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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Baixaria em Nova York

Separados, mas morando
juntos, Rudy e Donna
quebram
o pau em público


AP/Jason Szenes
O prefeito Giuliani com a namorada, Judith: a vantagem da impotência


A elegante Gracie Mansion, um casarão de 200 anos debruçado sobre o Rio East que serve de residência oficial para o prefeito de Nova York, está vivendo dias de autêntico barraco. Lá moram, em clima de total desarmonia, o prefeito Rudolph Giuliani, 57 anos, e a mulher de quem está se divorciando, Donna Hanover, 51, que ocupa a maior parte da ala residencial junto com os dois filhos do casal, Andrew, 15, e Caroline, 11. É de praxe que processos de divórcio produzam brigas, troca de desaforos e constrangimento geral nas famílias comuns. Multipliquem-se os destemperos por dez, amplie-se a platéia para milhões, coloque-se a briga na cidade que se considera o centro do mundo, e tem-se idéia do tamanho do escândalo que quase sempre é a separação de figuras públicas – nesse caso, um político que até pouco tempo atrás aspirava a chegar à Casa Branca e sua mulher independente e voluntariosa. Neste momento, Giuliani e Donna, cada um de sua trincheira na Gracie Mansion, dedicam-se, por intermédio de seus advogados, a pintar um ao outro com as piores cores possíveis e a passar por vítimas. Nesse departamento, Giuliani deu um golpe insuperável: disse que está impotente, por causa do tratamento para câncer na próstata. Nova York, naturalmente, não fala de outra coisa.



Henry Mc Gee
A primeira-dama Donna: suíte confortável e ginástica às 5 da manhã


O último round da batalha Giuliani-Hanover (sobrenome do primeiro marido, que ela mantém) começou com um golpe dela: em maio, pediu à Justiça que proibisse a entrada na casa oficial da "amante" dele, Judith Nathan, que vem assumindo com desenvoltura cada vez maior o papel de primeira-dama informal em ocasiões oficiais – entre elas jantares e recepções em Gracie Mansion. Entra em campo Raoul Felder, o advogado-pitbull dos divórcios escandalosos (
veja quadro), que atua em nome de Giuliani: "Donna Hanover vai se acorrentar ao lustre" da mansão, ironizou Felder, e o próximo prefeito terá de "removê-la do local em meio a mordidas, unhadas e arranhões". Em pleno Dia das Mães, o advogado acusou Donna de só querer saber de si e "não ligar para o que possa acontecer aos filhos". A peroração não adiantou – a juíza encarregada do caso acatou o pedido de banimento de Judith, a namorada de aparência e idade (46 anos) surpreendentemente compatíveis que o prefeito arranjou.

Para cultivar a simpatia da opinião pública, a tropa de choque do prefeito divulgou detalhes de sua vida de cachorro na Gracie Mansion. Enquanto Donna flanava em esplendor em sua espaçosa suíte, "Rudy", como é chamado, foi exilado em um quarto de hóspedes onde só cabe a cama. Ao longo do doloroso tratamento contra o câncer, com drogas e radioterapia, ficou sozinho, sem nem um braço amigo para ampará-lo durante as freqüentes crises de vômito. Para piorar, a perversa Donna deu de fazer ginástica, às 5 da manhã, com grande estardalhaço, nos aparelhos que montou numa sala exatamente sobre o quartinho do ex-marido. Por causa do tratamento médico, Giuliani está impotente – uma declaração de natureza íntima que tem a vantagem de, tecnicamente, descaracterizar como adultério suas escapadas de fim de semana com Judith em hotéis chiques da cidade.

