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A quatro manos

Um policial do escritor Bustos
Domecq. Ou melhor, dos parceiros
Borges e Bioy Casares

Moacyr Scliar*


Obras a quatro mãos são raras e não muito marcantes na literatura, arte tradicionalmente reservada a solistas. Mas, quando as mãos são dos argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, temos de prestar atenção ao livro. É o caso de Seis Problemas para Dom Isidro Parodi (tradução de Eric Nepomuceno e Luis Carlos Cabral; Dantes; 230 páginas; 18 reais), publicado pelos dois em Buenos Aires, em 1942, sob o pseudônimo de H. Bustos Domecq. Os sobrenomes desse personagem são de ancestrais dos autores; o H é de Honorio, lembrando honra, uma palavra muito usada nas aristocracias, incluindo a argentina, à qual Borges e Bioy Casares estavam ligados. Mas a oblíqua referência à honorabilidade termina aí. Bustos Domecq, segundo dizem os autores numa entrevista de 1977, "tem todos os preconceitos, a malícia e também as ternuras do portenho". O texto está maliciosamente repleto de ironias e gozações. De início, temos uma biografia do imaginário Bustos Domecq, seguida por um pomposo prefácio assinado por Gervasio Montenegro, da Academia Argentina de Letras. Personagem que nunca existiu: foi uma invenção dos autores, tão bem-sucedida que a editora portenha que publicou o livro, em 1942, recebeu centenas de cartas dirigidas ao suposto acadêmico.

O Dom Isidro Parodi do título é, como sugere seu sobrenome, uma paródia de grandes detetives. Só que ele se encontra limitado nas suas investigações por uma interessante circunstância: está preso, trancafiado por um crime que não cometeu (veja trecho). Borges e Bioy Casares diziam que, com isso, queriam reforçar o papel do intelecto: Parodi conta só com as informações que lhe trazem e com seu próprio raciocínio. O que não o impede, claro, de descobrir o culpado nos seis casos que compõem a narrativa. Não estamos, porém, diante de histórias de Agatha Christie. Os crimes aqui são absolutamente secundários, um chamariz para os leitores. As histórias são um pretexto para que Borges e Bioy Casares façam seus cáusticos comentários sobre a sociedade em que viveram. O que, visto pelo prisma atual, pode ser um inconveniente. As histórias são, em boa medida, datadas. Os filmes que lhes servem de referencial, por exemplo, já foram de há muito esquecidos pelo público. Outras observações, contudo, permanecem atuais e, apesar da linguagem propositadamente empolada, continuam deliciando o leitor. Como o deliciam os personagens, invariavelmente exóticos (inclusive pela etnia: a primeira história gira em torno de um grupo de drusos).

A colaboração entre Borges e Bioy Casares, iniciada em 1941, durou mais de trinta anos e resultou em quatro livros de Bustos Domecq. Nesse meio tempo cada um seguia seu caminho – no caso de Borges, no rumo da consagração, que resultaria inclusive numa eterna e frustrada candidatura ao Nobel. É difícil identificar a contribuição de cada um dos escritores ao texto, mas frases como "Atrás do salgueiro o sol declinava, como em minha aplicada infância" trazem a inconfundível marca borgiana. Em 1977, Borges decretou o fim de Bustos. "Para mim, ele está morto", afirmou na já mencionada entrevista. Certo. Mas, ainda que os livros assinados pelo pseudônimo sejam obras menores, divertimentos literários, por baixo delas se percebe o talento de Bioy e Borges. Tão vivo quanto sempre.


* Moacyr Scliar é escritor, autor de
A Mulher que
Escreveu a Bíblia, entre outros livros

 

O homicida de 1919  

" Há quatorze anos, o açougueiro Agustín R. Bonorino, que havia participado do corso de carnaval do bairro de Belgrano, fora atingido na fronte por uma garrafada mortal. Ninguém ignorava que a garrafa de Bilz que o derrubou havia sido esgrimida por um dos rapazes da gangue de Pata Santa. Mas como Pata Santa era um influente cabo eleitoral, a polícia decidiu que o culpado era Isidro Parodi. As declarações das testemunhas foram unânimes: o juiz condenou-o a 21 anos de prisão. A vida sedentária havia marcado o homicida de 1919: hoje era um quarentão sério e gordo, a cabeça raspada e os olhos singularmente sábios. "

 
Trecho de Seis Problemas para Dom Isidro Parodi



   
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