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Viva a revolução
popular
Grandes
redes põem estilo
fashion ao alcance de todas
Bel
Moherdaui
| Fotos Fabio Mangabeira |
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Jaqueta:
39 reais
Camiseta: 25 reais
Calça: 55 reais
Cinto: 15 reais
Bota: 120 reais |
Casaco:
170
reais
Blusa: 72 reais
Short: 58 reais
Bota: 79 reais |
Jaqueta:
69 reais
Camiseta: 24,90 reais
Calça: 49 reais
Cinto: 29,90 reais
Bota: 98 reais |
Uma
revolução silenciosa está acontecendo nas grandes
redes onde uma parcela significativa dos consumidores brasileiros compra
suas roupas: em matéria de estilo, elas deram um formidável
salto de qualidade. O resultado é que, hoje, com pouco dinheiro
e alguma informação, qualquer pessoa pode entrar num desses
magazines e sair com uma roupinha na última moda. Quem mudou primeiro,
os grandes vendedores ou a clientela? Provavelmente as mudanças
foram simultâneas. À medida que a moda foi ganhando importância
maior em todas as esferas da sociedade e as informações
passaram a se disseminar na velocidade da era eletrônica, o público
ficou mais exigente. Ao mesmo tempo, os líderes do varejo perceberam
que precisavam antecipar-se a esses novos anseios de consumo. Ou seja,
com o perdão da redundância e do anglicismo, precisavam fazer
moda fashion. Sacudidas do marasmo criado por longos anos de coleções
apagadas e modorrentas, em que a preocupação com o estilo
era quase inexistente, C&A, Renner e Riachuelo, as três maiores
redes populares, disputam atualmente quem lança as novidades mais
antenadas. As tendências que despontam nas vitrines de Londres,
Paris, Milão e Nova York logo aparecem por aqui, com uma agilidade
impressionante. Assim, a camisetinha bordada de paetês que uma marca
de luxo como a italiana Dolce & Gabbana transforma em objeto de desejo,
a preços estratosféricos, em pontos exclusivos do planeta,
em questão de semanas estará à venda numa rede popular
brasileira. O tecido tem qualidade muito inferior, o corte peca pela imprecisão,
o ar de exclusividade se evapora mas é bonito, está
na moda e as jovens consumidoras farão fila para comprar.
A Renner, adquirida em 1998 pelo grupo americano J.C. Penney, não
lembra em nada seu passado conservador nem o jeito jurássico
das roupas vendidas na matriz, nos Estados Unidos. Camisetas arrematadas
por alfinetes ao estilo punk, casacos que recriam o estilo Jacqueline
Kennedy, jeans em versões brilhantes, as indefectíveis bolsas
de tecido xadrez: quem entra numa das lojas da rede encontra praticamente
tudo em matéria de tendência, do mais alternativo ao mais
"patricinha". Os modelos são escolhidos por uma equipe afiada,
cujo critério principal é detectar o que há de mais
moderno em matéria de roupas e acessórios e adaptá-lo,
em versões popularíssimas, às suas faixas de clientes.
A Riachuelo, que durante muitos anos foi apenas um canal de escoamento
das peças básicas, como jeans e camisetas pólo, confeccionadas
pela matriz, a Guararapes, do Rio Grande do Norte, promoveu sua própria
versão da revolução popular. Hoje, a Guararapes fornece
apenas 12% das roupas moderninhas vendidas nas lojas da rede. A Riachuelo
também patrocina a São Paulo Fashion Week, o evento de moda
mais badalado do país, e acaba de contratar o estilista Fause Haten
para criar uma grife exclusiva, a Haten.F.
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Casaco:
240 reais
Camisa: 72 reais
Saia: 54 reais
Bota: 160 reais
Óculos: 25,90 reais |
Camisa:
25 reais
Saia: 29 reais
Sapato: 49 reais
Bolsa: 39,90 reais |
Esse
fenômeno de conversão em massa à modernidade começou
há cerca de dois anos. O salto para a notoriedade, porém,
aconteceu há três meses, quando a C&A pôs no ar
a arrasadora campanha estrelada por Gisele Bündchen. A imagem onipresente
da modelo brasileira mais bem-sucedida de todos os tempos vestindo roupinhas
modernas (e baratas) da rede desencadeou uma avalanche de vendas (veja
quadro). Praticamente independente da matriz holandesa,
a C&A também mudou para sobreviver. A virada se deu em 1999,
quando seu modo de produção no Brasil passou por um chacoalhão.
