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Edição 1 704 - 13 de junho de 2001
Entrevista: HORST KOEHLER

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O bode expiatório

Chefão do FMI diz que a culpa é
dos governos,
mas virou moda
acusar
a instituição por todos
os problemas do mundo

Eduardo Salgado

Quem ouve o alemão Horst Koehler, de 58 anos, falar sobre o protecionismo dos países ricos pode ficar com a impressão de que está à frente do presidente de uma organização não-governamental. Nada disso: Koehler é o diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), a instituição que as ONGs escolheram como inimigo número 1. Antes de se mudar para os Estados Unidos com a mulher, Eva, e deixar os dois filhos adultos estudando na Europa, ele foi presidente do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento. Foi também o principal negociador alemão no Tratado de Maastricht, que selou a união monetária entre os países do continente – currículo que o qualificou para substituir o francês Michel Camdessus no comando do FMI, no ano passado. Com fama de ser franco e prático, Koehler está totalmente envolvido na tarefa de modificar a instituição. Tinha programado vir ao Brasil neste mês, mas desmarcou por causa da agenda apertada. Eva não gostou da mudança de planos. Há tempos, ela nutre o sonho de conhecer o Brasil e já tinha feito várias pesquisas na internet sobre o país. Na sede do FMI, em Washington, Koehler falou a VEJA.

Veja – Nos últimos anos, o Brasil privatizou estatais, abriu o mercado à competição internacional, controlou a inflação e as contas públicas. Mas, quando se examina a taxa de crescimento da década de 90, o que se vê é algo modesto. O que está faltando?
Koehler – Soluções mágicas não existem. O Brasil tem uma enorme economia, uma população de 170 milhões de pessoas e um imenso potencial. A questão é o que fazer para explorar esse potencial. É preciso investir mais na preparação das pessoas. Para que isso ocorra, é necessário atrair investidores externos. Sejamos sinceros: o Brasil não tem dinheiro suficiente para alavancar seu crescimento. A recuperação depois da desvalorização do real foi uma das maiores vitórias do FMI. O Brasil adotou um sistema de câmbio flutuante, manteve as contas públicas em dia, controlou a inflação, e os resultados foram muito positivos. As previsões, mesmo as do Fundo, eram de que a economia iria se contrair em 1999, o que não aconteceu. Em 2000, cresceu ainda mais, atraindo grande quantidade de investimentos, o que mostra a confiança dos agentes. Por isso não devemos ser pessimistas. O Brasil é um caso de sucesso.

Veja – Se o Brasil é um caso de sucesso, por que vivemos às voltas com sobressaltos econômicos?
Koehler – Se quisermos fazer parte de uma economia global e dinâmica, temos de conviver com a idéia de que não estamos livres de crises. Agora o Brasil está sujeito ao contágio da Argentina, sofrendo com a desaceleração da economia dos Estados Unidos e com a questão do racionamento de energia. São novos desafios, o que não invalida o que foi feito até agora. O importante é manter o rumo, porque no futuro o Brasil poderá colher os frutos na forma de mais investimentos externos, empregos, aumento da renda.

Veja – O que o faz ter certeza de que teremos tudo isso?
Koehler – Nada melhor do que fatos. A experiência mundo afora mostra que vale a pena explorar as oportunidades do capital. Cingapura e China estão colhendo os frutos dessa política. Gostaria que fosse mais fácil e rápido, mas temos de lembrar: não há melhor alternativa. Muitos críticos argumentam que o governo deveria imprimir mais dinheiro e gastar à vontade. Para quê? Para o Brasil voltar ao final da década de 80, quando a inflação reinava solta? O mais importante é crescer de forma sustentada. É isso que beneficia o rico e o pobre. Dito isso, também penso que os governos latino-americanos devem prestar mais atenção em temas como a concentração de renda e a pobreza.

Veja – A oposição culpa o FMI pelo racionamento de eletricidade. O argumento é que o governo precisou controlar os gastos e não sobrou dinheiro para investir em geração de eletricidade. O FMI é o culpado pelo apagão?
Koehler – Essa é demais! A acusação é totalmente descabida e injusta. Não dizemos ao Brasil o que fazer com o dinheiro que arrecada. Quem decide as prioridades é o governo. Se há dois anos tivéssemos dito que se deveria investir em energia, tenho certeza de que os nacionalistas de plantão sairiam gritando "Fora FMI, pare de mandar na gente" e todo aquele discurso rançoso. Os brasileiros têm o direito e o dever de decidir o que fazer com seu dinheiro.

