Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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Tales Alvarenga
O papa reacionário

"Um bilhão de católicos acreditam que sua
Igreja está entrelaçada ao divino, o que não
impede que outros
5 bilhões de seres humanos
achem que a divindade verdadeira iluminou as
suas igrejas particulares – e não a do papa de Roma"

O papa morreu como uma celebridade global, a maior delas. Nunca um religioso, um rei ou um presidente convocou a admiração mundial com tamanha intensidade na hora da morte. Mais impressionantes do que isso são a sobrevivência e a pujança da própria Igreja Católica após 2.000 anos de existência. É a mais antiga multinacional do planeta. Seu governo é piramidal como o de um exército e seu regime de domínio se assemelha ao das monarquias absolutas.

O bilhão de praticantes do catolicismo acredita que sua Igreja está entrelaçada ao divino, o que não impede que outros 5 bilhões de seres humanos achem que a divindade verdadeira iluminou as suas igrejas particulares – e não a do papa de Roma. Não importa. Mesmo como construção simplesmente humana, a Igreja Católica já representaria quase um milagre de poder, referência moral e sobrevivência. Imaginar no seu nascimento que ela poderia superar os obstáculos que se colocariam diante dela por dois milênios seria um impossível exercício de futurologia. A Igreja nasceu como religião de pobres, tornou-se poderosa e ostentatória, abençoou guerras de extermínio, supliciou os que discordavam de suas teses nas masmorras da Inquisição e atravessou períodos de intensa corrupção moral. As denúncias sobre assédio sexual a meninos por parte de sacerdotes católicos nos últimos anos causaram repugnância ao atingir escala de epidemia. Mas isso é comparativamente quase nada na lista de desafios que a Igreja precisou ultrapassar para não desaparecer.

No livro A Marcha da Insensatez, a historiadora americana Barbara Tuchman dedica setenta páginas a seis papas da Renascença cujo comportamento depravado ajudou a deflagrar uma das maiores revoluções culturais da história da humanidade, a Reforma Protestante. O cardeal Rodrigo Bórgia assumiu a mitra papal em 1492, como Alexandre VI, carregado de amantes e com sete filhos. Comprou o papado com lingotes de ouro. Promoveu orgias sexuais impublicáveis. Júlio II, seu sucessor, usava elmo e cota de malha e, de espada na mão, se punha à frente do Exército papal em guerras de conquista. São apenas dois exemplos de um ambiente de esbórnia que maculava a Igreja, do trono do papa à paróquia de padres ignorantes que tinham amantes e subiam bêbados ao púlpito. A Igreja sobreviveu e a comoção provocada pela morte de João Paulo II demonstra que os pontos negros por ela atravessados podem ser hoje encarados como dolorosos acidentes de percurso que não tiveram o poder de destruí-la como referência moral.

O sucesso de João Paulo II é em grande parte o resultado de sua habilidade no manuseio do teatro da comunicação num momento de dominância global da mídia, principalmente a televisão. Nem por isso o fenômeno é menos impressionante. Karol Wojtyla era um religioso conservador, um papa que se poderia considerar reacionário num mundo crescentemente inclinado ao materialismo, à racionalidade da ciência e da técnica, ao consumismo capitalista e ao esquecimento do sagrado. Wojtyla defendia princípios que estão na tradição da Igreja, mas se confrontam com os usos e costumes das sociedades atuais. Pelo que se viu em Roma nos últimos dias, o mundo o compreendeu.

 
 
 
 
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