À estrutura tradicional, de diretores e gerentes, somou-se uma
equipe de coordenadores de moda, gente que passa a maior parte do tempo
numa corrida maluca atrás de novas tendências. Esses modismos
são então traduzidos, em um software especial, em croquis
detalhados, capazes de destacar desde as costuras até os tons a
ser usados em cada nova coleção. Ao lado dos coordenadores,
encarregados de captar e reproduzir aqui as novidades da Europa e dos
Estados Unidos (veja quadro),
tanto a C&A quanto as demais redes têm uma equipe de "gerentes
de produtos", profissionais mais pé no chão que fazem a
ponte entre o croqui e a máquina de costura esta, sempre,
a quilômetros de distância. No universo fashion das lojas
populares, toda a produção é terceirizada, ficando
a cargo de confecções dentro e fora do Brasil
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Blusa:
44,90 reais
Saia: 34,90 reais
Cinto: 15 reais
Bota: 79 reais
Bolsa: 39 reais |
Os métodos para captar tendências (tradução:
copiar, copiar, copiar) variam de rede para rede. Apesar das facilidades
trazidas pela internet, viajar continua a ser fundamental. "Fotografamos
todas as vitrines. Dependendo da loja, fotografamos as roupas se
deixarem, às claras; se não deixarem, escondido, no provador",
entrega a gerente de produto Heloisa Martins, da Riachuelo. O mesmo sistema
é usado por lojistas do Bom Retiro, bairro de São Paulo
onde uma vasta rede de pequenas confecções, dominada por
coreanos e seus descendentes, costuma suprir sacoleiras do interior com
o moderno do moderno da moda. Uma vez definida a coleção
(e elas são muitas, e rápidas; algumas não duram
mais que quinze dias na loja), coordenadores e gerentes procuram tirar
o aproveitamento máximo. "Mandamos funcionários para o exterior
há muitos anos. Mas antes eles traziam um monte de peças
soltas e as reproduziam. Hoje, vão em busca de uma história
para contar", entusiasma-se Fabio Soares, gerente do grupo feminino da
Riachuelo, bem treinado no peculiar vocabulário do mundo da moda.
Tradução: a tendência do momento é explorada
em vários aspectos e adaptada aos diferentes segmentos do mercado.
Se a última onda é roupa militar, por exemplo, para os jovens
modernos ela se transformará em uma linha de camisetas justinhas,
saias de brim compridas e jaquetas com estampa de camuflagem. Já
para a mulher menos arrojada, aparecerá em terninhos com insígnias
e vestidos camuflados.
Como não há tempo de fazer pesquisas prévias, muitas
coleções são apostas no escuro; se o primeiro lote
vende bem, o próximo vai ter mais e mais variadas peças
na mesma linha. "Entramos com artigos novos todos os dias", orgulha-se
Ralph Choate, diretor de publicidade e visual merchandising da C&A.
Em se tratando de grandes redes, os números andam sempre na casa
dos milhares. Na Riachuelo, são 3.600 peças novas todo mês.
Cada uma delas é reproduzida, em média, em 1.800 exemplares,
distribuídos pelas setenta lojas da rede no Brasil (72 no caso
da C&A, 52 das Lojas Renner). Cada peça fica no máximo
dois meses exposta na loja. Depois disso, dependendo da resposta do consumidor,
é substituída por modelos semelhantes ou por uma coleção
diferente.
Na batalha pela agilidade, as redes procuram encurtar ao máximo
o método de identificação das tendências. "Antes,
viajávamos atrás delas, coletávamos informações,
fotos e só na volta começávamos a desenvolver as
coleções. Hoje, é o contrário: pesquisamos
tudo aqui mesmo e viajamos mais para confirmar que o que desenvolvemos
é o que está nas vitrines lá fora", diz João
Paulo Ribas, coordenador de moda da C&A. "Saímos da posição
confortável de ver o que vai acontecer e só depois colocar
na loja para a posição de apostadores", concorda Soares,
da Riachuelo. A pressa é tanta que a notícia de que a cantora
Madonna, fenomenal lançadora de tendências em todo o planeta,
usa um quimono em seu próximo clipe já provocou uma corrida
por roupas e acessórios orientais na C&A. Em paralelo à
disparada para adaptar o niponismo à la Madonna a uma coleção
que logo estará nas lojas, as redes cuidam neste momento de pensar
e produzir o que se vai usar no inverno de 2002 e no verão 2002/2003.
