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O show agora é
na Justiça
Menem,
o presidente festeiro que
modernizou a Argentina, é preso
durante a lua-de-mel
Raul Juste
Lores
AP
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AFP
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| Protesto
pela prisão do rei do tango: manifestantes vindos de uma província
distante |
Um
ano e meio depois de ter deixado a Casa Rosada, Carlos Menem continua
a ser o ator principal no palco das paixões políticas na
Argentina. Em apenas duas trepidantes semanas, ele se casou com uma ex-miss
Universo, foi impedido pela Justiça de viajar em lua-de-mel (pretendia
visitar a família na Síria) e acabou, na quinta-feira passada,
em prisão domiciliar por "formação de quadrilha".
O episódio tem o exagero dramático do tango que o ex-presidente
tanto gosta de dançar em público. O processo em que Menem
está envolvido refere-se à venda ilegal de armas para a
Croácia e o Equador durante sua presidência. Do ponto de
vista jurídico, é um caso de contrabando, delito afiançável.
Para poder trancafiá-lo, o juiz Jorge Urso, que cuida do caso,
decidiu considerar que houve "associação ilícita",
crime inafiançável. Com o mesmo argumento, já decretou
a prisão preventiva de um ex-cunhado de Menem, de seu ministro
da Defesa e do chefe das Forças Armadas, Martín Balza.
Os documentos que permitiram enviar as armas à Croácia e
ao Equador, driblando o embargo internacional contra esses dois países
em guerra, foram assinados por Menem e vários membros de seu governo,
entre eles o atual superministro da Economia, Domingo Cavallo. Não
está fora de cogitação que Cavallo seja chamado a
depor. É uma perspectiva que mantém a Argentina em transe.
Neste momento, às voltas com sérios problemas econômicos,
o governo do presidente Fernando de la Rúa necessita desesperadamente
demonstrar à comunidade financeira internacional que é digno
de confiança. Não é sem razão o temor de que
a convocação pela Justiça do superministro possa
ser a gota d'água que provocará o colapso da economia.
Editoral Perfil
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| Cecilia
Bolocco, a nova senhora Menem: sem lua-de-mel |
O caso do contrabando de armas era apenas uma das dezenas de denúncias
de corrupção engavetadas durante os dez anos de governo
de Menem. Nenhum processo ia adiante porque o presidente dispunha de gigantesca
estrutura de poder, graças à maioria absoluta no Congresso,
ao apoio das centrais sindicais e a um Poder Judiciário absolutamente
permeável às pressões políticas. Os doze juízes
federais da capital argentina, que julgam os atos do governo, foram nomeados
pelo presidente. Três de seus atuais advogados particulares foram
juízes nomeados por Menem. Na Corte Suprema, que não controlava,
o então presidente aumentou o número de vagas de cinco para
nove, indicando quatro amigos. O presidente da Corte foi seu sócio
num acanhado escritório de advocacia de província. A parte
boa é que tudo isso permitiu a Menem promover em tempo recorde
um programa de privatizações e abertura econômica
sem precedentes na América do Sul. Mas também abriu espaço
para que muitos de seus colaboradores (e alguns parentes) ficassem milionários
da noite para o dia.
A fortaleza menemista não resistiu à perda do poder. A faxina
anticorrupção decretada no Judiciário transformou-se
numa caça às bruxas inédita na Argentina. "Para salvar
a própria pele, muitos juízes que até ontem eram
acusados de roubalheira agora tentam demonstrar integridade colocando
figurões atrás das grades", diz o analista político
Carlos Pagni, colunista do jornal Ámbito Financiero. "É
um álibi formidável. Se amanhã eles forem processados,
dirão que são vítimas de perseguição
política." O juiz Urso, que ordenou a prisão de Menem (aliás,
o responsável por sua nomeação), responde a inquérito
por enriquecimento ilícito. É dura a vida do caudilho longe
do poder. Para promover uma manifestação de apoio, precisou
transportar de ônibus 500 militantes peronistas recrutados de sua
província natal, a 1 125 quilômetros de distância.
Uma pesquisa mostra que 65% dos argentinos acreditam que o ex-presidente
é culpado. Triste também é a vida de recém-casada
da chilena Cecilia Bolocco. Sem lua-de-mel e com o marido preso, por enquanto
ela só poderá desfilar sua beleza nos tribunais.
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