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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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O show agora é na Justiça

Menem, o presidente festeiro que
modernizou a Argentina, é preso
durante a lua-de-mel

Raul Juste Lores

AP
AFP
Protesto pela prisão do rei do tango: manifestantes vindos de uma província distante

Um ano e meio depois de ter deixado a Casa Rosada, Carlos Menem continua a ser o ator principal no palco das paixões políticas na Argentina. Em apenas duas trepidantes semanas, ele se casou com uma ex-miss Universo, foi impedido pela Justiça de viajar em lua-de-mel (pretendia visitar a família na Síria) e acabou, na quinta-feira passada, em prisão domiciliar por "formação de quadrilha". O episódio tem o exagero dramático do tango que o ex-presidente tanto gosta de dançar em público. O processo em que Menem está envolvido refere-se à venda ilegal de armas para a Croácia e o Equador durante sua presidência. Do ponto de vista jurídico, é um caso de contrabando, delito afiançável. Para poder trancafiá-lo, o juiz Jorge Urso, que cuida do caso, decidiu considerar que houve "associação ilícita", crime inafiançável. Com o mesmo argumento, já decretou a prisão preventiva de um ex-cunhado de Menem, de seu ministro da Defesa e do chefe das Forças Armadas, Martín Balza.

Os documentos que permitiram enviar as armas à Croácia e ao Equador, driblando o embargo internacional contra esses dois países em guerra, foram assinados por Menem e vários membros de seu governo, entre eles o atual superministro da Economia, Domingo Cavallo. Não está fora de cogitação que Cavallo seja chamado a depor. É uma perspectiva que mantém a Argentina em transe. Neste momento, às voltas com sérios problemas econômicos, o governo do presidente Fernando de la Rúa necessita desesperadamente demonstrar à comunidade financeira internacional que é digno de confiança. Não é sem razão o temor de que a convocação pela Justiça do superministro possa ser a gota d'água que provocará o colapso da economia.


Editoral Perfil
Cecilia Bolocco, a nova senhora Menem: sem lua-de-mel


O caso do contrabando de armas era apenas uma das dezenas de denúncias de corrupção engavetadas durante os dez anos de governo de Menem. Nenhum processo ia adiante porque o presidente dispunha de gigantesca estrutura de poder, graças à maioria absoluta no Congresso, ao apoio das centrais sindicais e a um Poder Judiciário absolutamente permeável às pressões políticas. Os doze juízes federais da capital argentina, que julgam os atos do governo, foram nomeados pelo presidente. Três de seus atuais advogados particulares foram juízes nomeados por Menem. Na Corte Suprema, que não controlava, o então presidente aumentou o número de vagas de cinco para nove, indicando quatro amigos. O presidente da Corte foi seu sócio num acanhado escritório de advocacia de província. A parte boa é que tudo isso permitiu a Menem promover em tempo recorde um programa de privatizações e abertura econômica sem precedentes na América do Sul. Mas também abriu espaço para que muitos de seus colaboradores (e alguns parentes) ficassem milionários da noite para o dia.

A fortaleza menemista não resistiu à perda do poder. A faxina anticorrupção decretada no Judiciário transformou-se numa caça às bruxas inédita na Argentina. "Para salvar a própria pele, muitos juízes que até ontem eram acusados de roubalheira agora tentam demonstrar integridade colocando figurões atrás das grades", diz o analista político Carlos Pagni, colunista do jornal Ámbito Financiero. "É um álibi formidável. Se amanhã eles forem processados, dirão que são vítimas de perseguição política." O juiz Urso, que ordenou a prisão de Menem (aliás, o responsável por sua nomeação), responde a inquérito por enriquecimento ilícito. É dura a vida do caudilho longe do poder. Para promover uma manifestação de apoio, precisou transportar de ônibus 500 militantes peronistas recrutados de sua província natal, a 1 125 quilômetros de distância. Uma pesquisa mostra que 65% dos argentinos acreditam que o ex-presidente é culpado. Triste também é a vida de recém-casada da chilena Cecilia Bolocco. Sem lua-de-mel e com o marido preso, por enquanto ela só poderá desfilar sua beleza nos tribunais.

 
 
   
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