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A Manhattan paulista
"Nossa
cara é esta:
somos
um projeto falido, uma idéia descartada, uma concorrência
perdida"
São
Paulo é inabitável. Não se trata apenas de trânsito
engarrafado, ou ar poluído, ou criminalidade, ou fedor de lixo,
ou mendigos nos semáforos, ou escassez de árvores, ou arquitetos
incapazes, ou prefeitos corruptos. O problema está na raiz: falta-lhe
um caráter, uma consciência.
Compare São Paulo a Nova York. No começo do século
XIX, uma comissão foi encarregada de projetar o modelo de ocupação
da ilha de Manhattan. A idéia que seus membros tiveram sobrevive
até hoje: um reticulado composto de doze avenidas de norte a sul
e 155 ruas de leste a oeste. Naquela época, Nova York ainda não
era nada. Não tinha gente suficiente para preencher o espaço
e não tinha atividades produtivas que justificassem o investimento.
O reticulado era um mero exercício teórico. Mas a comissão
vislumbrou que aquele terreno baldio rochoso, comprado por uma ninharia
dos índios moicanos, estava predestinado a se transformar na principal
cidade da maior potência do planeta. O reticulado de Nova York é
um exemplo de perfeição urbana, pois representa fielmente
o caráter de seu povo: simplório, prático, utilitarista,
sonhador, megalomaníaco. Os americanos sabem que nasceram para
dominar o mundo e suas cidades refletem esse impulso hegemônico.
Não há nada que esteja fora de seu alcance. Tudo lhes pertence.
Até a História. Quando os americanos querem um claustro
medieval, desmontam um claustro medieval na Europa e, sem a menor vergonha,
remontam-no em plena Nova York. Quando querem uma igreja gótica,
fazem réplicas exatas de igrejas góticas no Kentucky ou
no Tennessee. Quando querem Veneza, fazem uma réplica de Veneza
em Coney Island ou Las Vegas. Quando querem prédios que simbolizem
a força de seu império, fazem réplicas dos edifícios
da Roma antiga em sua capital, Washington.
São Paulo é o contrário de Nova York. Nova York já
era grande antes mesmo de nascer. Foi concebida para crescer. São
Paulo não foi concebida por ninguém. Não é
fruto de um projeto. Cresceu sem uma idéia, sem saber aonde queria
chegar. Acho que o único jeito de torná-la minimamente habitável
é dotá-la dessa idéia. Algo que corresponda a nosso
modo de ser. As réplicas não servem, claro. Não somos
iguais aos americanos. Eles foram feitos para dominar. Nós fomos
feitos para ser dominados. Minha sugestão, portanto, é que
São Paulo realize todos os projetos frustrados dos grandes arquitetos
do passado. Palladio, por exemplo, perdeu a concorrência para a
construção da Ponte de Rialto. Seu projeto jamais saiu do
papel. Que tal pegarmos o desenho original e edificarmos a ponte de Palladio
na Marginal Tietê, no lugar do Viaduto do Tatuapé? O mesmo
pode ser feito com a fachada que Michelangelo criou para a Igreja de San
Lorenzo, em Florença. A obra nunca foi feita. Nada nos impede de
fazê-la agora, para decorar a fachada de um shopping center. Também
podemos erguer o Grand Hotel que Gaudí desenhou para Nova York
ou o abrigo flutuante que Le Corbusier planejou para o Exército
da Salvação de Paris, com lugar para 160 miseráveis.
Uma cidade com a nossa cara seria muito melhor para viver. E a nossa cara
é essa: somos um projeto falido, uma idéia descartada, uma
concorrência perdida, uma esperança que não se materializou.
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