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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
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Perguntas que não calam

Com tanta coisa mal explicada, o caso
Marka pode voltar a ter uma CPI

Policarpo Junior, de Brasília

 
Roberto Stuckert Filho
Tereza Grossi depondo no Senado ao lado de Armínio: dúvidas no ar

Na semana passada, a diretora de fiscalização do Banco Central, Tereza Grossi, depôs sobre a ajuda secreta de 1,6 bilhão de reais aos bancos Marka e FonteCindam na crise cambial, em janeiro de 1999. Estava acompanhada do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, mas foi seu depoimento que mais chamou a atenção – não pelo que disse, mas sobretudo pelo que não disse. Tereza Grossi negou que tenha ouvido falar em chantagem ou que o então presidente do Banco Central, Francisco Lopes, vendesse informação sigilosa para um punhado de clientes. Garantiu, mais uma vez, que só propôs a ajuda aos dois bancos porque o país estava num regime de banda cambial e explicou que, se soubesse que a banda seria implodida três dias depois, sua proposta seria outra: a liquidação pura e simples dos dois bancos. Por fim, sempre que foi questionada a respeito de alguns detalhes, Tereza Grossi recomendou aos senadores que perguntassem a seus superiores na época – já que era chefe adjunta do setor de fiscalização, então comandado por Cláudio Mauch, e não pertencia à diretoria do BC.


Selmy Yassuda
Cacciola: ajudado pelo BC na hora do aperto


O Banco Central ajudou o Marka e o FonteCindam por temer que, com a quebra dos dois bancos, o sistema bancário todo entrasse em colapso, num efeito dominó, pela eventual eclosão de uma crise de confiança. Para evitar isso, o BC ofereceu dólar ao Marka à cotação de 1,27 real, mais barato que o preço da moeda no mercado, e ao FonteCindam a 1,32 real, correspondente ao preço oficial do dólar, que explodiria no dia seguinte. Não deu dinheiro diretamente. Os dois bancos tinham contratos de venda de dólar no mercado futuro, e o BC comprou todos esses contratos, evitando o prejuízo que ambos teriam. Impediu-se aquilo que o BC chama de "risco sistêmico". Mas as suspeitas de que houve coisa errada continuam no ar.

Tudo o que a diretora Tereza Grossi fala é ouvido com extrema atenção pelas autoridades do governo. Em 1999, o governo se empenhou para que a CPI que investigava a ajuda aos bancos não quebrasse o sigilo bancário e telefônico de Tereza. Houve até um ministro que se mobilizou para convencer dois senadores – João Alberto, do PMDB do Maranhão, e Siqueira Campos, do PFL do Tocantins – a desistir dessa idéia. No governo, não havia temor de que as conversas telefônicas ou a conta bancária de Tereza trouxessem alguma novidade comprometedora. O temor era de que, incomodada pela devassa em sua intimidade, Tereza não suportasse a pressão e falasse um pouco mais livremente sobre os bastidores da operação. Em 16 de junho de 1999, os senadores que pertenciam à CPI decidiram cancelar o pedido de quebra de sigilo bancário e telefônico de Tereza Grossi, que fora aprovado na véspera. Por que mudaram de opinião de um dia para o outro?


Wilton Junior/AE
Chico Lopes: ajuda suspeita na virada do câmbio em 1999


O senador João Alberto, que foi relator da CPI, diz que o pedido de quebra dos sigilos de Tereza foi aprovado, mas, por culpa de uma funcionária da CPI, Cleide Cruz, o papel ficou guardado na gaveta e não foi remetido ao Banco Central. "Não fiz nada de errado e não vão fazer de mim uma nova Regina Borges", rebate Cleide Cruz, referindo-se à ex-presidente do setor de processamento de dados Regina Borges, que se envolveu na violação do painel eletrônico do Senado. "Recebi uma orientação para não mandar o pedido e aguardar até segunda ordem", completa a funcionária. A tal segunda ordem nunca chegou, até que a CPI aprovou outro requerimento desistindo de quebrar os sigilos.

No momento em que estendeu a rede de proteção sob o Marka, o BC socorreu também um fundo controlado pelo Marka Bank, uma subsidiária do banco de Cacciola com sede nas Bahamas, com mais 29 milhões de reais. Parte desse dinheiro foi enviada ao exterior. "A informação do senhor Cacciola era de que havia posições descobertas na Bolsa de Chicago", explicou a diretora de fiscalização. Pediu, levou. Tereza disse que, quando foi autorizada a operação, não sabia que o único cotista do tal fundo era o próprio Marka Bank – o que levanta a suspeita, até hoje não esclarecida, de que o único beneficiário dessa remessa foi o próprio Cacciola. Com as dúvidas ainda no ar, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a criação de uma CPI para apurar o caso. Agora, o pedido precisa ser aprovado em plenário. Se a CPI sair, poderá esclarecer outro pedaço: quem eram os beneficiários do esquema de Chico Lopes. O senador petista Eduardo Suplicy, que diz ter uma testemunha de tudo, afirmou na semana passada que eram cinco bancos: o Marka, o FonteCindam, o Pactual, o Boavista e o Modal.

 
 
   
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