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Saúde
Inimigo íntimo A guerra
contra o HPV aguarda um forte aliado: a vacina que pode evitar 90% das
infecções 
Paula Neiva
A última edição
da revista científica inglesa Lancet Oncology traz uma boa notícia
na luta contra o vírus papiloma humano, o HPV. Os resultados das pesquisas
com uma vacina contra a contaminação pelo HPV são bastante
animadores. Batizada por enquanto de Gardasil, sua taxa de eficácia chega
a 90%. Para se ter uma idéia da importância da vacina, basta dizer
que o HPV ocupa o primeiro lugar no ranking das doenças virais sexualmente
transmissíveis. Suas principais vítimas são as mulheres.
Sete de cada dez são infectadas ao longo da vida. Além disso, ele
está relacionado à quase totalidade de casos de câncer de
colo de útero o segundo tipo de tumor maligno mais comum entre as
brasileiras e o quarto que mais mata. Fabricada pelo laboratório Merck
Sharp & Dohme, a vacina deve chegar ao Brasil em meados de 2006.
O trabalho publicado na Lancet Oncology foi coordenado pela bióloga
brasileira Luisa Lina Villa, do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer,
e contou com a participação de outros dezessete centros de estudos
entre eles a Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e os departamentos
de saúde da Finlândia, Noruega e Suécia. Durante três
anos, os pesquisadores acompanharam quase 1.200 mulheres, de 16 a 23 anos. Elas
eram saudáveis, sexualmente ativas e tinham todas hábitos de vida
semelhantes, inclusive os sexuais. As participantes da pesquisa foram divididas
em quatro grupos. Três foram imunizados com diferentes doses da vacina e
um recebeu placebo. Ao término dos estudos, o número de mulheres
contaminadas pelo HPV foi nove vezes maior no grupo do placebo do que naquele
que recebeu a menor dosagem da vacina. O próximo passo agora é testar
a eficácia da imunização numa quantidade maior de voluntárias
e continuar acompanhando as mulheres já vacinadas para determinar o prazo
de validade da vacina atualmente estimado em quatro anos.
Há uma centena de subtipos de HPV. Quatro, no entanto, são os mais
comuns e perigosos. Dois deles, o 16 e o 18, respondem por 70% dos casos de câncer
de colo de útero. Já o 6 e o 11 estão associados a mais de
90% das ocorrências de verrugas genitais, lesões que podem levar
a disfunções sexuais e até evoluir para um tumor maligno.
É justamente contra essas versões do HPV que a vacina oferece proteção.
Ela é produzida a partir de uma proteína encontrada na superfície
do vírus e sintetizada em laboratório. Injetada no paciente, ela
deflagra a produção pelo organismo de anticorpos específicos
contra o HPV. Na presença de um vírus de verdade, o sistema imunológico
inicia um contra-ataque, impedindo a entrada do microrganismo nas células.
A idéia é a de que a vacina seja administrada antes do início
da vida sexual, para prevenir uma possível contaminação no
futuro. As pessoas sexualmente ativas só se beneficiarão da nova
terapia se não estiverem infectadas. Noventa
por cento das contaminações acontecem por contato sexual com uma
pessoa infectada. Os 10% restantes são transmitidos quando se compartilham
com o portador do vírus roupas íntimas, sabonetes, toalhas de banho
e objetos ginecológicos contaminados, entre outros. O HPV aloja-se preferencialmente
nas regiões genital e anal. "O vírus infecta homens e mulheres,
mas é entre elas que provoca os maiores danos", diz o ginecologista Nelson
Vespa, do Hospital do Câncer, de São Paulo. Acredita-se que a vagina
seja mais suscetível a microlesões durante a relação
sexual, o que facilita a contaminação. Nem todas as mulheres infectadas
desenvolvem problemas. Quando ocorrem, eles geralmente se manifestam na forma
de lesões como verrugas, por exemplo, que podem deflagrar um tumor maligno.
Mesmo quando isso não acontece, a simples existência das lesões
torna as mulheres mais vulneráveis a infecção por outras
doenças sexuais, inclusive a aids. Há dezoito vezes mais possibilidades
de uma pessoa infectada com o HPV ser contaminada também pelo vírus
HIV. Os tratamentos disponíveis atualmente
limitam-se a remover o tecido doente ou a reforçar o sistema imunológico
do paciente (veja quadro).
Esses métodos variam entre cauterização, cirurgia e alguns
medicamentos. A cauterização consiste na queima dessa lesão,
através de ácido, produtos com substâncias cáusticas
(dentre os quais o mais usado é feito à base de podofilotoxina),
laser ou eletrocauterização, com um aparelho elétrico que
produz calor. A outra opção é retirar o tecido doente cirurgicamente.
Isso pode ser feito com o uso de bisturi, laser ou um dispositivo que corta e
cauteriza o tecido por meio de ondas eletromagnéticas de alta freqüência.
As duas estratégias, portanto, eliminam o principal foco de infecção.
A taxa de eficácia delas, no entanto, gira em torno de 50%. Os dois medicamentos
utilizados são cremes à base de imiquimod e 5-FU, aplicados diretamente
sobre a lesão. Eles são bastante eficazes, sobretudo no tratamento
de lesões externas. Uma vacina contra o
HPV é um sonho antigo da medicina. Há pelo menos cinco delas sendo
testadas em vários centros de pesquisa espalhados pelo mundo. A Gardasil,
além de estar em estágio mais avançado, é a única
que oferece proteção contra os quatro principais subtipos do HPV.
"Usada em larga escala, essa vacina promete mudar o curso do câncer de colo
de útero", diz a bióloga Luisa Villa. Enquanto ela não é
aprovada, a melhor arma contra o HPV é o uso de camisinha.
| Os tratamentos contra o HPV
Quais são as terapias disponíveis
contra o vírus e o que promete a vacina CAUTERIZAÇÃO
O que é: as lesões são destruídas com o uso
de laser, ácido, bisturi elétrico ou de produtos à base de
podofilotoxina, uma substância cáustica Eficácia: 50%.
Apesar da retirada do foco principal da infecção, há sempre
o risco de o tecido ao redor também estar contaminado CIRURGIA
O que é: consiste na remoção do tecido doente com
bisturi ou mediante o uso de ondas eletromagnéticas de alta freqüência
Eficácia: 70%. Apesar da retirada do foco principal da infecção,
há sempre o risco de o tecido ao redor também estar contaminado
MEDICAMENTOS O que são: pomadas
à base de imiquimod e 5-FU reforçam o sistema imunológico
do paciente no combate ao HPV Eficácia: 75%. Esse tratamento,
no entanto, é indicado sobretudo nos casos de lesões externas
VACINA O que é: composta por
uma proteína encontrada na superfície do vírus, ela estimula
a produção de anticorpos específicos contra o HPV. Assim,
quando ocorrer o real ataque do vírus, os anticorpos estarão prontos
para impedir a sua entrada nas células. A imunização requer
três doses e seu efeito atualmente é estimado em quatro anos
Eficácia: em 90% dos casos estudados, evitou a infecção
pelos dois subtipos do HPV responsáveis pela maioria das ocorrências
de tumores uterinos Fontes: Luisa
Villa, bióloga do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer;
Nelson Vespa e Ronaldo Costa, ginecologistas do Hospital do Câncer,
em São Paulo | | |