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Tales
Alvarenga
O papa reacionário
"Um bilhão de católicos
acreditam que sua
Igreja está entrelaçada ao divino, o que não
impede que outros 5 bilhões de seres humanos
achem que a divindade verdadeira iluminou as
suas igrejas particulares e não a do papa de Roma"
O papa morreu como uma celebridade global,
a maior delas. Nunca um religioso, um rei ou um presidente convocou
a admiração mundial com tamanha intensidade na hora
da morte. Mais impressionantes do que isso são a sobrevivência
e a pujança da própria Igreja Católica após
2.000 anos de existência. É a mais antiga multinacional
do planeta. Seu governo é piramidal como o de um exército
e seu regime de domínio se assemelha ao das monarquias absolutas.
O bilhão de praticantes do catolicismo
acredita que sua Igreja está entrelaçada ao divino,
o que não impede que outros 5 bilhões de seres humanos
achem que a divindade verdadeira iluminou as suas igrejas particulares
e não a do papa de Roma. Não importa. Mesmo
como construção simplesmente humana, a Igreja Católica
já representaria quase um milagre de poder, referência
moral e sobrevivência. Imaginar no seu nascimento que ela
poderia superar os obstáculos que se colocariam diante dela
por dois milênios seria um impossível exercício
de futurologia. A Igreja nasceu como religião de pobres,
tornou-se poderosa e ostentatória, abençoou guerras
de extermínio, supliciou os que discordavam de suas teses
nas masmorras da Inquisição e atravessou períodos
de intensa corrupção moral. As denúncias sobre
assédio sexual a meninos por parte de sacerdotes católicos
nos últimos anos causaram repugnância ao atingir escala
de epidemia. Mas isso é comparativamente quase nada na lista
de desafios que a Igreja precisou ultrapassar para não desaparecer.
No livro A Marcha da Insensatez, a
historiadora americana Barbara Tuchman dedica setenta páginas
a seis papas da Renascença cujo comportamento depravado ajudou
a deflagrar uma das maiores revoluções culturais da
história da humanidade, a Reforma Protestante. O cardeal
Rodrigo Bórgia assumiu a mitra papal em 1492, como Alexandre
VI, carregado de amantes e com sete filhos. Comprou o papado com
lingotes de ouro. Promoveu orgias sexuais impublicáveis.
Júlio II, seu sucessor, usava elmo e cota de malha e, de
espada na mão, se punha à frente do Exército
papal em guerras de conquista. São apenas dois exemplos de
um ambiente de esbórnia que maculava a Igreja, do trono do
papa à paróquia de padres ignorantes que tinham amantes
e subiam bêbados ao púlpito. A Igreja sobreviveu e
a comoção provocada pela morte de João Paulo
II demonstra que os pontos negros por ela atravessados podem ser
hoje encarados como dolorosos acidentes de percurso que não
tiveram o poder de destruí-la como referência moral.
O sucesso de João Paulo II é
em grande parte o resultado de sua habilidade no manuseio do teatro
da comunicação num momento de dominância global
da mídia, principalmente a televisão. Nem por isso
o fenômeno é menos impressionante. Karol Wojtyla era
um religioso conservador, um papa que se poderia considerar reacionário
num mundo crescentemente inclinado ao materialismo, à racionalidade
da ciência e da técnica, ao consumismo capitalista
e ao esquecimento do sagrado. Wojtyla defendia princípios
que estão na tradição da Igreja, mas se confrontam
com os usos e costumes das sociedades atuais. Pelo que se viu em
Roma nos últimos dias, o mundo o compreendeu.
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