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Trator e irrigação
na terra do sol
Tecnologia
muda a vida
em
regiões que antes
lembravam
filmes de Glauber Rocha
Lucila Soares
Divulgação
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| Fábrica
da Ceval em Barreiras: a cultura da soja atraiu indústrias
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O
município de Barreiras, a 900 quilômetros de Salvador, está
plantado sobre um solo arenoso, numa região onde chove quase tão
pouco quanto no sertão nordestino. Tinha tudo para continuar a
ser um lugarejo paupérrimo, como era até o início
dos anos 70. Hoje, a cidade tem 100.000 habitantes e produz soja, milho,
arroz e feijão com níveis de produtividade próximos
aos melhores do país. A receita? Correção do solo,
que é reconhecidamente muito pobre, utilização de
sementes adaptadas ao cerrado e uma técnica chamada de "plantio
direto", que consiste em proteger a terra com palha e, assim, preservar
a pouca umidade existente. O resultado é uma revolução
tecnológica que fez a agricultura de Barreiras crescer 20% ao ano
desde os anos 70. De carona, indústrias como a Ceval, produtora
de derivados de soja, instalaram-se na região, que cresceu a uma
taxa quatro vezes maior que a do Brasil 12,3% ao ano, contra 3,2%
da média nacional.
Barreiras é a estrela de um estudo do economista Regis Bonelli,
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Não é
a primeira vez que a força do interior do Brasil é objeto
de análise. O fenômeno chama a atenção de economistas,
sociólogos e teóricos do desenvolvimento desde meados da
década de 90, quando se acentuou a crise das grandes regiões
metropolitanas. Mas Bonelli debruçou-se sobre um aspecto normalmente
deixado em segundo plano: o papel da tecnologia agropecuária como
combustível do crescimento. Ele próprio é autor de
um estudo que demonstra como é compensador o investimento em tecnologia
agrícola. Ainda assim, surpreendeu-se com o retrato que surgiu
da análise de 23 pólos agrícolas nos últimos
vinte anos, feita por encomenda da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
Em todos eles, o desempenho da agropecuária foi muito acima da
média nacional e alavancou o produto interno bruto local a taxas
também muito superiores às do país (veja
quadro).
"Quando a renda do campo aumenta 1%, a renda da indústria e dos
serviços aumenta na mesma proporção", diz Bonelli.
Leo Caldas/Lumiar
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| Embalagem
de frutas para exportação em Petrolina: sucesso garantido pela irrigação |
Na vida real, isso significa uma cadeia. O aumento do poder de consumo
de quem se dedica à atividade agrícola torna o mercado local
interessante e atrai empresas, que empregam gente e realimentam a riqueza
originada no campo. Que o diga Petrolina, em Pernambuco, considerada a
capital da "Califórnia brasileira" que se formou a partir da agricultura
irrigada na área do Rio São Francisco. A cidade notabilizou-se
pela produção de frutas para exportação, algo
impensável na região do semi-árido nordestino há
pouco mais de trinta anos. Desde 1975, a agricultura da região
cresceu 13,3%, contra 2,7% de Pernambuco. A população que
vive da atividade agropecuária passou de 7.600 habitantes para
52.200 no mesmo período o que inclui um forte fluxo migratório
de outras regiões do país. O resultado é que Petrolina
é hoje um dos mais prósperos pólos urbanos do Estado,
com duas faculdades, 425 indústrias, um shopping center e uma classe
média forte.
A história se repete em graus variados nos demais municípios
e regiões. Fazem parte da lista cidades das quais o Brasil urbano
jamais ouviu falar, como Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, onde a
irrigação também provocou uma revolução.
Outros nomes são associados historicamente à agricultura
e à pecuária, como Maringá e Londrina, no Paraná,
São Joaquim e Fraiburgo, em Santa Catarina, e Bento Gonçalves,
no Rio Grande do Sul. Outro lote, liderado por Barretos, em São
Paulo, explodiu recentemente, espalhando pelo país a música
e a moda sertanejas, que deixaram de uma hora para a outra de ser chamadas
pejorativamente de "caipiras".
Nada se compara, no entanto, ao que aconteceu na região dos cerrados,
uma enormidade de 204 milhões de hectares espalhada pelas regiões
Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Norte. Até o início dos
anos 70, esse mar de terras era um grande pasto ocupado pela pecuária
mais atrasada. Hoje ameaça a liderança do Sul do país
na produção nacional de grãos e, na última
safra, Mato Grosso bateu o Paraná, tradicional campeão brasileiro
na colheita de soja. Essa é uma conquista que se deve fundamentalmente
ao avanço tecnológico. "No solo do cerrado falta tudo, menos
alumínio, que é tóxico", diz o agrônomo Carlos
Magno, da Embrapa Cerrados, que se dedica há mais de vinte anos
ao desenvolvimento de novas técnicas de ocupação
agrícola do cerrado brasileiro. Na semana passada, ele foi homenageado
em Barreiras com um troféu apelidado com bom humor de "Oscar do
Oeste Baiano". Magno conhece a cidade há mais de vinte anos e se
impressiona com a mudança. "Parecia filme de Glauber Rocha e agora
tem clube, supermercado, tudo."
Fenômeno
parecido aconteceu em Paracatu, interior de Minas Gerais, e nos pólos
liderados por Dourados, em Mato Grosso do Sul, e Rondonópolis,
Mato Grosso. São exemplos de que o desenvolvimento econômico
provocado pela agropecuária acelera a urbanização.
Essa é, aliás, outra conclusão importante do estudo
de Regis Bonelli. Ao crescimento econômico resultante da agricultura
corresponde uma melhoria concreta nas condições de vida
da população e nos índices de inclusão social,
ou seja, de acesso aos serviços fundamentais a que um cidadão
tem direito. O economista utilizou a metodologia da Organização
das Nações Unidas (ONU) para o índice de desenvolvimento
humano (IDH) e comparou a vida nos 23 municípios estudados em duas
épocas: o início dos anos 70 e a década de 90. Chegou
a uma conclusão espantosa. No ponto de partida da comparação,
as condições de catorze municípios seriam classificadas
como baixas e nenhum ficaria na faixa mais alta. Vinte anos depois, apenas
quatro cidades permaneciam na base da pirâmide, dezesseis foram
alçadas à faixa intermediária e três passaram
a oferecer boas condições de saúde, educação
e habitação. "É um mundo que o Brasil não
conhece, porque os fenômenos urbanos são mais facilmente
percebidos pelos agentes econômicos, pelos governos e pela opinião
pública", diz Bonelli. É pena. Em tempos de apagão,
esse outro Brasil lança luz sobre questões fundamentais
para acertar o foco das políticas de incentivo do país.
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