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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Sucesso e fracasso
de um papa pop
Os 26 anos
de pontificado de João
Paulo II
foram marcados pelo paradoxo
A Igreja Católica, sob João
Paulo II, cresceu como força política e diminuiu como
religião. Esse é um dos paradoxos que caracterizam
os 26 anos de reinado do papa polonês. Outro é que
João Paulo II foi um perfeito homem de seu tempo na utilização
precisa dos meios de comunicação, daí seu enorme
sucesso, mas empregou esse dom inato a serviço de idéias
de outro tempo daí seu enorme fracasso. De Paulo VI,
seu antecessor que conta (João Paulo I durou só um
mês e pouco), dizia-se que era um papa hamletiano, torturado
pela dúvida diante dos desafios de um mundo tensionado pela
confrontação política e pela transformação
social. João Paulo II era só certezas. Com isso, seduziu
tanto quanto alienou e não é só que
tenha seduzido alguns e alienado outros. As mesmas pessoas, e talvez
estas sejam maioria, podiam sentir-se ao mesmo tempo seduzidas por
sua presença magnética e alienadas quanto à
observância de seus ensinamentos.
O envolvimento de João Paulo II nas
questões mundiais foi total. Ele não ajudou apenas,
em sua obra mais bem-sucedida, a dar o empurrão final no
comunismo do Leste Europeu. Não houve questão, nos
mais diferentes rincões do mundo, que não lhe capturasse
a atenção. Não se trata de algo novo, numa
Igreja que se chama "católica", palavra grega equivalente
a "universal", e que, como nenhuma outra, detém o privilégio
de deitar sua influência mesmo sobre rincões e comunidades
de outras crenças. Mas João Paulo II o fez de maneira
mais contumaz e mais espetacular. Empreendeu 104 viagens a 129 países.
Nessas ocasiões, superava-se como ator global. Inventou gestos
como beijar o chão do país em que desembarcava, o
que rendia imagens magníficas, o papa estirado no asfalto
dos aeroportos, as brancas vestes esvoaçando ao vento. Suas
apresentações, em estádios ou grandes praças
públicas, só encontravam rival nos shows de rock.
João Paulo II foi, até o último
grau, com perdão do palavrão, um papa "midiático".
E dizer isso, em nossa época, é quase o mesmo que
dizer "político". Quando ele assumiu não havia internet,
a TV a cabo engatinhava e a oferta de transmissões globais
via satélite era pífia, em relação ao
que seria. Ele acompanhou o crescimento desses meios e cresceu com
eles. Já não fosse a espetaculosidade milenar da Igreja
Católica, com suas catedrais, seus ritos, seus cantos e as
vestes de seus hierarcas, tudo isso foi potencializado pelos novos
instrumentos. Até as imagens de sua agonia João Paulo
II não sonegou ao público. Expôs-se à
mídia até o fim. E no entanto, num país como
o Brasil, que ele visitou três vezes, e em cada uma delas
arrastou multidões, os católicos caíram de
89% da população, em 1980, para 73,9% em 2000, segundo
os censos nacionais respectivos. Na Europa, o show de mídia
que foi o pontificado de João Paulo II não se mostrou
suficiente para estancar a indiferença com relação
à religião ou o agnosticismo.
Culpa de João Paulo II? Antes, em primeiro
lugar, a culpa é dos tempos que correm. A tendência
à irreligiosidade, nos países europeus, colunas fundadoras
e alicerces culturais do cristianismo, antecede a seu papado. No
único país desenvolvido onde a religião impera,
os Estados Unidos, os católicos são minoria. Nos países
do Terceiro Mundo, a miséria e a ignorância favorecem
a oferta de mercadoria enganosa no mercado das religiões.
Mas identifica-se alguma culpa, da parte do
papa, quando se aceita que ele foi firme demais onde não
devia e frouxo onde devia. Ele foi firme na condenação
da camisinha e das pesquisas com células-tronco, o que o
pôs na contramão da saúde e da ciência.
Também carregou a mão na contenção da
ala esquerda da Igreja, o que ocasionou divisões que degeneraram
em rancor. Foi frouxo para combater, ou até cego para enxergar,
os sintomas de apatia e burocratização que contaminam
boa parte do clero. Visita-se qualquer cidade do Brasil e é
tão comum encontrar igreja fechada e padre ausente quanto
porta aberta e pastor vigilante no templo evangélico. Foi
frouxo na reação aos escândalos em série
de pedofilia que estouraram nos Estados Unidos. É de presumir
que em outros países estourassem escândalos de igual
intensidade se neles reinasse o mesmo instinto americano para levar
essas coisas a sério, litigar e exigir indenização
nos tribunais. Há muito se sabe quanto o celibato obrigatório
dos padres é flanco aberto para a perversão. João
Paulo II fez que não sabia.
Seu pontificado terminou de forma triunfal,
com o fenômeno de multidões jamais vistas acorrendo
a Roma para os funerais. O que movia essas pessoas? O fervor religioso?
Ou o ímã irresistível do pop star? Talvez as
duas coisas e, de novo, as duas coisas atuando muitas vezes
em concomitância sobre a mesma pessoa. É uma característica
do nosso tempo que os ídolos do rock provoquem, nas multidões,
reações parecidas com o transe religioso. João
Paulo II inverteu a equação. Era, e continuou sendo,
depois da morte, um hierarca religioso categoria em princípio
sóbria e discreta que provoca reações
iguais às que provoca um ídolo pop.
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