Já não se agüenta
tanta inocência

Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, é o
retrato dos cruéis paradoxos que vitimam o Nordeste

PRIMEIRA PARTE: O HOMEM — Pele morena, atarracado de corpo, cabelos negros domados com fixadores e puxados para trás. Esse é o deputado Inocêncio Oliveira, 59 anos, médico, casado e pai de quatro filhos cujos nomes começam com "Sh" (Shely, Sheldon, Shirley e Sheila). Segundo informa a publicação Deputados Brasileiros, ele é portador de 45 condecorações, da Ordem do Rio Branco, no grau Grande Oficial, concedida pelo Itamaraty, ao título de cidadão honorário do município de Cabrobó. É uma beleza de currículo. Eleito deputado pela primeira vez em 1974, Inocêncio Oliveira foi reeleito ininterruptamente, pelo partido que, no fundo o mesmo, se transmudou de Arena em PDS e deste em PFL.

SEGUNDA PARTE: A TERRA — Serra Talhada é a terra do deputado. É uma cidade de 80 000 habitantes, situada mais ou menos na metade da lingüiça que é o mapa de Pernambuco, a 415 quilômetros do Recife. Um visitante casual teria a impressão de se tratar de um lugar tão trágico quanto qualquer outro no sertão. É mais, por conta de um episódio ocorrido nos idos anos de 1837-38, já lá vão 160 anos. Por essa época, o autoproclamado profeta João Ferreira anunciava a próxima volta do amado rei dom Sebastião. Mas o rei, que se encontrava como que transfigurado em mineral, confundido com o monolito chamado Pedra Bonita, precisava de sangue para desencantar, sangue humano que, derramado sobre a pedra, o fizesse ressurgir, glorioso e pronto para instalar o reino da justiça e da prosperidade. O povo sertanejo, ao qual nunca faltou fé, não tardou em atender aos apelos do profeta. Dezenas de seres humanos foram sacrificados, crianças sobretudo. Seus pescoços eram cortados e as cabeças, arremessadas à pedra. Quando faltava gente, usavam-se cachorros — quem sabe a pedra, distraída, não notasse a diferença. A polícia enfim interveio e o fez àquela maneira tão brasileira — massacrou os crentes. Estes morreram entoando hinos religiosos.

TERCEIRA PARTE: A LUTA — Serra Talhada, nestes dias, está enredada, como outros municípios nordestinos, nas misérias da seca. O deputado Inocêncio empenha-se por afirmar-se como o principal "articulador político" — é a expressão da moda — do governo. São duas lutas paralelas. Calcula-se que 25 000 pessoas, em Serra Talhada, sofram os efeitos da estiagem. O leito do Rio Pajeú, que corta a cidade, está seco. O feijão e o milho plantados pelos agricultores não vingaram, e os preços dispararam. Um saco de 60 quilos de feijão, que custava 19 reais no ano passado, custa hoje, segundo apurou o repórter Esdras Paiva, de VEJA, 90 reais. Nas últimas semanas, três mercados da cidade foram saqueados.

Se já é grande em Brasília, em Serra Talhada Inocêncio Oliveira é enorme. É soberano, é imperador. Seu irmão, de nome Sebastião, como o el-rei dom Sebastião que teimou em não desencantar da pedra, é o prefeito da cidade. Inocêncio Oliveira é dono de uma dezena de fazendas. Apesar de elas se situarem nas melhores terras, cortadas por rios perenes, ele se acautelou e, conforme apurou o repórter de VEJA, transferiu o gado para outras fazendas de sua propriedade, no Maranhão, onde não há seca. O deputado já fez muitas coisas na vida, mas a mais memorável foi, há cinco anos, ter recorrido ao Departamento Nacional de Obras contra a Seca, Dnocs, para cavar poços em dois empreendimentos de sua propriedade — uma clínica médica e uma revendedora de motocicletas.

Nada de muito incomum. O Dnocs, criado no começo do século para aliviar o sofrimento do povo nordestino, tem servido mais a particulares do que ao público. Nada de ilegal também, segundo as regras do Dnocs, desde que o particular pague, como o deputado pagou. Convenhamos no entanto que se já há algo de incômodo no fato de nordestinos ricos em geral recorrerem às facilidades e preços fortemente subsidiados do Dnocs para seus negócios particulares, que dizer de alguém que, além de rico, na época era presidente da Câmara dos Deputados?

FINAL — Não se quis estabelecer aqui o vulgar contraste entre o bem-estar de uns e a miséria de muitos, embora o leitor seja livre para fazê-lo. O que se quis é preparar o terreno para algumas perguntas elementares. Como pode o líder do Pefelê, ex-presidente da Câmara, notável articulador do Congresso, não conseguir articular a luta contra a miséria em sua cidade? Será mais fácil reformar a Previdência, quebrar monopólios e executar outras façanhas do gênero do que articular um arcabouço econômico e social que propicie uma vida melhor a uma população de 80.000 pessoas — menos que um Maracanã em dia de Brasil e Argentina? Se conseguiu tanto êxito na carreira e na construção do patrimônio particular, por que o mesmo talento e o mesmo desprendimento não foram úteis para promover sua comunidade? A pergunta vale certamente para muitos outros inocêncios do Nordeste, mas o Inocêncio em questão é o mais em voga. O Brasil já não entende tais paradoxos. Talvez seja mais exato dizer que o Brasil já não agüenta tais paradoxos.




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