
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Esqueceram do
debate principal
Erro técnico
do governo vira
uma discussão política de
contornos eleitorais

Alexandre
Secco
Liane Neves
 |
Ana Araujo
 |
Oscar Cabral
 |
| Dutra,
Roseana e Itamar: discurso de hoje guiado pela urna de amanhã |
A crise energética
é fruto de uma imperdoável falha gerencial por parte do
governo, mas na semana passada a discussão predominante em torno
do assunto não era de natureza técnica, mas de cunho jurídico
e político. O debate jurídico nasceu da ousadia dos advogados
do governo, que redigiram a medida provisória definindo a redução
de 20% nas contas de luz e estabelecendo as punições para
quem desrespeitasse a meta. Mesmo um marciano desatento identificaria
dois absurdos no texto. Primeiro: as distribuidoras poderiam aplicar uma
sobretaxa na conta até dos que tivessem atingido a meta. A multa
atingiria todos que consumissem mais de 200 quilowatts/hora por mês
ou seja, toda a classe média. Segundo absurdo: ninguém
poderia reclamar contra essa ou qualquer outra punição.
O texto original da medida provisória previa a suspensão
temporária dos direitos estabelecidos pelo Código de Defesa
do Consumidor. A gritaria foi geral entre advogados, juristas e juízes.
Na semana passada, diante da certeza de que a MP seria destroçada
na Justiça, o presidente Fernando Henrique acalmou o ambiente ao
assinar uma segunda medida provisória, que elimina os absurdos
do texto original. O tema deve entrar na pauta de discussão do
Supremo Tribunal Federal ainda nesta semana, mas a maioria dos ministros
entende que o novo texto é palatável.
No campo
político, a discussão ganhou um aspecto inesperado depois
que o governo decidiu que os Estados localizados fora da área do
racionamento (os da Região Norte e os da Sul) precisarão
colaborar com o resto do país. A idéia do governo é
poder transferir uma parte do excedente de energia desses Estados para
outros em situa&ca, mas a maioria dos ministros
entende que o novo texto é palatável.
No campo
político, a discussão ganhou um aspecto inesperado depois
que o governo decidiu que os Estados localizados fora da área do
racionamento (os da Região Norte e os da Sul) precisarão
colaborar com o resto do país. A idéia do governo é
poder transferir uma parte do excedente de energia desses Estados para
outros em situação de risco. Após a decisão,
deu-se o inacreditável. A medida contou com o apoio de um dos mais
radicais governadores da oposição, o gaúcho Olívio
Dutra, do PT. Chamado a reduzir o consumo no Estado em 7%, Dutra informou
que o Rio Grande do Sul vai contribuir com um corte mais expressivo, da
ordem de 20%. Já os governistas reagiram de forma diversa. Almir
Gabriel, do Pará, integrante do mesmo PSDB de Fernando Henrique,
recusava-se na semana passada a cortar os 20% que lhe foram solicitados.
A posição de Gabriel foi reforçada pelo presidente
do Senado, Jader Barbalho, outro aliado do Palácio do Planalto.
Jader mandou uma carta ao presidente em que protestava contra a possibilidade
de inclusão do Pará no programa de racionamento. E, para
terminar, a governadora maranhense Roseana Sarney, da ala governista do
PFL e, portanto, aliada de primeira hora do Planalto , disse
que não aceita a inclusão de seu Estado no plano de racionamento
de energia elétrica.
O que explica
a inversão de papéis governistas contra o racionamento
e Olívio Dutra a favor é a eleição
de 2002. Embora ninguém esteja nas ruas distribuindo santinhos
de candidatos ou pedindo votos, a disputa pela sucessão de Fernando
Henrique Cardoso já começou, e ninguém quer perder
tempo. De hoje em diante é bom que todos se acostumem com o fato
de que os políticos olham para as pessoas e vêem eleitores,
não cidadãos. Com 2002 no horizonte, cada um faz o próprio
cálculo político e adota as ações que julga
mais lucrativas do ponto de vista eleitoral. As pesquisas encomendadas
pelo PT mostram que a população vincula a imagem do partido
às greves e à desordem. Pelas contas da cúpula petista,
quanto pior a situação do país, pior para Lula. Nesse
caso, a demonstração de solidariedade do governador Dutra
interessa ao discurso do PT. Já Gabriel, Jader e Roseana podem
faturar votos se demonstrarem alguma independência em relação
a um governo com imagem desgastada.
