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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Trator e irrigação
na terra do sol

Tecnologia muda a vida em
regiões que
antes lembravam
filmes de Glauber Rocha

Lucila Soares

 
Divulgação
Fábrica da Ceval em Barreiras: a cultura da soja atraiu indústrias

O município de Barreiras, a 900 quilômetros de Salvador, está plantado sobre um solo arenoso, numa região onde chove quase tão pouco quanto no sertão nordestino. Tinha tudo para continuar a ser um lugarejo paupérrimo, como era até o início dos anos 70. Hoje, a cidade tem 100.000 habitantes e produz soja, milho, arroz e feijão com níveis de produtividade próximos aos melhores do país. A receita? Correção do solo, que é reconhecidamente muito pobre, utilização de sementes adaptadas ao cerrado e uma técnica chamada de "plantio direto", que consiste em proteger a terra com palha e, assim, preservar a pouca umidade existente. O resultado é uma revolução tecnológica que fez a agricultura de Barreiras crescer 20% ao ano desde os anos 70. De carona, indústrias como a Ceval, produtora de derivados de soja, instalaram-se na região, que cresceu a uma taxa quatro vezes maior que a do Brasil – 12,3% ao ano, contra 3,2% da média nacional.

Barreiras é a estrela de um estudo do economista Regis Bonelli, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Não é a primeira vez que a força do interior do Brasil é objeto de análise. O fenômeno chama a atenção de economistas, sociólogos e teóricos do desenvolvimento desde meados da década de 90, quando se acentuou a crise das grandes regiões metropolitanas. Mas Bonelli debruçou-se sobre um aspecto normalmente deixado em segundo plano: o papel da tecnologia agropecuária como combustível do crescimento. Ele próprio é autor de um estudo que demonstra como é compensador o investimento em tecnologia agrícola. Ainda assim, surpreendeu-se com o retrato que surgiu da análise de 23 pólos agrícolas nos últimos vinte anos, feita por encomenda da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Em todos eles, o desempenho da agropecuária foi muito acima da média nacional e alavancou o produto interno bruto local a taxas também muito superiores às do país (veja quadro). "Quando a renda do campo aumenta 1%, a renda da indústria e dos serviços aumenta na mesma proporção", diz Bonelli.


Leo Caldas/Lumiar
Embalagem de frutas para exportação em Petrolina: sucesso garantido pela irrigação


Na vida real, isso significa uma cadeia. O aumento do poder de consumo de quem se dedica à atividade agrícola torna o mercado local interessante e atrai empresas, que empregam gente e realimentam a riqueza originada no campo. Que o diga Petrolina, em Pernambuco, considerada a capital da "Califórnia brasileira" que se formou a partir da agricultura irrigada na área do Rio São Francisco. A cidade notabilizou-se pela produção de frutas para exportação, algo impensável na região do semi-árido nordestino há pouco mais de trinta anos. Desde 1975, a agricultura da região cresceu 13,3%, contra 2,7% de Pernambuco. A população que vive da atividade agropecuária passou de 7.600 habitantes para 52.200 no mesmo período – o que inclui um forte fluxo migratório de outras regiões do país. O resultado é que Petrolina é hoje um dos mais prósperos pólos urbanos do Estado, com duas faculdades, 425 indústrias, um shopping center e uma classe média forte.

A história se repete em graus variados nos demais municípios e regiões. Fazem parte da lista cidades das quais o Brasil urbano jamais ouviu falar, como Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, onde a irrigação também provocou uma revolução. Outros nomes são associados historicamente à agricultura e à pecuária, como Maringá e Londrina, no Paraná, São Joaquim e Fraiburgo, em Santa Catarina, e Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Outro lote, liderado por Barretos, em São Paulo, explodiu recentemente, espalhando pelo país a música e a moda sertanejas, que deixaram de uma hora para a outra de ser chamadas pejorativamente de "caipiras".

Nada se compara, no entanto, ao que aconteceu na região dos cerrados, uma enormidade de 204 milhões de hectares espalhada pelas regiões Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Norte. Até o início dos anos 70, esse mar de terras era um grande pasto ocupado pela pecuária mais atrasada. Hoje ameaça a liderança do Sul do país na produção nacional de grãos e, na última safra, Mato Grosso bateu o Paraná, tradicional campeão brasileiro na colheita de soja. Essa é uma conquista que se deve fundamentalmente ao avanço tecnológico. "No solo do cerrado falta tudo, menos alumínio, que é tóxico", diz o agrônomo Carlos Magno, da Embrapa Cerrados, que se dedica há mais de vinte anos ao desenvolvimento de novas técnicas de ocupação agrícola do cerrado brasileiro. Na semana passada, ele foi homenageado em Barreiras com um troféu apelidado com bom humor de "Oscar do Oeste Baiano". Magno conhece a cidade há mais de vinte anos e se impressiona com a mudança. "Parecia filme de Glauber Rocha e agora tem clube, supermercado, tudo."


Fenômeno parecido aconteceu em Paracatu, interior de Minas Gerais, e nos pólos liderados por Dourados, em Mato Grosso do Sul, e Rondonópolis, Mato Grosso. São exemplos de que o desenvolvimento econômico provocado pela agropecuária acelera a urbanização. Essa é, aliás, outra conclusão importante do estudo de Regis Bonelli. Ao crescimento econômico resultante da agricultura corresponde uma melhoria concreta nas condições de vida da população e nos índices de inclusão social, ou seja, de acesso aos serviços fundamentais a que um cidadão tem direito. O economista utilizou a metodologia da Organização das Nações Unidas (ONU) para o índice de desenvolvimento humano (IDH) e comparou a vida nos 23 municípios estudados em duas épocas: o início dos anos 70 e a década de 90. Chegou a uma conclusão espantosa. No ponto de partida da comparação, as condições de catorze municípios seriam classificadas como baixas e nenhum ficaria na faixa mais alta. Vinte anos depois, apenas quatro cidades permaneciam na base da pirâmide, dezesseis foram alçadas à faixa intermediária e três passaram a oferecer boas condições de saúde, educação e habitação. "É um mundo que o Brasil não conhece, porque os fenômenos urbanos são mais facilmente percebidos pelos agentes econômicos, pelos governos e pela opinião pública", diz Bonelli. É pena. Em tempos de apagão, esse outro Brasil lança luz sobre questões fundamentais para acertar o foco das políticas de incentivo do país.


 
 
   
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