Veja – O governo brasileiro não precisa mudar o acordo com o FMI para poder investir na geração de energia?
Koehler – Não. Mas o Brasil não deveria mexer em sua política fiscal. Para resolver um problema não é preciso criar outro. Se existe a necessidade de investir mais na geração de energia elétrica, o governo deveria rever suas prioridades e decidir de onde o dinheiro vai sair. A crise energética também deveria ser um incentivo para que o governo e o Congresso definissem as regras para os investidores privados, para que apressassem a privatização.

Veja – Se o senhor fosse o ministro da Fazenda de um país do Terceiro Mundo cheio de dívidas e problemas, pediria a ajuda do FMI?
Koehler – Primeiro, iria tentar arrumar a casa. Faria um grande esforço para controlar os gastos públicos e, ao mesmo tempo, investir em infra-estrutura e na educação, fatores centrais para incentivar o crescimento e criar oportunidades. Também combateria a corrupção, um grande determinante do atraso. Feito isso, colocaria a boca no mundo. Iria aos chefes de Estado dos sete países mais ricos do mundo, ao FMI e ao Banco Mundial e diria: "Não estou aqui pedindo esmola. Fiz a minha parte e agora quero a fatia do bolo da prosperidade, que por direito pertence ao meu país. Parem de blablablá e abram seus mercados para as minhas mercadorias e produtos de uma vez por todas". No caso dos países mais pobres, ainda diria: "Cumpram suas promessas. Vocês disseram que nos dariam o equivalente a 0,7% de seus PIBs em forma de ajuda humanitária, mas estão transferindo apenas 0,25%".

Veja – O senhor quer dizer que nos últimos anos os países em desenvolvimento abriram muito mais suas economias que os países ricos?
Koehler – Sim. Veja a política de subsídios agrícolas na Europa. Veja toda a discussão nos Estados Unidos para proteger os setores siderúrgico e têxtil. Os protecionistas são muito criativos para achar desculpas que justifiquem barreiras ao comércio. O grupo de países ricos, conhecido pela sigla OCDE, gasta 380 bilhões de dólares por ano em subsídios para a agricultura. Isso é um escândalo. Ainda mais se pensarmos que as pessoas mais paupérrimas nos países mais pobres vivem no campo e não podem nem sonhar em exportar. Se quisermos que o processo de globalização beneficie os mais pobres, teremos de mudar isso.

Veja – Se o senhor tivesse um minuto para convencer um ativista antiglobalização de que o trabalho do FMI ajuda a acabar com a pobreza, o que diria?
Koehler – Somos uma instituição sem fins lucrativos. Nosso objetivo é promover o crescimento da economia mundial para o benefício de todos. Cometemos erros no passado, mas, na média, fizemos um bom trabalho. Queremos melhorar, estamos em processo de mudança e abertos ao diálogo.

Veja – Como condiciona seus empréstimos ao ajuste fiscal, o FMI é acusado de produzir pobreza nos países menos desenvolvidos. Existe realmente esse fenômeno de causa e efeito?
Koehler – Você pode inquirir-me sobre o desempenho do FMI e eu posso perguntar: o que os governos estão fazendo para combater a corrupção, o que os países africanos fazem para acabar com essas guerras estúpidas, o que os países ricos estão fazendo para abrir seus mercados? É possível acabar com grande parte da pobreza, mas não podemos ser simplistas. Veja o caso da China. Quem tem coragem de argumentar que a China, onde vive boa parcela da população mundial, não se beneficiou com as reformas pró-mercado? A pobreza é a maior ameaça à estabilidade econômica e política do mundo no século XXI. Por isso, temos de aumentar a pressão para a resolução desse problema.

Veja – Por que o FMI não exige reformas nos países ricos com a mesma ênfase que emprega nas nações em desenvolvimento?

Veja – Por que o FMI não exige reformas nos países ricos com a mesma ênfase que emprega nas nações em desenvolvimento?
Koehler – Não temos nenhuma ferramenta financeira para forçar os países ricos a adotar determinadas políticas. Nas duas últimas décadas, eles não nos pediram dinheiro. Todos os anos, fazemos um relatório sobre a economia dos países-membros. Nesses relatórios, pretendo começar a apontar os problemas. Aposto no poder de convencimento da opinião pública. Não é difícil ver que a prosperidade das nações ricas depende de progressos nos países menos favorecidos. É um absurdo que metade da população mundial viva em condições deploráveis.

