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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Mais rico e mais forte

A vida, o tênis e a rotina de Guga
mudaram. Quase tudo para melhor

Diogo Schelp, de Florianópolis

Jean-Paul Pelissie/Reuters
Guga: marketing no saibro

Quando venceu o torneio de Roland Garros pela primeira vez, aos 20 anos, o tenista catarinense Gustavo Kuerten usava uma roupa que lembrava uma zebra e destruía a paciência dos adversários devolvendo bolas a partir do fundo da quadra no ritmo de um relógio. Com exceção do peso, 81 quilos, e da altura, 1,91 metro, as características de Guga tinham mudado muito até a partida do domingo 10, oportunidade para tentar vencer pela terceira vez a etapa francesa do circuito nobre do tênis mundial. A maioria das mudanças foi para melhor. Mais forte, mais concentrado e mais agressivo no jogo, Guga fez toda a lição de casa para justificar o equilíbrio entre o primeiro e o segundo degraus do ranking mundial, uma condição que alcançou no ano passado, quando começou a transformar suas táticas. A novidade mais visível é o mutismo do jogador. Em 1997, cumprimentava até os monumentos de Paris. Hoje mal rabisca autógrafos para os fãs.

"Concentração nunca é demais", justificou, antes de Roland Garros, o técnico Larri Passos, autor e praticante desse mandamento. "Antes, o Guga ia disputar os jogos. Agora, entra na quadra para ganhar." Depois de uma fase difícil nos dois anos seguintes ao primeiro triunfo, a dupla aderiu ao modelo que fez dos americanos Pete Sampras e Andre Agassi donos de muitos prêmios, entre eles o "troféu limão", que as torcidas atribuem aos jogadores mais antipáticos. O brasileiro só se salva desse risco porque inventa gestos que derretem a galera. Na quarta rodada em Paris, depois de quase perder para o americano Michael Hussell, Guga desenhou um coração no chão, com a raquete, e ajoelhou-se dentro dele para agradecer ao incentivo da torcida. O jornal francês L'Equipe recomendou ao tenista a carreira de publicitário. Tecnicamente, também mudaram o saque de Guga, que está 5% mais rápido, passando dos 210 quilômetros por hora, e sua postura na quadra. A estratégia hoje é avançar sobre as linhas, empurrando o adversário para o fundo até surpreendê-lo com bolas curtas, paralelas ou cruzadas num ângulo menor que 45 graus em relação à rede.


Rogerio Montenegro
Maryeva: namoro desde março


Guga ataca forte porque agora tem o que perder. A Associação dos Tenistas Profissionais faz duas contagens de pontos. Na que ele liderava na semana passada, premia-se o tenista com melhores resultados nas 52 semanas anteriores. Na outra, cujo primeiro era Andre Agassi, lidera quem tem as vitórias mais expressivas do ano. Pelos contratos de patrocínio, um tenista recebe mais dinheiro quanto mais alta é sua posição nesses dois sistemas. Ao ultrapassar a barreira dos 10 milhões de dólares em prêmios, jogando em Paris, Gustavo Kuerten defende uma conta bancária três vezes mais gorda, graças aos patrocinadores.

Assim como Ayrton Senna, Pelé e toda a linhagem de atletas ricos, Guga repete que o sucesso não mudou o seu jeito simples de rapaz modesto. "Ele continua tentando fazer o que sempre fez", diz a mãe de Guga, dona Alice. A vida pessoal do tenista, no entanto, também passou por grandes alterações. "Quando ganhei Roland Garros pela primeira vez, eu fiquei lindo", comentou Guga com um amigo, tratando de seu sucesso com as garotas. "Ao ganhar de novo, virei bilindo. Se tornar a vencer, vou ficar trilindo." Depois das chateações provocadas por uma ex-namorada que decidiu contar alguns detalhes do relacionamento e mostrar outros na revista Playboy, o jogador achou a fórmula de enfrentar o assédio de modelos. Cede. Mas só faz publicidade para os mais chegados. Em março passado, na noite em que começou a namorar a catarinense Maryeva Oliveira (a moça da gotinha de suor na propaganda de cerveja), deu um vexame. Voltou a encontrar os amigos de madrugada e desandou a contar vantagem antes de perceber que Susana Werner, ex do jogador Ronaldinho, estava entre eles.

Guga estudou com o irmão Rafael, seu mentor financeiro, a possibilidade de viver em Mônaco, para ficar mais perto dos torneios do Hemisfério Norte e longe do Leão do imposto de renda brasileiro. Decidiu, porém, continuar em Florianópolis. É o único lugar em que pode divertir-se longe da vigilância do técnico Larri Passos, que tem na vida do tenista o papel de Marlene Mattos na existência de Xuxa. No Brasil, Larri passa um tempão em Camboriú, onde tem uma academia de tênis. E então Guga pode encher-se de cerveja e churrasco, pagando tudo para os amigos, zanzar de madrugada e até se esgoelar num karaokê. No princípio da fama, fazia tudo isso nos bares de Florianópolis. Agora tem dois apartamentos montados apenas para essas pequenas farras.

Larri, que decide o cardápio e exclui carnes das refeições da véspera dos jogos, prepara pessoalmente a bebida isotônica que Guga consome na quadra e passa todo o tempo ao lado de seu pupilo. Para se ter idéia da chatice da rotina da dupla, basta lembrar que, nos dois dias de folga antes da semifinal em Roland Garros, Guga passou o tempo estudando o jogo do adversário. Enquanto isso, Juan Carlos Ferrero, o oponente, ia passear de barco, brincava no Parque Asterix e arriscava olhares para várias moças que cruzavam seu caminho. "Sabe como é?", perguntava. "Estou sem namorada, posso arrumar alguma." Não se sabe se arrumou, mas perdeu o jogo por 3 sets a 0.

Quando Guga enfrentou a primeira entressafra de vitórias depois de um título, em 1998, não faltou quem apostasse que a troca de técnico seria a primeira das mudanças na vida do tenista. Esses perderam. Larri é sistemático e exigente como era o pai de Guga, o pequeno empresário Aldo, que enfartou e morreu apitando um jogo de tênis quando o garoto tinha 8 anos. O temperamento ajuda o técnico a ter toda a confiança dos Kuerten. Ele vigia, palpita e dá pitos, e fica com 20% dos prêmios. O menino tinha 14 anos quando dona Alice o enviou a Blumenau para treinar com o técnico gaúcho que o pai de Guga elogiava antes de morrer. Muitas vezes Guga chorava à noite, sentindo falta dos familiares. Em menos de um ano, quis voltar para casa. Aí foi Larri quem passou a se deslocar para treiná-lo. Desde então, formam um time que está ganhando. Nesse aspecto, Guga não tem intenção de mudar.

Com reportagem de Fernando Valeika
de Barros, de Paris


   
 
   
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