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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Carnificina no palácio

Proibido de casar com a mulher
amada, príncipe herdeiro massacra
a família real do Nepal

 

Fotos Reuters
A FAMÍLIA MASSACRADA
O rei Birendra, a rainha Aishwarya e os filhos, príncipe Nirajan e princesa Shruti: o pai foi atingido duas vezes, e o irmão implorou para que Dipendra poupasse a mãe da chacina na hora do jantar

O Nepal tem coisas que sumiram quase por completo dos outros lugares: monarcas considerados a reencarnação de um deus, um Parlamento dominado por comunistas e guerrilheiros maoístas nas montanhas. Acrescentem-se às peculiaridades do país, um dos mais pobres do mundo e encravado entre a Índia e a China, uma aura mística que atrai turistas à capital, Katmandu, e oito das dez montanhas mais altas do planeta, entre elas o Everest. Adicione-se agora às estranhezas locais a carnificina que dizimou a família real na sexta-feira, 1º de junho. Num ataque de inexplicável fúria, Dipendra, o príncipe herdeiro, abateu a tiros a família real, durante o tradicional jantar das sextas-feiras, em que o rei reunia a parentela no Palácio Real. Armado com uma submetralhadora Uzi e um fuzil de assalto, Dipendra matou seu pai, o rei Birendra, sua mãe, a rainha Aishwarya, dois irmãos, dois tios, duas tias, uma prima e feriu meia dúzia de parentes. A matança só parou quando o príncipe, de 29 anos, disparou um tiro contra a cabeça. A ironia é que, durante os dois dias em que agonizou no hospital, Dipendra foi declarado rei. Só depois que morreu foi coroado um tio, Gyanendra, que por sorte estava ausente ao jantar no palácio.



O PIVÔ DA TRAGÉDIA
Devyani Rana: vetada pela rainha para se casar com o príncipe por ser sobrinha de marajá indiano e filha de clã rival

O país entrou em estado de choque com as dimensões da tragédia real. Perplexos, os nepaleses foram às ruas exigindo explicações e promovendo quebra-quebras. O novo rei decretou toque de recolher, enquanto tentava acalmar a situação com versões desencontradas sobre os bastidores do massacre. Como é natural, tornou-se difícil encontrar um nepalês disposto a aceitar qualquer outra versão que não a de que a família real fora vítima de uma conspiração maligna. O suspeito número 1, evidentemente, era o novo rei, Gyanendra. Há outra versão para os acontecimentos, quase inacreditável em sua trivialidade: o príncipe herdeiro matou por paixão. Ele simplesmente não suportou a oposição dos pais a seu casamento com uma bela morena de 23 anos chamada Devyani Rana. Não que a moça seja plebéia – ela pertence a um clã aristocrático e poderoso, rival da dinastia reinante, os Shah. Entre 1846 e 1951, os Rana foram primeiros-ministros hereditários. O que incomodava a monarquia era o fato de Devyani ser neta da líder de um partido nacionalista indiano e sobrinha de um marajá da Índia. Monarcas num paiseco apertado entre duas potências, eles temiam a reação popular a um casamento que aumentasse a influência indiana. A maior resistência partia da rainha Aishwarya, mulher autoritária e zelosa dos costumes tradicionais. Ela ameaçou passar a coroa para o filho mais novo.



O PRÍNCIPE ASSASSINO Dipendra, que matou nove, feriu quatro e suicidou-se: sangue-frio e tiros em quem se mexesse à sua frente

Todo o reino considerava o príncipe herdeiro um boa-praça. Bebia e farreava um pouco em excesso, mas era cordial com os súditos. Se havia algum sinal de perigo, era seu apego às armas. Como era formalmente oficial militar, isso também não parecia estranho. De quem o povo realmente não gosta é de seu primo, Paras Shah, que a tragédia transformou em príncipe herdeiro. Um playboy dado a arruaças, ele percorre em alta velocidade as ruas de Katmandu. O resultado é trágico. Atropelou e matou quatro pessoas, uma delas o cantor mais popular do país. A população gostaria de vê-lo pendurado numa corda, mas como príncipe goza de imunidade total. No dia da tragédia, os dois primos andaram bebendo pesado. Chegaram ao Palácio Real juntos, às 7h45 da noite, embriagados. A família e os convidados estavam no salão de jantar, reunidos em pequenos grupos por faixa etária. Dipendra foi para o bar, serviu bebidas a tios e primos antes de, cambaleante, retirar-se para seu quarto. Voltou meia hora depois, vestido com uniforme de campanha e armado. Sem dizer uma palavra, simplesmente abriu fogo.

