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bambas
Nove
Rainhas é um exemplo do
ótimo cinema argentino,
que os
brasileiros desconhecem
Isabela
Boscov
Editorial Perfil
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| Darín,
Pauls e Leticia: golpes pesquisados em jornais, com trapaceiros e
entre as vítimas |
A
julgar pelo número ínfimo de filmes argentinos que chegam
ao Brasil, o país vizinho parece ter um cinema tão obscuro
quanto, digamos, o do Butão. Engano. Na América Latina,
ele é um dos mais vigorosos e prestigiados. Nove Rainhas
(Nueve Reinas, Argentina, 2000), a partir de sexta-feira em São
Paulo, é uma mostra do que os brasileiros andam perdendo. Desde
a primeira cena, a fita é intrigante. Um rapaz entra numa loja
de conveniência, tira alguns produtos das prateleiras e segue para
o caixa. Lá, confunde de tal forma a balconista que recebe de volta
mais dinheiro do que entregou. Já vai saindo quando vê que
a funcionária trocou de turno com outra moça. O rapaz corre
para repetir o truque com a recém-chegada, mas é descoberto.
Outro freguês se anuncia como policial e o leva embora. Mal andam
um quarteirão e o "policial" o tranqüiliza: também
é um golpista e precisa de um parceiro. A partir daí, o
que se vê é a curiosíssima sucessão de pequenos
trambiques, altamente engenhosos, que os dois vão aplicando pelas
ruas de Buenos Aires. "Pesquisei esses golpes em jornais e conversei com
delinqüentes", diz o diretor e roteirista Fabián Bielinsky,
de 42 anos. "Mas a maior parte do repertório de trapaças
veio das vítimas. Quase todo mundo que eu conheço tinha
uma história para contar." Para o cineasta, esse é um estado
de espírito com que os argentinos convivem intensamente no momento
o de que não há salvação.
Cada um dos dois protagonistas tem seu ponto forte. O rapaz da primeira
cena, Juán (Gastón Pauls), tem uma cara irresistível
de bom moço, enquanto o falso policial, Marcos (Ricardo Darín),
faz o tipo audacioso. Formam uma ótima dupla. Ajudados pelo acaso,
decidem partir para um grande golpe, que envolve as nove rainhas do título
uma série de selos raros que valem uma fortuna. No caminho,
há uma moça com desejo de vingança (Leticia Brédice)
e vários tipos escusos. Sem falar que, dada a natureza de seu trabalho,
nenhum dos dois trapaceiros pode confiar no outro nem deveria.
É uma sensação idêntica à do espectador,
que enfrenta a tarefa difícil, mas muito prazerosa, de tentar se
antecipar aos protagonistas e descobrir quem está armando para
quem.
Nove
Rainhas pertence a uma corrente tradicional a do "filme de
golpe", em que os personagens se estudam a cada passo e, por sua vez,
são estudados pela platéia, que divide com eles o papel
de detetive. É uma prova de fogo para um cineasta. Bielinsky, contudo,
sai dela sem sequer se chamuscar. Sua fita de estréia é
de dar inveja até a gente experimentada no ofício
como o americano David Mamet, que já fez grandes filmes sobre o
assunto, como Jogo de Emoções e A Trapaça.
"Sempre tive fascínio por esse lado do crime, em que se usa a manipulação
psicológica em vez de armas", diz o diretor de Nove Rainhas.
É assim também que ele ganha a platéia. Sem violência
e com inteligência.
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