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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Vizinhos bambas

Nove Rainhas é um exemplo do
ótimo cinema
argentino, que os
brasileiros desconhecem

Isabela Boscov

 
Editorial Perfil
Darín, Pauls e Leticia: golpes pesquisados em jornais, com trapaceiros e entre as vítimas

A julgar pelo número ínfimo de filmes argentinos que chegam ao Brasil, o país vizinho parece ter um cinema tão obscuro quanto, digamos, o do Butão. Engano. Na América Latina, ele é um dos mais vigorosos e prestigiados. Nove Rainhas (Nueve Reinas, Argentina, 2000), a partir de sexta-feira em São Paulo, é uma mostra do que os brasileiros andam perdendo. Desde a primeira cena, a fita é intrigante. Um rapaz entra numa loja de conveniência, tira alguns produtos das prateleiras e segue para o caixa. Lá, confunde de tal forma a balconista que recebe de volta mais dinheiro do que entregou. Já vai saindo quando vê que a funcionária trocou de turno com outra moça. O rapaz corre para repetir o truque com a recém-chegada, mas é descoberto. Outro freguês se anuncia como policial e o leva embora. Mal andam um quarteirão e o "policial" o tranqüiliza: também é um golpista e precisa de um parceiro. A partir daí, o que se vê é a curiosíssima sucessão de pequenos trambiques, altamente engenhosos, que os dois vão aplicando pelas ruas de Buenos Aires. "Pesquisei esses golpes em jornais e conversei com delinqüentes", diz o diretor e roteirista Fabián Bielinsky, de 42 anos. "Mas a maior parte do repertório de trapaças veio das vítimas. Quase todo mundo que eu conheço tinha uma história para contar." Para o cineasta, esse é um estado de espírito com que os argentinos convivem intensamente no momento – o de que não há salvação.

Cada um dos dois protagonistas tem seu ponto forte. O rapaz da primeira cena, Juán (Gastón Pauls), tem uma cara irresistível de bom moço, enquanto o falso policial, Marcos (Ricardo Darín), faz o tipo audacioso. Formam uma ótima dupla. Ajudados pelo acaso, decidem partir para um grande golpe, que envolve as nove rainhas do título – uma série de selos raros que valem uma fortuna. No caminho, há uma moça com desejo de vingança (Leticia Brédice) e vários tipos escusos. Sem falar que, dada a natureza de seu trabalho, nenhum dos dois trapaceiros pode confiar no outro – nem deveria. É uma sensação idêntica à do espectador, que enfrenta a tarefa difícil, mas muito prazerosa, de tentar se antecipar aos protagonistas e descobrir quem está armando para quem.

Nove Rainhas pertence a uma corrente tradicional – a do "filme de golpe", em que os personagens se estudam a cada passo e, por sua vez, são estudados pela platéia, que divide com eles o papel de detetive. É uma prova de fogo para um cineasta. Bielinsky, contudo, sai dela sem sequer se chamuscar. Sua fita de estréia é de dar inveja até a gente experimentada no ofício – como o americano David Mamet, que já fez grandes filmes sobre o assunto, como Jogo de Emoções e A Trapaça. "Sempre tive fascínio por esse lado do crime, em que se usa a manipulação psicológica em vez de armas", diz o diretor de Nove Rainhas. É assim também que ele ganha a platéia. Sem violência e com inteligência.

   
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