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Mais rico e mais
forte
A
vida, o tênis e a rotina de Guga
mudaram. Quase tudo para melhor

Diogo
Schelp, de Florianópolis
Jean-Paul Pelissie/Reuters
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| Guga:
marketing no saibro |
Quando
venceu o torneio de Roland Garros pela primeira vez, aos 20 anos, o tenista
catarinense Gustavo Kuerten usava uma roupa que lembrava uma zebra e destruía
a paciência dos adversários devolvendo bolas a partir do
fundo da quadra no ritmo de um relógio. Com exceção
do peso, 81 quilos, e da altura, 1,91 metro, as características
de Guga tinham mudado muito até a partida do domingo 10, oportunidade
para tentar vencer pela terceira vez a etapa francesa do circuito nobre
do tênis mundial. A maioria das mudanças foi para melhor.
Mais forte, mais concentrado e mais agressivo no jogo, Guga fez toda a
lição de casa para justificar o equilíbrio entre
o primeiro e o segundo degraus do ranking mundial, uma condição
que alcançou no ano passado, quando começou a transformar
suas táticas. A novidade mais visível é o mutismo
do jogador. Em 1997, cumprimentava até os monumentos de Paris.
Hoje mal rabisca autógrafos para os fãs.
"Concentração
nunca é demais", justificou, antes de Roland Garros, o técnico
Larri Passos, autor e praticante desse mandamento. "Antes, o Guga ia disputar
os jogos. Agora, entra na quadra para ganhar." Depois de uma fase difícil
nos dois anos seguintes ao primeiro triunfo, a dupla aderiu ao modelo
que fez dos americanos Pete Sampras e Andre Agassi donos de muitos prêmios,
entre eles o "troféu limão", que as torcidas atribuem aos
jogadores mais antipáticos. O brasileiro só se salva desse
risco porque inventa gestos que derretem a galera. Na quarta rodada em
Paris, depois de quase perder para o americano Michael Hussell, Guga desenhou
um coração no chão, com a raquete, e ajoelhou-se
dentro dele para agradecer ao incentivo da torcida. O jornal francês
L'Equipe recomendou ao tenista a carreira de publicitário.
Tecnicamente, também mudaram o saque de Guga, que está 5%
mais rápido, passando dos 210 quilômetros por hora, e sua
postura na quadra. A estratégia hoje é avançar sobre
as linhas, empurrando o adversário para o fundo até surpreendê-lo
com bolas curtas, paralelas ou cruzadas num ângulo menor que 45
graus em relação à rede.
Rogerio Montenegro
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| Maryeva:
namoro desde março |
Guga ataca forte porque agora tem o que perder. A Associação
dos Tenistas Profissionais faz duas contagens de pontos. Na que ele liderava
na semana passada, premia-se o tenista com melhores resultados nas 52
semanas anteriores. Na outra, cujo primeiro era Andre Agassi, lidera quem
tem as vitórias mais expressivas do ano. Pelos contratos de patrocínio,
um tenista recebe mais dinheiro quanto mais alta é sua posição
nesses dois sistemas. Ao ultrapassar a barreira dos 10 milhões
de dólares em prêmios, jogando em Paris, Gustavo Kuerten
defende uma conta bancária três vezes mais gorda, graças
aos patrocinadores.
Assim como Ayrton Senna, Pelé e toda a linhagem de atletas ricos,
Guga repete que o sucesso não mudou o seu jeito simples de rapaz
modesto. "Ele continua tentando fazer o que sempre fez", diz a mãe
de Guga, dona Alice. A vida pessoal do tenista, no entanto, também
passou por grandes alterações. "Quando ganhei Roland Garros
pela primeira vez, eu fiquei lindo", comentou Guga com um amigo, tratando
de seu sucesso com as garotas. "Ao ganhar de novo, virei bilindo. Se tornar
a vencer, vou ficar trilindo." Depois das chateações provocadas
por uma ex-namorada que decidiu contar alguns detalhes do relacionamento
e mostrar outros na revista Playboy, o jogador achou a fórmula
de enfrentar o assédio de modelos. Cede. Mas só faz publicidade
para os mais chegados. Em março passado, na noite em que começou
a namorar a catarinense Maryeva Oliveira (a moça da gotinha de
suor na propaganda de cerveja), deu um vexame. Voltou a encontrar os amigos
de madrugada e desandou a contar vantagem antes de perceber que Susana
Werner, ex do jogador Ronaldinho, estava entre eles.
Guga estudou com o irmão Rafael, seu mentor financeiro, a possibilidade
de viver em Mônaco, para ficar mais perto dos torneios do Hemisfério
Norte e longe do Leão do imposto de renda brasileiro. Decidiu,
porém, continuar em Florianópolis. É o único
lugar em que pode divertir-se longe da vigilância do técnico
Larri Passos, que tem na vida do tenista o papel de Marlene Mattos na
existência de Xuxa. No Brasil, Larri passa um tempão em Camboriú,
onde tem uma academia de tênis. E então Guga pode encher-se
de cerveja e churrasco, pagando tudo para os amigos, zanzar de madrugada
e até se esgoelar num karaokê. No princípio da fama,
fazia tudo isso nos bares de Florianópolis. Agora tem dois apartamentos
montados apenas para essas pequenas farras.
Larri, que decide o cardápio e exclui carnes das refeições
da véspera dos jogos, prepara pessoalmente a bebida isotônica
que Guga consome na quadra e passa todo o tempo ao lado de seu pupilo.
Para se ter idéia da chatice da rotina da dupla, basta lembrar
que, nos dois dias de folga antes da semifinal em Roland Garros, Guga
passou o tempo estudando o jogo do adversário. Enquanto isso, Juan
Carlos Ferrero, o oponente, ia passear de barco, brincava no Parque Asterix
e arriscava olhares para várias moças que cruzavam seu caminho.
"Sabe como é?", perguntava. "Estou sem namorada, posso arrumar
alguma." Não se sabe se arrumou, mas perdeu o jogo por 3 sets a
0.
Quando Guga enfrentou a primeira entressafra de vitórias depois
de um título, em 1998, não faltou quem apostasse que a troca
de técnico seria a primeira das mudanças na vida do tenista.
Esses perderam. Larri é sistemático e exigente como era
o pai de Guga, o pequeno empresário Aldo, que enfartou e morreu
apitando um jogo de tênis quando o garoto tinha 8 anos. O temperamento
ajuda o técnico a ter toda a confiança dos Kuerten. Ele
vigia, palpita e dá pitos, e fica com 20% dos prêmios. O
menino tinha 14 anos quando dona Alice o enviou a Blumenau para treinar
com o técnico gaúcho que o pai de Guga elogiava antes de
morrer. Muitas vezes Guga chorava à noite, sentindo falta dos familiares.
Em menos de um ano, quis voltar para casa. Aí foi Larri quem passou
a se deslocar para treiná-lo. Desde então, formam um time
que está ganhando. Nesse aspecto, Guga não tem intenção
de mudar.
Com
reportagem de Fernando Valeika
de Barros, de Paris
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