Veja – No mundo inteiro, a esquerda critica o FMI, enquanto nos Estados Unidos é a direita. Não é um paradoxo?
Koehler – Isso demonstra que o FMI não é tão ruim assim. Tornou-se moda transformar o Fundo no bode expiatório para todos os problemas do mundo. Atribuir culpa é uma das artes da política. Ninguém gosta de reconhecer que errou. Na verdade, os governos são os maiores culpados. Damos conselhos, mas são os governos e os congressos que decidem o que fazer e como. Também cometemos erros, mas isso não quer dizer que nossa direção esteja equivocada. O engraçado é que, se algo funciona, ninguém nos dá o crédito.

Veja – Existe uma "receita" de gerenciamento da economia que pode ser usada para todos os países?
Koehler – Não. Isso é besteira. No passado, o FMI pode ter dado a impressão de que havia, sim, uma única receita. Meu objetivo é mostrar que as políticas devem ser ajustadas caso a caso. Mas esse ajuste tem limites. Há precondições, como contas públicas em ordem, que não podem ser negociadas. O tamanho dos déficits, no entanto, pode mudar de acordo com a arrecadação de impostos, crescimento econômico etc.

Veja – A Argentina acaba de obter maior prazo para pagar parte de sua dívida externa. Isso é uma solução ou só o adiamento do dia da crise inevitável?
Koehler – O mercado mostrou que confia no plano de recuperação da Argentina e, assim, os argentinos terão oportunidade de promover o crescimento e sair da atual crise. Temos de dar-lhes tempo para que obtenham sucesso.

Veja – Existe saída para a eterna crise econômica argentina sem que o sistema cambial, no qual 1 peso equivale a 1 dólar, seja mudado?
Koehler – Mudar a lei da convertibilidade agora ou no futuro próximo só traria mais problemas. O que a Argentina precisa é de estabilidade política, que os partidos parem de brigar entre si. É hora de união, de arregaçar as mangas e trabalhar duro pela salvação do país. Os políticos e empresários argentinos deveriam parar de discutir e começar a se empenhar com a mesma força dos trabalhadores.

Veja – O FMI já preparou uma estratégia de emergência caso o plano de recuperação da Argentina não dê certo?
Koehler – Não existe nenhum plano de salvamento sendo preparado e estamos certos de que a Argentina sairá da crise.

Veja – O senhor acha que a dolarização é a melhor saída para países com moedas fracas?
Koehler – Como economista, penso que a dolarização tem algumas vantagens porque faz o papel de uma âncora. Mas temos de considerar as implicações políticas, e aí as coisas se complicam. No caso do Equador, o país decidiu pela dolarização e eu dei apoio. Essa saída, no entanto, não pode ser vista como uma solução rápida. No futuro, poderá trazer mais problemas que soluções.

Veja – Os últimos pacotes de salvamento do FMI têm envolvido maior quantidade de dinheiro e condições menos severas. O FMI está amolecendo o coração?
Koehler – Não. O conteúdo dos programas na Argentina e na Turquia era bastante duro. A única diferença é que estou tentando criar um sistema que consiga detectar com antecedência o aparecimento de crises para podermos evitá-las. Dito isso, saberemos que crises irão ocorrer de novo. Não queremos amolecer o coração. Os investidores poderão pensar que podem apostar contra um determinado país porque sabem que o Fundo irá entrar com dinheiro para salvá-lo. Governos também podem descuidar de suas políticas contando com o salvamento. Numa economia de mercado é importante que as pessoas que emprestam e as que recebem empréstimos saibam dos riscos e os assumam.

Veja – Os representantes do FMI que viajam ao Brasil para examinar as contas do governo têm fama de ser muito arrogantes. Essa fama é merecida?
Koehler – Nossos economistas são muito bem preparados e autoconfiantes, e isso pode passar a impressão de que são arrogantes. Quero que isso mude. Na semana passada, conversei com os funcionários recém-contratados e disse a eles que devem sentir orgulho de seus currículos conquistados nas melhores universidades do mundo, do órgão para o qual trabalham, mas jamais ser arrogantes. O FMI deve ter uma postura de prestador de serviço. Não de quem dita normas.

Veja – O senhor costuma ouvir a opinião de sua mulher, não?
Koehler – Eva sempre tem algo a me ensinar. Costuma sugerir, por exemplo, que devo ouvir o que o povo tem a dizer. E que a vida não é apenas economia.

 
 
   
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