Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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Música
Escapismo musical

O engarrafamento está terrível? Artistas
como Jack Johnson têm a solução


Sérgio Martins


Nas baladas acústicas de seu novo álbum, o recém-lançado In between Dreams, o cantor havaiano Jack Johnson celebra a vida de surfista. Acompanhado apenas de seu violão, ele canta como é gostoso pegar ondas e curtir o sol ao lado da garota amada. Ex-profissional do esporte, atlético e boa-praça, Johnson tem a estampa do rapaz "maneiro" que atiça as garotas na praia. Com essa imagem e esse tipo de música, o cantor já vendeu 6 milhões de discos ao redor do planeta, 80.000 dos quais no Brasil. Os números sugerem que seu público vai muito além das rodas de surfistas. De fato, uma parcela considerável de seus fãs compõe-se de trintões urbanos que nunca usaram um bermudão florido, mas, no meio do engarrafamento, fogem com Jack Johnson para um luau. Para esse público, os discos do artista representam uma mercadoria especial, que a música sempre soube oferecer: uma forma de escapismo.

Na música erudita, a obra do pianista Frédéric Chopin (1810-1849) já cumpria esse papel. Suas peças românticas levavam o público dos grandes centros da Europa a sonhar com idílios campestres. Alguns gêneros da música atual também são rotas de fuga. Um caso emblemático é o do reggae. Consagrado por Bob Marley, ele nasceu como música de protesto, mas, com o tempo, perdeu o gume. Restou somente a sugestão de vida mansa numa Jamaica utópica, em que todos se chamam de "irmão" – de preferência com um baseado em punho.

A música brasileira também tem uma forte vertente escapista. Gestada por rapazes de classe alta no Rio de Janeiro do fim dos anos 50, a bossa nova, por exemplo, nunca quis espelhar o mundo real, com seus acordes amenos e suas letras sobre barquinhos. Da mesma forma, a contínua regravação do cancioneiro antigo por nomes importantes da MPB vende um coquetel de escapismo e nostalgia. Num disco elogiado como Brasileirinho, a cantora Maria Bethânia enaltece um Brasil rural habitado por caboclas formosas e boiadeiros heróicos. Quando as pessoas do interior do país escutam música sertaneja, é compreensível: trata-se de uma afirmação de sua identidade. Bem diferente é o fascínio que Bethânia provoca em seus fãs de classe média do eixo Rio–São Paulo ao enaltecer esse Brasil caipira que não existe – pelo menos para eles.

A fuga da realidade se confunde com a promessa de um estilo de vida alternativo. Há um tipo de música para cada demanda. Jack Johnson faz os marmanjos das cidades divagar por ter as ondas do Havaí a seus pés. Os esotéricos encontram nos discos de cantoras new age como a irlandesa Enya e a canadense Loreena McKennitt um passaporte para um cenário zen em meio à natureza, com direito a duendes e tudo o mais. E mesmo no heavy metal há bastiões escapistas. A banda americana Manowar dirige-se aos machões que sonham com uma vida em alta velocidade, rodando pelas estradas com uma loira em sua garupa. Os cabeludos também sonham acordados.

 
 
 
 
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