriza principalmente pelo coloquialismo dos versos e por um lirismo despudorado. No Brasil, um equivalente próximo seria o poeta Ferreira Gullar. Além dos traços já mencionados, ambos têm em comum um passado de militância política. Gelman foi perseguido pela ditadura argentina, teve o filho e a nora mortos pelo regime e empreendeu uma campanha, maciçamente apoiada por intelectuais de esquerda, para encontrar a neta. Ela nasceu em 1976, quando a mãe estava presa no Uruguai, e só foi descobrir sua verdadeira história em março do ano passado, quando o avô finalmente a achou.

   
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