Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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Livros
O mundo cabe no gramado

Um livro envolvente mostra como o futebol
se tornou uma grande vitrine da globalização


Jerônimo Teixeira


Peter Parks/AFP
O jogo entre Irã e Coréia do Norte pelas eliminatórias da Copa: a vitória dos iranianos terminou em pancadaria


EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Tanto quanto as bolsas de valores, os estádios de futebol de hoje em dia poderiam ser chamados de templos da globalização. Ali se joga o esporte mais popular do mundo, que arregimenta fãs em todos os continentes. Os jogadores ingressam em um mercado de trabalho planetário – podem estar hoje em um time dos Emirados Árabes e amanhã no Japão. E esse livre-comércio do talento futebolístico criou uma elite de superstars: conhecidos e venerados em toda parte, craques como o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, do Barcelona, e o inglês David Beckham, do Real Madrid, vendem a imagem para campanhas dos mais diferentes produtos. No envolvente livro-reportagem Como o Futebol Explica o Mundo (tradução de Carlos Alberto Medeiros; Jorge Zahar; 224 páginas; 29,50 reais), o jornalista americano Franklin Foer, da revista New Republic, examinou a natureza globalizada do futebol. Constatou que o esporte desmente uma idéia feita. Não, a globalização não está esmagando culturas locais para produzir um mundo uniformizado. Times e torcidas de futebol têm mantido suas particularidades. A má notícia é outra: a cultura local muitas vezes inclui o racismo e a violência.

Historicamente, os estádios serviram como arenas políticas onde se afirmaram os direitos de grupos ou etnias. Foer relata que, no tempo em que a Ucrânia era parte da União Soviética, os torcedores ucranianos entoavam canções nacionalistas quando seus times venciam os russos – e o mesmo extravasamento de ambições nacionais acontecia em outros países da Cortina de Ferro, como a Hungria. Mesmo hoje, o potencial libertador do esporte pode ser observado no Irã – onde mulheres desafiam as estritas regras religiosas e se vestem de homem para assistir aos jogos.

O futebol, no entanto, também serviu (e ainda serve) de palco para distorções políticas que já deveriam ter sido varridas. Muitos dos infames hooligans (torcedores arruaceiros) ingleses têm pendores anti-semitas. Nas arquibancadas, costumam erguer o braço, arremedando a saudação nazista. Durante a Guerra da Bósnia, a torcida organizada do Estrela Vermelha, de Belgrado, serviu como uma espécie de campo de recrutamento para as milícias sérvias que realizaram a "limpeza étnica". Em Glasgow, na Escócia, os embates entre o Rangers, time de tradição protestante, e o Celtic, católico, reacendem ressentimentos que remontam a conflitos religiosos do século XVII. O tumulto provocado pelos torcedores norte-coreanos quando sua seleção perdeu para o Irã nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2006, no fim do mês passado, poderia ser um pós-escrito irônico para o livro de Foer. Estavam em campo duas nações atrasadas, que resistem à globalização, e seus torcedores demonstravam um arrebatamento irracional.

A corrupção é outro mal endêmico do esporte. O livro traz histórias sobre o suborno a juízes e à imprensa na Itália, mas um dos capítulos mais desoladores é sobre a pátria onde se joga o futebol mais "esteticamente agradável" do planeta (a expressão é de Foer). O retrato dos clubes brasileiros é devastador: entidades financeiramente insalubres que buscam investidores internacionais não para reformar estádios ou contratar craques, mas para engordar a conta particular de seus cartolas. O resultado são times cujos melhores jogadores fogem para a Europa e estádios que parecem imensos chiqueiros.

Felizmente, Foer deixa indicações de que a transformação dos clubes em megaempresas modernas pode corrigir aberrações e soterrar a truculência ideológica. Na Inglaterra, recentes reformas para incrementar o conforto e a segurança nos estádios e uma repressão policial mais rigorosa fizeram rarear os episódios de destruição protagonizados por hooligans – que já foram uma vergonha nacional. O Barcelona – cujos jogos também serviram para que os torcedores catalães extravasassem suas ambições nacionalistas durante a ditadura do general Franco – é o modelo de time global para Foer. Soube internacionalizar-se sem perder sua profunda conexão com a cultura local. Mas essa opinião não é totalmente isenta: o jornalista americano declara-se um apaixonado torcedor do time espanhol.

 

Bola dividida

BRASIL
Globalização: o talento dos esportistas brasileiros é reconhecido mundialmente. Jogadores como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho viraram grifes internacionais
Tribalismo: os times brasileiros não seguram os bons jogadores porque seguem atrelados a cartolas que administram os clubes como se fossem seus currais

Thierry Roge/Reuters


REINO UNIDO
Globalização: como qualquer grande empresa moderna, os times buscam jogadores de todo o mundo, não importando de qual raça ou religião
Tribalismo: entre as torcidas, ainda existem mostras de racismo e anti-semitismo, como a saudação nazista. Na Escócia, a torcida do Rangers, time de tradição protestante, costuma gritar obscenidades contra o papa

Sergey Supinsky/AFP


UCRÂNIA
Globalização: os jogadores africanos estão em moda nos grandes times da Ucrânia, como o Shakhtar Donetsk. Até mesmo o Karpaty, da gelada cidade de Lviv, contratou nigerianos
Tribalismo: os jogadores locais se ressentem dos salários mais altos pagos aos africanos. O resultado é um time descoordenado: os ucranianos não passam a bola para os nigerianos

 

 
 
 
 
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