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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Tapetão
medieval
"As ordens e conselhos profissionais
querem proteger o mercado de seus graduados pela força da lei.
A reserva é ótima para quem é protegido da concorrência.
Mas, para a sociedade, só há perdas"
Imaginemos um bilionário tupiniquim cismando de fundar uma fantástica
escola de administração. Para isso, lista os professores mais distinguidos
do globo: Amitai Etzioni, Fritjof Capra, Humberto Maturana, Henry Mintzberg, Herbert
Simon, Joseph Juran, Michael Porter, Peter Drucker, Peter Senge e Tom Peters.
Contudo, nenhum deles poderia ser contratado, pois não têm diploma
de administração de empresas, exigido pelo Conselho Federal de Administração.
Pelas normativas 300 e 301, os professores formados em outras áreas não
podem lecionar nos cursos de administração. Ou seja, não
podem ensinar em nossas escolas os mais destacados pensadores, lidos por todos
os alunos. O tapetão das profissões
tem origem nas corporações de ofício medievais. Mas elas
tinham sua razão de ser. As corporações deram estrutura e
proteção a uma classe nascente de artesãos altamente refinados
(marceneiros, ferreiros, pedreiros e dezenas de outras ocupações).
Organizados, seus membros ganharam status e a defesa de interesses antes desprotegidos
e marginalizados na hierarquia social.
Ilustração
Ale Setti
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Graças
às corporações de ofício, foram valorizados e desenvolvidos
os ofícios clássicos. Nelas se compartilhavam as técnicas
e as boas práticas que levaram à produção de obras
imperecíveis. De fato, a maçonaria (da palavra francesa para pedreiro)
foi, em sua origem, uma espécie de "academia de ciências" da construção
civil, responsável pelos avanços tecnológicos que permitiram
as catedrais góticas.
Foi também
nas corporações de ofício que se criaram as regras sob as
quais os mestres transmitiam para seus aprendizes tudo o que sabiam. Portanto,
elas são a origem da formação profissional. Mais ainda, impunham
exames rígidos para a concessão de uma carta de ofício
o que protegia também os clientes. A palavra obra-prima designava o trabalho
de formatura, na qual o aprendiz mostrava o seu virtuosismo. Os membros dessas
entidades tinham direito exclusivo ao exercício das profissões.
A força da lei os protegia, concedendo-lhes rígida reserva de mercado
que apenas foi abalada com as turbulências da Revolução
Industrial. Elas por elas, o balanço foi altamente positivo. Eram muitos
os serviços e benefícios prestados à comunidade, em troca
da proteção dos mercados. Embora
as corporações originais tenham desaparecido, foram reencarnadas
nos conselhos profissionais, ordens e sindicatos herdeiros dessas tradições.
Mas a equação é diferente. Todos visam proteger ocupações
de nível superior, cujos diplomados estão no topo da distribuição
de renda, de status e de poder. São os que menos precisam de proteção
legal, pois ganham pelo menos cinco vezes mais do que um operário qualificado.
Infelizmente, as ordens e conselhos não
têm desempenhado nenhum papel relevante no avanço técnico
das profissões. E são tíbias as punições por
travessuras ou conduta antiética. Tampouco têm qualquer papel significativo
em controlar a qualidade dos profissionais (à exceção da
Ordem dos Advogados, com seu exame), o que seria sua função nobre.
Não obstante, querem proteger o mercado de seus graduados pela força
da lei. As corporações medievais tinham esse privilégio,
mas davam muito em contrapartida. O novo corporativismo reivindica reservas de
mercado sem prestar nenhum serviço relevante à sociedade.
É verdade, a reserva de mercado é ótima
para quem é protegido da concorrência. Mas, para a sociedade, só
há perdas. Nos dias de hoje, o monopólio do diploma justifica-se
quando os clientes não sabem avaliar a competência de quem prestaria
o serviço ou quando há riscos (como nas áreas médica,
legal e de aviação, por exemplo). Ora, o dono de uma empresa ou
escola de administração sabe quem sabe e quem não sabe. Não
é ajudado pelo conselho. Pelo contrário. O conselho não deixa
contratar nem Drucker, que é advogado, nem Maturana, que é biólogo.
Os interesses da sociedade não são
os mesmos que os das ordens e dos sindicatos profissionais. Logo, é inexplicável
a posição do Ministério da Educação, ao endossar
o tapetão de grupos já privilegiados, em vez de defender o bem-estar
coletivo. Claudio de Moura Castro
é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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