"Fazer
moda, hoje, é a forma de se diferenciar do concorrente. Com eletrodomésticos
ou eletrônicos, todos têm basicamente os mesmos produtos e
precisam fazer uma guerra de preços, de margens de lucro. Na moda,
conta mais a personalização", compara a consultora de moda
Gloria Kalil. "Era uma questão de sobrevivência", acredita
Flavio Rocha, vice-presidente da Guararapes, dona da Riachuelo. "Ou enveredávamos
pela moda, ou desapareceríamos." A estratégia deu certo.
Em três meses, desde o lançamento da campanha com Gisele
Bündchen, as vendas da C&A cresceram 20%. Na Riachuelo, o salto
foi de 40% nos últimos cinco anos. A Renner passou de um faturamento
de 406 milhões de reais em 1999 para 700 milhões em 2000.
Com tantos resultados positivos, o fashion popular, que já foi
uma contradição, não pára de ganhar terreno:
para desgosto da reduzida tribo dos descolados, que se julgavam guardiães
dos segredos da vanguarda da moda, até supermercados, como Extra
e Bon Marché, já falam em trocar o prático pelo moderno,
no espaço onde vendem roupas.
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POSOU,
VENDEU
André Schiliró
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Gisele Bündchen é um fenômeno: em três meses
as vendas aumentaram 20%, e tudo o que ela aparece vestindo some
das prateleiras em instantes. Isso, desde a primeiríssima
foto, motivo de fila e lista de espera de clientes loucas pela regata
com estampa metalizada (10000 peças vendidas em cinco semanas,
mais 10000 parecidas nas outras cinco), usada com pantalona de pregas
(8100 em cinco semanas). Resultado: o milionário contrato
com Gisele, de seis meses, acaba de ser renovado por mais seis.
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PROFISSÃO:
CAÇA-TENDÊNCIAS
Rogerio Voltan
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| Ribas:
viagens e visitas de negócio aos bares da moda |
Eles estão por toda parte, caçando novidades com as
armas a seu dispor: máquina fotográfica para uns,
sites especializados para outros, muitas viagens para todos. São
os coordenadores de moda, profissão que ganhou peso de alto
cargo executivo e tensão de operador de bolsa de valores
no mundo fashion. Todas as grandes redes têm sua turma de
coordenadores, egressos, em geral, de faculdades de moda, com salários
que começam em 2000 reais e podem chegar, no topo da carreira,
a 8000. Sua missão primordial é detectar com a maior
rapidez possível, nos desfiles de alta moda, no mostruário
de lojas modernas e no guarda-roupa de personalidades descoladas
(traduzindo: Madonna), exatamente a peça que vai virar objeto
de desejo de todo mundo. Depois, é só adaptar, pendurar
na vitrine e torcer para acertar. Um exemplo já clássico
pode ser visto nas fotos abaixo: o estampado camuflado, recuperado
das fardas de combate por John Galliano, o estilista da Dior, virou
unanimidade internacional e bateu aqui rapidamente, com as devidas
adaptações.
Fotos Fabio Mangabeira

Camuflado
original da Dior (cerca de
4000 reais) e
sua versão C&A (39 reais): rápida adaptação |
João
Paulo Ribas, 36 anos, formado em administração de
empresas pela Fundação Getúlio Vargas, de São
Paulo, largou o escritório, diplomou-se em estilo pelo renomado
Studio Berçot, de Paris, e agora cuida de pendurar nas lojas
da C&A peças inspiradíssimas em grifes de ponta,
como Dolce & Gabbana, Gucci e que tais. Ribas vive e respira
moda, inclusive em proveito próprio "Sou um consumista
sem solução, um caso de internação".
Freqüenta desfiles e feiras, lê dezenas de revistas nacionais
e estrangeiras, navega por sites exclusivíssimos mantidos
a sete senhas e assiste à MTV, para checar o figurino
dos clipes. Viaja cinco vezes por ano para o exterior e, nas horas
vagas, passa um bom tempo circulando por restaurantes, bares e boates
badalados do mundo, para ver o que os modernos estão usando.
Para quem adora moda, é a profissão dos sonhos.
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