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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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O salto do brasileiro voador

Marcelo Gomes é destaque no
elenco do American Ballet Theatre

Silvia Rogar


Jack Vartoogian

Marcelo: aos 21 anos, papel principal nas coreografias importantes


Aos 21 anos, com 2 metros de altura e coxas grossas como toras amazônicas, Marcelo Gomes poderia estar triturando adversários no ringue ou nas quadras de tênis. No final deste mês, porém, Marcelo saltará para uma posição inédita entre seus similares nacionais. À frente do American Ballet Theatre, a companhia de dança clássica mais importante dos Estados Unidos, vai estrelar O Lago dos Cisnes no papel do príncipe Siegfried. Parece o final de Billy Elliot, o filme que retrata a saga do menino inglês que sonha em ser bailarino e foi indicado para três Oscar neste ano. Impressionados com a coincidência, os pais de Marcelo viram a fita três vezes – e se debulharam em lágrimas. Como Billy no fim do filme, Marcelo chegou a um ótimo momento na carreira. Em agosto passado, foi promovido a solista do American Ballet, no qual ingressou em 1997. Na temporada atual do grupo, que vai até o dia 23 no Metropolitan Opera House, em Nova York, ele foi coberto de elogios. A revista Dance Magazine, a mais prestigiada do mundo no assunto, apontou-o como um dos 25 nomes mais promissores da atual safra de jovens bailarinos.

"O progresso de Marcelo é muito rápido. Ele está executando atualmente papéis que os bailarinos não costumam ganhar antes dos 25 anos", aplaude David Richardson, vice-diretor artístico do ABT. Na lista desta temporada, que começou em 30 de abril, ele se desdobra entre os príncipes de O Lago dos Cisnes e de Cinderela e papéis principais em coreografias contemporâneas. Em algumas montagens, deixou em segundo plano o lendário Julio Bocca, astro argentino da companhia – e já um tanto passado da idade para o papel de galã, tanto que, em Cinderela, coube-lhe ser uma das irmãs malvadas da protagonista. Fora o sucesso artístico, a carreira de Marcelo tem um curioso aspecto comportamental. Seu caminho até Nova York não teve nada dos percalços familiares enfrentados pelo fictício Billy Elliot. Seus pais, um advogado e uma jornalista de classe média que se mudaram do Amazonas para o Rio de Janeiro quando ele era bebê, garantem que não se assustaram quando o menino, aos 5 anos, mostrou que levava jeito para dar piruetas: de tanto ir com a babá buscar a irmã mais velha na aula de dança, decorou e reproduziu toda a coreografia. Seu irmão Haroldo, redator do programa Casseta & Planeta, achou estranho no início, mas rendeu-se ao talento do caçula. "Deixei o machismo de lado", diz.

 
Selmy Yassuda

Jovens alunos do Teatro Municipal do Rio: chance de ascensão social

Matriculado em balé clássico aos 7 anos, dois anos depois Marcelo já fazia aulas diárias, assistido por Dalal Achcar, diretora do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e dona de uma das mais tradicionais academias da cidade. Só então as agruras da escolha começaram a pesar. No colégio, o tradicionalíssimo Sacré-Coeur de Marie, escondia dos colegas o gosto pela dança, fugia das aulas de educação física e detestava jogar bola – tinha medo de se machucar e ficar afastado do balé. "Deus me livre de futebol", brinca ele agora. Nos primeiros tempos nos Estados Unidos, esbarrou numa bailarina e os dois se estatelaram no chão. Ela não perdoou e virou inimiga. Agora, no entanto, seu talento é reconhecido por mestres e colegas. "Além da técnica, ele tem uma presença forte no palco", avaliza Dalal. Artística e concretamente, pois seus 2 metros de altura são raros num bailarino.

O sucesso no palco, numa das profissões mais competitivas e exigentes do mundo, tem como contrapartida a disciplina espartana – são cerca de nove horas de ensaios por dia. Mas a vida em Nova York tem suas compensações. O apartamento que Marcelo aluga fica no Upper West Side, ponto nobre da ilha. "Com um jardinzinho, para lembrar a natureza do Rio", completa. Por semana, recebe do American Ballet não menos que 1.300 dólares (3.000 reais), o dobro do que ganha, em média, um bailarino brasileiro por um mês inteiro de trabalho. Quando se apresenta como convidado de grupos menores, o cachê gira em torno de 4.000 dólares (9.000 reais). Marcelo gosta de ir a boates e jantar em bons restaurantes. Com a atividade física extenuante, nem pensa em dieta: come de tudo, massa, doces e leite condensado contrabandeado nas visitas paternas.

O sucesso de Marcelo Gomes é um exemplo para a novíssima geração de bailarinos brasileiros. Impulsionados principalmente por projetos sociais em comunidades carentes, muitos rapazes se animaram, nos últimos anos, a desafiar os preconceitos de sempre para se dedicar ao balé. O grupo mais jovem do Balé da Cidade de São Paulo tem, pela primeira vez, mais rapazes do que moças: são doze contra nove. Na Escola de Dança Maria Olenewa, do Teatro Municipal do Rio, estudam 25 garotos, oito deles com menos de 12 anos. "Há três anos, praticamente não havia meninos pequenos na escola", diz a diretora, Maria Luisa Noronha. A maioria é pobre, vê na dança uma chance de ascensão social e encara horas de ônibus para ir do subúrbio ao centro do Rio – caso de Marcos Paulo Mello, 11, que vai todo dia às aulas acompanhado da mãe. O pai e o irmão mais velho não aceitam sua escolha e nunca o viram dançar. Mas ele insiste: "Quero ser bailarino".

   
 
   
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