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O salto do brasileiro
voador
Marcelo Gomes é
destaque no
elenco do American Ballet Theatre

Silvia Rogar
Jack Vartoogian

Marcelo:
aos 21 anos, papel principal nas coreografias importantes
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Aos 21 anos, com 2 metros de altura e coxas grossas como toras amazônicas,
Marcelo Gomes poderia estar triturando adversários no ringue ou
nas quadras de tênis. No final deste mês, porém, Marcelo
saltará para uma posição inédita entre seus
similares nacionais. À frente do American Ballet Theatre, a companhia
de dança clássica mais importante dos Estados Unidos, vai
estrelar O Lago dos Cisnes no papel do príncipe Siegfried.
Parece o final de Billy Elliot, o filme que retrata a saga do menino
inglês que sonha em ser bailarino e foi indicado para três
Oscar neste ano. Impressionados com a coincidência, os pais de Marcelo
viram a fita três vezes e se debulharam em lágrimas.
Como Billy no fim do filme, Marcelo chegou a um ótimo momento na
carreira. Em agosto passado, foi promovido a solista do American Ballet,
no qual ingressou em 1997. Na temporada atual do grupo, que vai até
o dia 23 no Metropolitan Opera House, em Nova York, ele foi coberto de
elogios. A revista Dance Magazine, a mais prestigiada do mundo
no assunto, apontou-o como um dos 25 nomes mais promissores da atual safra
de jovens bailarinos.
"O progresso
de Marcelo é muito rápido. Ele está executando atualmente
papéis que os bailarinos não costumam ganhar antes dos 25
anos", aplaude David Richardson, vice-diretor artístico do ABT.
Na lista desta temporada, que começou em 30 de abril, ele se desdobra
entre os príncipes de O Lago dos Cisnes e de Cinderela
e papéis principais em coreografias contemporâneas. Em
algumas montagens, deixou em segundo plano o lendário Julio Bocca,
astro argentino da companhia e já um tanto passado da idade
para o papel de galã, tanto que, em Cinderela, coube-lhe
ser uma das irmãs malvadas da protagonista. Fora o sucesso artístico,
a carreira de Marcelo tem um curioso aspecto comportamental. Seu caminho
até Nova York não teve nada dos percalços familiares
enfrentados pelo fictício Billy Elliot. Seus pais, um advogado
e uma jornalista de classe média que se mudaram do Amazonas para
o Rio de Janeiro quando ele era bebê, garantem que não se
assustaram quando o menino, aos 5 anos, mostrou que levava jeito para
dar piruetas: de tanto ir com a babá buscar a irmã mais
velha na aula de dança, decorou e reproduziu toda a coreografia.
Seu irmão Haroldo, redator do programa Casseta & Planeta,
achou estranho no início, mas rendeu-se ao talento do caçula.
"Deixei o machismo de lado", diz.
Selmy Yassuda

Jovens
alunos do Teatro Municipal do Rio: chance de ascensão social
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Matriculado
em balé clássico aos 7 anos, dois anos depois Marcelo já
fazia aulas diárias, assistido por Dalal Achcar, diretora do Teatro
Municipal do Rio de Janeiro e dona de uma das mais tradicionais academias
da cidade. Só então as agruras da escolha começaram
a pesar. No colégio, o tradicionalíssimo Sacré-Coeur
de Marie, escondia dos colegas o gosto pela dança, fugia das aulas
de educação física e detestava jogar bola
tinha medo de se machucar e ficar afastado do balé. "Deus me livre
de futebol", brinca ele agora. Nos primeiros tempos nos Estados Unidos,
esbarrou numa bailarina e os dois se estatelaram no chão. Ela não
perdoou e virou inimiga. Agora, no entanto, seu talento é reconhecido
por mestres e colegas. "Além da técnica, ele tem uma presença
forte no palco", avaliza Dalal. Artística e concretamente, pois
seus 2 metros de altura são raros num bailarino.
O sucesso
no palco, numa das profissões mais competitivas e exigentes do
mundo, tem como contrapartida a disciplina espartana são
cerca de nove horas de ensaios por dia. Mas a vida em Nova York tem suas
compensações. O apartamento que Marcelo aluga fica no Upper
West Side, ponto nobre da ilha. "Com um jardinzinho, para lembrar a natureza
do Rio", completa. Por semana, recebe do American Ballet não menos
que 1.300 dólares (3.000
reais), o dobro do que ganha, em média, um bailarino brasileiro
por um mês inteiro de trabalho. Quando se apresenta como convidado
de grupos menores, o cachê gira em torno de 4.000
dólares (9.000 reais). Marcelo gosta
de ir a boates e jantar em bons restaurantes. Com a atividade física
extenuante, nem pensa em dieta: come de tudo, massa, doces e leite condensado
contrabandeado nas visitas paternas.
O sucesso
de Marcelo Gomes é um exemplo para a novíssima geração
de bailarinos brasileiros. Impulsionados principalmente por projetos sociais
em comunidades carentes, muitos rapazes se animaram, nos últimos
anos, a desafiar os preconceitos de sempre para se dedicar ao balé.
O grupo mais jovem do Balé da Cidade de São Paulo tem, pela
primeira vez, mais rapazes do que moças: são doze contra
nove. Na Escola de Dança Maria Olenewa, do Teatro Municipal do
Rio, estudam 25 garotos, oito deles com menos de 12 anos. "Há três
anos, praticamente não havia meninos pequenos na escola", diz a
diretora, Maria Luisa Noronha. A maioria é pobre, vê na dança
uma chance de ascensão social e encara horas de ônibus para
ir do subúrbio ao centro do Rio caso de Marcos Paulo Mello,
11, que vai todo dia às aulas acompanhado da mãe. O pai
e o irmão mais velho não aceitam sua escolha e nunca o viram
dançar. Mas ele insiste: "Quero ser bailarino".
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