Enquanto se engalfinha publicamente com a ex-mulher, o prefeito lhe corta mordomias. Na semana passada, reposicionou duas das quatro (isso mesmo: quatro) assessoras que "cuidam da agenda, ajudam nos trabalhos sociais e coordenam os horários das crianças" da entrincheirada primeira-dama. Também removeu três dos quatro seguranças de Donna. Praticamente na mesma canetada, destacou um policial para proteger Judith, argumentando que ela agora também é figura pública. A reação de Donna mirou na parte mais sensível do homem: o bolso. Ela pede à Justiça que Rudy, pessoa física, pague o salário das assessoras que despediu e mais 200.000 dólares em despesas com o processo (que mal começou e já chega a 40.000). Ridículo, bradou Felder – "ele ganha menos que ela". Giuliani, como prefeito, recebe 195.000 dólares por ano. Donna, ex-apresentadora de TV que faz ponta em filmes e seriados (foi convidada para um papel de destaque na peça Monólogos da Vagina, vacilou, mas não aceitou), arrecadou 285.000 dólares no ano passado.


AP/Mark Lennihan
A arena Gracie Mansion: cada um em sua trincheira


Rudy e Donna, ambos divorciados, conheceram-se em 1982, quando ele era promotor e ela, repórter de TV em Miami. Casaram-se dois anos depois e posavam de casal-modelo quando ele assumiu a prefeitura pela primeira vez, em 1994. Após um ano, todo mundo comentava a intimidade dele com uma de suas assessoras; ela, por sua vez, dedicava-se mais à carreira de atriz que às funções de primeira-dama. Daí em diante, a situação só degringolou. Em maio do ano passado, ele virou a mesa: anunciou que estava se separando de Donna, apresentou Judith como uma "muito boa amiga", comunicou que tinha câncer de próstata e desistiu da disputa com Hillary Clinton pelo Senado. Desde então, vem chacoalhando a imagem de prefeito durão e excêntrico, arauto da tolerância zero contra o crime, herói da cruzada contra as zonas de prostituição da cidade, autoproclamado defensor da moral e dos bons costumes (embora não se furte a se fantasiar de mulher em ocasiões seletas e com fins beneficentes). Em seu último ano de mandato, diante de nova-iorquinos ao mesmo tempo fascinados e aborrecidos com tanta baixaria, Rudolph Giuliani e Donna Hanover são mais um casal, entre tantos, cujo casamento acabou em divórcio. E dos feios.

 

O pitbull preferido das celebridades


AP/Bolivar Arellano
Felder, com Luciana: mestre em espremer


Não existe nos Estados Unidos profissão mais execrada que advogado especializado em divórcio. Isto é, até que você precise de um. Se for o caso, tente marcar hora com Raoul Felder, o exterminador conjugal convocado pelo prefeito Rudolph Giuliani para a guerra contra sua ex, Donna Hanover. Vai custar caro, mas vale a pena. Aos 67 anos, especializado em processos envolvendo celebridades, Felder é tarimbadíssimo no ofício de denegrir, constranger e espremer adversários. Em seu currículo de pitbull da vara de família, exibe, entre outros feitos, a representação da atriz Robin Givens no divórcio do pugilista Mike Tyson, do ex-caminhoneiro Larry Fortensky na separação de Elizabeth Taylor e, mais recentemente, de Luciana Gimenez na ação que moveu para receber pensão de Mick Jagger, pai de seu filho, Lucas. Felder arrancou de Jagger (a quem chama de "o enrugado roqueiro") 15.000 dólares por mês. "Ele é mais que um advogado, é um amigão", derrete-se Luciana.

Felder também se proclama amicíssimo de Giuliani. Por isso, afirma, "esse caso desperta tanta paixão em mim". Isso e a notoriedade e o dinheiro que o processo renderá a seu escritório, onde a hora custa 500 dólares e os honorários podem chegar a 1 milhão. Louco por publicidade, Felder tem um programa semanal de rádio e vive na TV emitindo opiniões sobre processos dos outros. Mestre em frases de efeito, adora repetir a máxima: "Não sendo ilegal, imoral, antiético ou engordativo, eu faço". Casado há 38 anos com Myrna, credita a longa união ao fato de que, no fundo, é contra o divórcio. "É caro demais", justifica.

 

   
 
   
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