|
|
Música
Escapismo musical
O engarrafamento está
terrível? Artistas
como Jack Johnson têm a solução

Sérgio Martins
Nas baladas acústicas de
seu novo álbum, o recém-lançado In between
Dreams, o cantor havaiano Jack Johnson celebra a vida de surfista.
Acompanhado apenas de seu violão, ele canta como é
gostoso pegar ondas e curtir o sol ao lado da garota amada. Ex-profissional
do esporte, atlético e boa-praça, Johnson tem a estampa
do rapaz "maneiro" que atiça as garotas na praia. Com essa
imagem e esse tipo de música, o cantor já vendeu 6
milhões de discos ao redor do planeta, 80.000 dos quais no
Brasil. Os números sugerem que seu público vai muito
além das rodas de surfistas. De fato, uma parcela considerável
de seus fãs compõe-se de trintões urbanos que
nunca usaram um bermudão florido, mas, no meio do engarrafamento,
fogem com Jack Johnson para um luau. Para esse público, os
discos do artista representam uma mercadoria especial, que a música
sempre soube oferecer: uma forma de escapismo.
Na música erudita, a obra
do pianista Frédéric Chopin (1810-1849) já
cumpria esse papel. Suas peças românticas levavam o
público dos grandes centros da Europa a sonhar com idílios
campestres. Alguns gêneros da música atual também
são rotas de fuga. Um caso emblemático é o
do reggae. Consagrado por Bob Marley, ele nasceu como música
de protesto, mas, com o tempo, perdeu o gume. Restou somente a sugestão
de vida mansa numa Jamaica utópica, em que todos se chamam
de "irmão" de preferência com um baseado em
punho.
A música brasileira também
tem uma forte vertente escapista. Gestada por rapazes de classe
alta no Rio de Janeiro do fim dos anos 50, a bossa nova, por exemplo,
nunca quis espelhar o mundo real, com seus acordes amenos e suas
letras sobre barquinhos. Da mesma forma, a contínua regravação
do cancioneiro antigo por nomes importantes da MPB vende um coquetel
de escapismo e nostalgia. Num disco elogiado como Brasileirinho,
a cantora Maria Bethânia enaltece um Brasil rural habitado
por caboclas formosas e boiadeiros heróicos. Quando as pessoas
do interior do país escutam música sertaneja, é
compreensível: trata-se de uma afirmação de
sua identidade. Bem diferente é o fascínio que Bethânia
provoca em seus fãs de classe média do eixo RioSão
Paulo ao enaltecer esse Brasil caipira que não existe
pelo menos para eles.
A fuga da realidade se confunde
com a promessa de um estilo de vida alternativo. Há um tipo
de música para cada demanda. Jack Johnson faz os marmanjos
das cidades divagar por ter as ondas do Havaí a seus pés.
Os esotéricos encontram nos discos de cantoras new age como
a irlandesa Enya e a canadense Loreena McKennitt um passaporte para
um cenário zen em meio à natureza, com direito a duendes
e tudo o mais. E mesmo no heavy metal há bastiões
escapistas. A banda americana Manowar dirige-se aos machões
que sonham com uma vida em alta velocidade, rodando pelas estradas
com uma loira em sua garupa. Os cabeludos também sonham acordados.
|