Nenhuma
dessas reações ao apagão do governo, no entanto,
rivaliza com o lance de marketing político encenado em Minas Gerais
pelo governador Itamar Franco. Na semana passada, com ampla cobertura
de rádios e TVs, o governador anunciou que Minas não entrará
no racionamento. Itamar determinou à Cemig, a empresa estadual
de energia de Minas Gerais, que não cobre sobretaxa nas contas
de luz nem corte o fornecimento dos consumidores que não economizarem
energia. Argumenta que sua ordem foi baseada em um parecer da Procuradoria
Geral do Estado, que considerou as medidas antiapagão "inconstitucionais,
ilegais, injustas e imorais". Não é a primeira vez que Itamar
toma iniciativas de impacto para atingir o Palácio do Planalto.
A primeira delas teve um efeito devastador para o país e um resultado
final desagradável para Itamar. Há dois anos e meio, o governador
declarou a moratória de Minas Gerais, que assustaria o dólar
estacionado no Brasil e contribuiria para a desvalorização
estrepitosa do câmbio. Muito bem. Tempos depois, Itamar assinou
com o governo federal um acordo para pagar as contas em dia. Na segunda
vez, o mineiro mandou sua Polícia Militar cercar o Lago de Furnas.
Queria dar ao país a idéia de que combateria a privatização
da empresa a bala, se preciso. Tão surpreendente quanto as atitudes
de Itamar é o aplauso que ele recolhe nas pesquisas de opinião
pública depois de realizar suas estripulias. Agora, o governador
de Minas posiciona-se contra as medidas que podem evitar o apagão.
Provavelmente o faz na expectativa de que os brasileiros aprovem essa
atitude e seu nome ganhe pontos que o fortaleçam na corrida presidencial
de 2002.
Longe dos
debates jurídicos e político-eleitorais, a sociedade permanecia
na semana passada na batalha pela economia de luz. Muita gente não
havia recebido das distribuidoras de energia a tal carta informando sobre
a meta de consumo e muitos que tiveram dúvidas entupiram as linhas
das centrais de atendimento das companhias. A Eletropaulo, maior distribuidora
do país, recebeu 6 milhões de telefonemas. Só atendeu
a 17.000. O resultado é que as pessoas
foram parar na porta das agências. Formaram-se filas enormes por
todo o Brasil. Para piorar o cenário, a meta de economia não
foi atingida. Segundo dados coletados pelo Operador Nacional do Sistema
Elétrico, nos seis primeiros dias do plano a economia de energia
foi de apenas 14% nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Só
na Grande São Paulo a meta de 20% foi atingida. Os Estados do Nordeste
registraram a melhor marca: 16% de economia. Mais: São Pedro também
não ajudou. Para o plano dar certo é preciso que chova nos
meses de racionamento o equivalente a 75% da média de chuva dos
últimos setenta anos. Em maio choveu só 71% da média.
Se continuar assim, o apagão será inevitável. Eis
um desafio real que nem os políticos, nem os advogados, nem os
juízes podem enfrentar.
Com
reportagem de
Adriano Ceolin
|
E
a água, hein?
Raul Junior

Estação
de tratamento de água: desperdício
|
Na
semana passada, apareceu um novo temor a escassez de água.
O assunto ganhou mais relevância depois que o presidente Fernando
Henrique Cardoso, numa solenidade em comemoração ao
Dia do Meio Ambiente, decidiu alertar a população
sobre o desperdício de água e a necessidade de poupá-la.
"Se hoje nos aflige a falta de energia momentânea, amanhã
pode nos afligir a escassez de água, porque os recursos hídricos
são finitos", disse o presidente. É praticamente impossível
que aconteça uma crise como a energética. Isso porque
os sistemas de água não são interligados, como
ocorre com boa parte da rede de energia elétrica no país.
Assim, pode faltar água no Recife ou em São Paulo,
cidades que, aliás, convivem quase todos os anos com o problema,
sem que haja escassez em outros pontos do Brasil. "Até novembro,
pode ser que surjam mais localidades com problema de falta de água
por causa da seca. Mas não há risco de desabastecimento
generalizado", avisa Jerson Kelman, diretor-presidente da Agência
Nacional de Águas (ANA).
Especialistas
estimam que, se não houver economia de água e uma
política mais agressiva de despoluição de rios
e mananciais, a escassez de água pode ficar aguda dentro
de quatro ou cinco anos. "Se nada for feito, mais localidades e
mais pessoas sofrerão com racionamentos em determinados períodos
do ano", avisa o professor Paulo Canedo, da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ). A despoluição de rios e
mananciais é fundamental, mas requer obras caras e demoradas.
O desperdício pode ser enfrentado de forma mais imediata.
Calcula-se que o volume de água jogado fora no Brasil, através
do esbanjamento puro e simples, de ligações clandestinas
e de canos furados, seria suficiente para abastecer a população
da França e a da Bélgica. Não é pouca
coisa.
|
|
|
 |