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Judah
Folkman desenvolve drogas capazes de Karina Pastore
Num laboratório do 10º andar do Children's Hospital, da Universidade Harvard, os ratos nunca morrem de câncer. As cobaias sobrevivem a tumores de peso equivalente a 1% de sua massa corporal o que, num homem de 80 quilos, representa um nódulo maligno do tamanho de uma bola de futebol, incompatível com a vida. A doença desaparece por obra da combinação de duas drogas novas. Depois que o câncer some, não se encontram vestígios dele nem ao microscópio. Nunca, na história da medicina, pesquisa alguma chegou a resultados tão promissores (leia a repercussão entre alguns dos maiores especialistas nos quadros). Os testes em seres humanos devem começar ainda neste ano. Se tudo der certo se , o século XXI poderá começar mais leve, livre de 90% dos casos de câncer. Mal que sempre causou horror e pânico, o câncer é a terceira causa de morte no mundo. Mata por ano 6 milhões de pessoas, quase 110.000 no Brasil. Em fase avançada, impõe às vítimas sofrimentos insuportáveis. Ao que tudo indica, o caminho da cura foi encontrado. E seu descobridor é o doutor Judah Folkman,americano de 65 anos, casado, dois filhos. Os resultados finais da pesquisa de Folkman com os ratos de laboratório foram divulgados na semana passada e causaram uma onda de otimismo no mundo inteiro.
A nova forma de combate ao câncer é simples e revolucionária resultado do gênio e obstinação de Folkman. Há quase quarenta anos, Folkman suspeitou que o tumor cancerígeno produziria substâncias capazes de ajudá-lo a crescer. Como se verificou, esses agentes realmente existiam. Sua atuação é espantosa, até mesmo fascinante quando não se leva em conta o sofrimento que causam. O tumor parece um ser vivo, um alienígena implantado no organismo da pessoa, tomando providências para cercar-se das melhores condições de crescimento na missão final de matar o hospedeiro. Entre vários cientistas envolvidos na guerra contra esse mecanismo assassino, Folkman foi o que mais se destacou. Fazia aquele trabalho paciente, dia após dia, no silêncio de um laboratório. Certa vez, durante uma palestra, contou: "Minha mulher sempre pergunta por que demora tanto para se chegar a um resultado. Quando a natureza não cumpre sua promessa de vida, o médico se pergunta por que e vai para o laboratório em busca das respostas". Leva tempo mesmo. As respostas agora estão aí ao menos para os ratos.
A idéia básica Folkman extraiu de uma experiência pela qual qualquer cancerologista já passou. Há pelo menos 100 anos, sabe-se que a operação de extração de um grande tumor isolado traz enormes riscos ao paciente. Em geral, e contrariando as expectativas, quando se pensava ter curado a doença, o que acontecia era que, depois de alguns meses, vários novos tumores apareciam em outras regiões do organismo. Essa era a razão por que muitos oncologistas, diante de um nódulo, preferiam mantê-lo a extraí-lo. De outro lado, o próprio Folkman percebeu que um tumor não ultrapassa o tamanho de uma cabeça de alfinete se não formar, ele próprio, uma rede de vasos sanguíneos que o alimente. Folkman chegou a ser ridicularizado quando começou a produzir uma explicação sobre esse fenômeno. O que ele acabou por constatar é quase inacreditável. Segundo se comprovou posteriormente, o tumor tem uma espécie de estratégia biológica para evitar que outros focos cancerígenos ajudem a matar a pessoa mais cedo. Quanto mais tempo o paciente vive, mais tempo de vida terá o tumor original. Então, o primeiro tumor a aparecer no corpo de uma pessoa produz uma substância que dificulta o aparecimento de focos cancerígenos menores em outros locais. Essa substância atua em associação com outra, que cria uma rede de vasos sanguíneos para que o próprio tumor cresça e se alimente. Extraído o grande câncer primário, a substância inibidora dos novos tumores desaparece com ele. E, então, a doença se espalha por vários outros órgãos. É a temida metástase. Quando as primeiras explicações sobre essa estratégia apareceram, elas soaram como boas demais para ser verdadeiras. Tinham, contudo, uma virtude. Apontavam um caminho de tratamento: bloqueando o desenvolvimento da rede sanguínea que alimenta o tumor de nutrientes e oxigênio, o câncer deveria encolher. O tratamento seria mais eficaz ainda se os pesquisadores encontrassem uma substância que impedisse a metástase. A princípio, poucos cientistas levaram Folkman a sério. Em 1971, o panorama mudou. Nesse ano, ele provou a primeira parte de sua teoria num artigo para o The New England Journal of Medicine, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo. Sem a irrigação extra de sangue, os tumores tornavam-se mesmo pequenos e inofensivos. Três anos depois, Folkman receberia 23 milhões de dólares da indústria química Monsanto como ajuda financeira para suas pesquisas. Dez anos passados, e ele havia desenvolvido as primeiras drogas que inibiam o processo de formação da malha de vasos sanguíneos. Essas primeiras substâncias diminuíam o ritmo de crescimento do câncer, mas não o erradicavam. Era preciso encontrar a droga bloqueadora das metástases.
"Ele sempre teve idéias visionárias sobre processos complexos e, por isso, enfrentava um ceticismo muito grande", lembra o biólogo Douglas Hanahan, professor da Universidade da Califórnia. Por dois anos, todas as sextas-feiras, durante os encontros com os orientandos de doutorado e pós-doutorado, o doutor Folkman tentou recrutar companheiros para suas pesquisas. Em 1989, finalmente, um aceitou o desafio, o jovem Michael O'Reilly, co-autor da descoberta da angiostatina e, logo em seguida, da endostatina. Com a ajuda de outros dois pesquisadores, Thomas Boehm e Timothy Browder, as drogas foram aplicadas em ratos doentes (leia quadro). Em todos os animais tratados com o coquetel de angiostatina e endostatina, o câncer simplesmente desapareceu sem deixar traços. De outro lado, todos os ratos em que foi ministrada uma solução de água e sal pereceram vítimas de tumores gigantescos. |
A.
Caires/A. P. Pidone |
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