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Livros O
mundo cabe no gramado Um livro envolvente mostra
como o futebol se tornou uma grande vitrine da globalização

Jerônimo Teixeira
Peter Parks/AFP  |
| O jogo entre Irã e Coréia do Norte pelas eliminatórias
da Copa: a vitória dos iranianos terminou em pancadaria |
Tanto quanto as bolsas de valores,
os estádios de futebol de hoje em dia poderiam ser chamados de templos
da globalização. Ali se joga o esporte mais popular do mundo, que
arregimenta fãs em todos os continentes. Os jogadores ingressam em um mercado
de trabalho planetário podem estar hoje em um time dos Emirados
Árabes e amanhã no Japão. E esse livre-comércio do
talento futebolístico criou uma elite de superstars: conhecidos e venerados
em toda parte, craques como o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, do Barcelona,
e o inglês David Beckham, do Real Madrid, vendem a imagem para campanhas
dos mais diferentes produtos. No envolvente livro-reportagem Como o Futebol
Explica o Mundo (tradução de Carlos Alberto Medeiros; Jorge
Zahar; 224 páginas; 29,50 reais), o jornalista americano Franklin Foer,
da revista New Republic, examinou a natureza globalizada do futebol. Constatou
que o esporte desmente uma idéia feita. Não, a globalização
não está esmagando culturas locais para produzir um mundo uniformizado.
Times e torcidas de futebol têm mantido suas particularidades. A má
notícia é outra: a cultura local muitas vezes inclui o racismo e
a violência. Historicamente,
os estádios serviram como arenas políticas onde se afirmaram os
direitos de grupos ou etnias. Foer relata que, no tempo em que a Ucrânia
era parte da União Soviética, os torcedores ucranianos entoavam
canções nacionalistas quando seus times venciam os russos
e o mesmo extravasamento de ambições nacionais acontecia em outros
países da Cortina de Ferro, como a Hungria. Mesmo hoje, o potencial libertador
do esporte pode ser observado no Irã onde mulheres desafiam as estritas
regras religiosas e se vestem de homem para assistir aos jogos.
O futebol, no entanto, também serviu (e ainda serve) de palco para distorções
políticas que já deveriam ter sido varridas. Muitos dos infames
hooligans (torcedores arruaceiros) ingleses têm pendores anti-semitas. Nas
arquibancadas, costumam erguer o braço, arremedando a saudação
nazista. Durante a Guerra da Bósnia, a torcida organizada do Estrela Vermelha,
de Belgrado, serviu como uma espécie de campo de recrutamento para as milícias
sérvias que realizaram a "limpeza étnica". Em Glasgow, na Escócia,
os embates entre o Rangers, time de tradição protestante, e o Celtic,
católico, reacendem ressentimentos que remontam a conflitos religiosos
do século XVII. O tumulto provocado pelos torcedores norte-coreanos quando
sua seleção perdeu para o Irã nas eliminatórias da
Copa do Mundo de 2006, no fim do mês passado, poderia ser um pós-escrito
irônico para o livro de Foer. Estavam em campo duas nações
atrasadas, que resistem à globalização, e seus torcedores
demonstravam um arrebatamento irracional. A corrupção
é outro mal endêmico do esporte. O livro traz histórias sobre
o suborno a juízes e à imprensa na Itália, mas um dos capítulos
mais desoladores é sobre a pátria onde se joga o futebol mais "esteticamente
agradável" do planeta (a expressão é de Foer). O retrato
dos clubes brasileiros é devastador: entidades financeiramente insalubres
que buscam investidores internacionais não para reformar estádios
ou contratar craques, mas para engordar a conta particular de seus cartolas. O
resultado são times cujos melhores jogadores fogem para a Europa e estádios
que parecem imensos chiqueiros. Felizmente, Foer
deixa indicações de que a transformação dos clubes
em megaempresas modernas pode corrigir aberrações e soterrar a truculência
ideológica. Na Inglaterra, recentes reformas para incrementar o conforto
e a segurança nos estádios e uma repressão policial mais
rigorosa fizeram rarear os episódios de destruição protagonizados
por hooligans que já foram uma vergonha nacional. O Barcelona
cujos jogos também serviram para que os torcedores catalães extravasassem
suas ambições nacionalistas durante a ditadura do general Franco
é o modelo de time global para Foer. Soube internacionalizar-se
sem perder sua profunda conexão com a cultura local. Mas essa opinião
não é totalmente isenta: o jornalista americano declara-se um apaixonado
torcedor do time espanhol.
| Bola dividida
BRASIL Globalização: o talento dos esportistas
brasileiros é reconhecido mundialmente. Jogadores como Ronaldo e Ronaldinho
Gaúcho viraram grifes internacionais Tribalismo: os times brasileiros
não seguram os bons jogadores porque seguem atrelados a cartolas que administram
os clubes como se fossem seus currais
Thierry Roge/Reuters  |
REINO UNIDO Globalização: como
qualquer grande empresa moderna, os times buscam jogadores de todo o mundo, não
importando de qual raça ou religião Tribalismo: entre
as torcidas, ainda existem mostras de racismo e anti-semitismo, como a saudação
nazista. Na Escócia, a torcida do Rangers, time de tradição
protestante, costuma gritar obscenidades contra o papa
Sergey Supinsky/AFP  |
UCRÂNIA Globalização: os jogadores
africanos estão em moda nos grandes times da Ucrânia, como o Shakhtar
Donetsk. Até mesmo o Karpaty, da gelada cidade de Lviv, contratou nigerianos
Tribalismo: os jogadores locais se ressentem dos salários mais altos
pagos aos africanos. O resultado é um time descoordenado: os ucranianos
não passam a bola para os nigerianos
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