Os sobreviventes contam que o primeiro a ser atingido foi o pai, o rei Birendra, com um tiro no estômago, numa saleta lateral. Em seguida, o príncipe percorreu o salão principal atirando em quem se mexesse. Ao chegar ao jardim, ele apontou para a mãe, a rainha Aishwarya, e ouviu um apelo do irmão mais novo, de 22 anos: "Atire em mim, não nela". Matou os dois. Com o rosto destruído pelas balas, a rainha só foi reconhecida pela roupa que vestia. Ainda sem dizer uma palavra, o príncipe retornou à sala e disparou mais tiros contra o pai. Ele também matou a irmã, de 24 anos. Um irmão do rei, uma irmã, um primo e o genro foram feridos, mas sobreviveram. O odiado primo Paras Shah acabou virando um herói ao empurrar algumas crianças para debaixo das mesas durante o ataque. A destruição da família real demorou noventa segundos. Desde a execução dos Romanov pelos bolcheviques russos, em 1918, não se via uma dinastia ser dizimada num único fuzilamento.

O NOVO REI E SEU FILHO PLAYBOY
O rei Gyanendra (à esq.), empossado em cerimônia discreta, e o filho Paras (à dir.), que virou herói ao salvar crianças da chacina: rumores de conspiração

Nessa recriação burlesca de Romeu e Julieta, Dipendra passou em coma seu reinado de dois dias. Devyani fugiu para a Índia. Na segunda-feira, Gyanendra, irmão do rei Birendra, recebeu a coroa real cravejada de pérolas e diamantes, ornamentada com um penacho de pavão simbolizando Krishna, a mais importante encarnação da divindade Vishnu. Não é pouco ser uma reencarnação de Vishnu. Buda, que nasceu no Nepal, foi a nona aparição da divindade maior do hinduísmo. Os nepaleses torcem o nariz para o novo rei, impopular por defender a volta da monarquia absolutista à nação. Ele também é o empresário mais rico do país, com negócios hoteleiros e a única fábrica nacional de cigarros. Não ajuda em nada o fato de o odiado Paras Shah ter se tornado o próximo na linha de sucessão do trono. Durante a melancólica cerimônia de coroação, milhares de pessoas desafiavam o toque de recolher pedindo a deposição do rei recém-coroado.

O Nepal é uma precária monarquia constitucional desde 1990. O país tem 24 milhões de habitantes, 63% deles analfabetos. Apenas um quarto da população tem acesso a água potável. A renda per capita é de 220 dólares, menor que a de Angola. Seus melhores negócios são a venda de madeira para a Índia e os turistas, que vêm atrás da mítica atmosfera zen e das escaladas pelas montanhas. A maioria dos habitantes é etnicamente aparentada aos indianos, com minorias próximas aos chineses. Uma peculiar síntese entre o hinduísmo e o budismo é a religião dominante. Donos de uma rica tradição cultural e de feroz nacionalismo, os nepaleses demonstram independência mantendo o fuso horário com quinze minutos de diferença em relação à Índia. Na semana passada, os astrólogos da corte estavam em dificuldades para explicar como não previram a carnificina. Logo foram desengavetadas antigas previsões para demonstrar que os mapas astrais funcionam. Uma delas prognosticava que, se o príncipe herdeiro casasse ou tivesse filhos antes dos 35 anos, o rei iria morrer. Outra previa que o rei não viveria depois dos 55 anos, idade que Birenda completou em dezembro. A pior de todas condena o novo monarca: diz que a dinastia dos Shah não vai durar além da décima geração. A do rei recém-coroado é a 11ª.

 
 
   
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