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| Fotos: Egberto Nogueira |
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| Pedro
Bandeira 744.000 exemplares, desde 1984 |
Eles raramente são lembrados pela crítica e tampouco seus nomes aparecem na lista dos best-sellers. Mas as aparências enganam: escrevendo e publicando quase na surdina, os autores da chamada literatura juvenil paradidática as obras de ficção endereçadas aos estudantes de 1º e 2º grau -- estão entre os mais bem-sucedidos escritores brasileiros. No mercado editorial, estima-se que eles vendam nada menos do que 4 milhões de exemplares a cada ano, o que corresponde a um faturamento de 25 milhões de reais. Ao contrário da literatura "adulta", na qual imperam as traduções de Sidney Sheldon e John Grisham, de cada dez títulos paradidáticos nove são de autores nacionais. Num país em que o livro está longe de ser um disputado bem de consumo, esses autores conseguiram a proeza de se profissionalizar, ganhando um bom dinheiro para os padrões editoriais brasileiros. Muitos vivem confortavelmente apenas com o resultado do trabalho com a pena. Enquanto escritores consagrados como João Ubaldo Ribeiro ou Lygia Fagundes Telles ganham, em média, 50.000 dólares por ano com literatura, as vedetes do paradidático, como Marcos Rey, autor de O Mistério do Cinco Estrelas, ou Pedro Bandeira, de A Droga da Obediência, faturam sem problemas o triplo, recebendo entre 6% e 10% do preço de capa do livro.
Diferentemente dos autores tradicionais, os que produzem literatura juvenil mantêm contato direto com os consumidores de suas obras. É uma necessidade mercadológica na maioria das vezes, eles trabalham sob encomenda das grandes editoras, que depois empreendem uma luta de foice para que as escolas adotem os livros que cada uma publicou. Com base nessa proximidade, os escritores desenvolvem as tramas que julgam mais interessantes para seu público. Rey e Bandeira recebem mensalmente dezenas de cartas de leitores, sem falar nas freqüentes palestras e debates em escolas que fazem por todo o país. Há muita porcaria nesse mercado, é claro, fabricada principalmente por professoras frustradas que tentam bancar as moderninhas. Os melhores autores, no entanto, tecem histórias bem amarradas, com personagens coerentes e linguagem caprichada.
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Marcos Rey |
Aids e miséria Os autores de paradidáticos lidam cada vez mais com temas próximos da juventude brasileira, como Aids, drogas e miséria. Assuntos como esses, antes considerados tabu nas escolas, agora compõem boa parte dos títulos disponíveis no mercado. A Infância Acabou, de Renato Tapajós, fala de um adolescente filho de pais separados e mostra cenas de violência urbana logo nas primeiras páginas. Alucinado Som de Tuba, de Frei Betto, trata dos meninos de rua. Ainda em 1988, o vírus HIV surgiu em Aids: e Agora?, de Luiz Cláudio Cardoso. A mesma doença e também as drogas são tratadas em A Amarga Herança de Léo, que Isabel Vieira lançou no ano passado. Conforme observa Pedro Bandeira, cujo A Droga da Obediência é uma aventura com subtexto político, a literatura paradidática serve em boa medida como catarse pedagógica para os leitores. "Quando um livro expõe o jovem a problemas da família, do cotidiano, da sociedade, ele se envolve com a experiência sem sofrê-la na própria pele, crescendo nesse percurso", diz. Dessa forma, os paradidáticos vêm cumprindo um dos papéis principais da literatura: abrir debates em vez de apresentar soluções (como preferem os Coelhos e Ribeiros da auto-ajuda). Não há dúvida de que merecem maior atenção dos críticos e da imprensa. "Apenas o esnobismo explica a falta de atenção da crítica brasileira", reclama Rey.
Nos últimos trinta anos, os paradidáticos passaram por fases distintas em seus temas. Nos anos 70, floresceram os livros de aventura. "Era muita ação sem preocupação com a mensagem", conta o editor Jiro Takahashi, um dos criadores da antológica coleção Vagalume, da Ática, cujas tiragens iniciais chegavam a 120.000 exemplares. A série estreou com quatro títulos: Éramos Seis e A Ilha Perdida, de Maria José Dupré, Coração de Onça, de Narbal Fontes, e Cabra das Rocas, de Homero Homem, todos com enredo cheio de peripécias. Até hoje a coleção é um sucesso de vendas e continua a ser reeditada aliás, uma característica desses livros é sua longa vida útil. No começo da década de 80 ocorreu a primeira virada temática, e o responsável por ela foi Marcos Rey. Em O Mistério do Cinco Estrelas, ele introduziu elementos de policial nas tramas, além de transportá-las para um cenário urbano. "O policial era um gênero maldito e muita gente achava que ele não se adaptava à realidade brasileira", diz Rey. Sua estratégia foi adequar enredos policiais ao gosto juvenil, construir personagens com densidade psicológica e agregar tramas secundárias. Antes da estréia, porém, Rey que já era um escritor experiente e autor de roteiros para rádio e televisão teve de se submeter a um teste. Fez sinopses de diversas histórias, que a editora enviou para professores em todo o país. Só as que interessaram mais foram levadas adiante. Como o mercado americano de best-sellers, o mercado brasileiro de paradidáticos desde cedo aprendeu a adaptar suas fórmulas e modelos ao gosto e às necessidades de seu público.
| Isabel Vieira |
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Por decreto -- Curiosamente, a literatura paradidática nasceu "por decreto", numa das poucas ocasiões em que a lei fez algum bem aos livros. O deslanche desse ramo só foi possível porque, em 1972, uma lei sobre educação recomendou que a literatura brasileira fosse adotada em todas as séries da escola. Aos poucos, alguns editores perceberam que clássicos como Euclides da Cunha ou Raul Pompéia nem sempre funcionavam bem na sala de aula. Com exceção de Monteiro Lobato, não havia muito para o leitor jovem alguma coisa nas coleções Saraiva e Jabuti, que andavam decadentes, e os textos carolas da coleção Tesouro da Juventude e similares. O fundador da editora Ática, Anderson Fernandes Dias, foi o primeiro a pressentir um novo filão literário. Em 1973, ele passou a publicar livros juvenis com preços populares e distribuição intensiva em escolas, enfeixados justamente na coleção Vagalume. Hoje, além de informar o seu público enquanto busca entretê-lo, os paradidáticos são vistos como um recurso para fazer germinar o hábito da leitura. Eles estão cumprindo sua parte. O próximo desafio para escritores e editores é criar e difundir uma literatura adulta suficientemente interessante para que esse hábito não se perca.
Carlos Graieb
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