Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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Medicina
A ameaça do novo vírus 

Sete milhões de pessoas mortas:
esse pode ser o saldo terrível de
uma pandemia da gripe do frango


Thereza Venturoli


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os inimigos e nossas defesas

EXCLUSIVO ON-LINE
Perguntas e respostas sobre a gripe do frango

Nas últimas semanas, as organizações mundiais de saúde entraram em alerta laranja. De novo. Desta vez, o "terrorista" é o vírus H5N1, um dos mais terríveis transmissores da gripe do frango para o homem. Segundo os especialistas, esse microrganismo tem potencial para deflagrar uma pandemia cujo saldo estimado poderia vir a ser de até 7 milhões de mortos (e há cálculos que jogam esse número ainda mais para cima). Os cientistas falam em um potencial assassino muito maior que a contabilidade das duas grandes pandemias de gripe do século XX, em 1957 e 1968, que, juntas, mataram 2 milhões de pessoas. O H5N1 já demonstrou sua capacidade mortífera.

Hoang Dinh Nam/AFP
Incineração de aves no Vietnã: desde 1997, 120 milhões de frangos abatidos para frear a gripe


Segundo a Organização Mundial de Saúde, somente entre janeiro de 2004 e o início de abril de 2005 ele fez 79 vítimas no Camboja, Tailândia e Vietnã. Parece pouco, mas a letalidade é uma das maiores já registradas num vírus: a cada dez pessoas contaminadas, apenas quatro sobreviveram. "Tomando por base essa taxa, uma eventual pandemia de gripe do frango seria devastadora", disse a VEJA Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, nos Estados Unidos, e uma das maiores autoridades mundiais na área da epidemiologia. Enquanto isso, a alguns milhares de quilômetros da Ásia, Angola sofre um surto de febre hemorrágica causada pelo Marburg, um vírus semelhante ao Ebola. Apesar de menos letal que seu parente mais famoso, o Marburg já fez 156 mortos desde outubro passado.

Tem-se aí uma má notícia, e outra nem tão ruim assim. A má notícia é que, ao contrário da sars (síndrome respiratória aguda grave), que há dois anos deixou muito menos mortos que seu potencial letal permitia prever, uma pandemia de gripe do frango é uma possibilidade real. O H5N1 é o primeiro vírus que consegue saltar diretamente das galinhas para a espécie humana. Todas as linhagens conhecidas até então precisavam, antes de atacar o homem, passar por um organismo semelhante ao humano – como o do porco. O H5N1 dispensa esse tipo de ponte, e tem também uma incrível habilidade de se remodelar geneticamente, o que lhe permite adaptar-se a diferentes organismos e resistir aos mais agressivos ataques. Não bastasse essa versatilidade, ele pode vir a se transformar num gênio da infecção. "A pior coisa que pode acontecer é o H5N1 se recombinar com um vírus de gripe humano, o que multiplicará sua capacidade de transmissão", diz o epidemiologista Eliseu Alves Waldman, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Há indícios de que o H5N1 já esteja treinando os primeiros passos nesse sentido: suspeita-se que, em alguns casos, o contágio tenha se dado de pessoa para pessoa, e não de ave para ser humano. Se o H5N1 de fato estiver prestes a superar essa limitação, seu campo de batalha deixará de ser os países que apresentam focos de infecção em granjas – todos no Sudeste Asiático – e passará a ser, literalmente, o mundo. A outra notícia, a relativamente boa, refere-se ao Marburg. Apesar da tragédia que vem provocando em Angola, esse vírus é pouco aparelhado para se transmitir em larga escala. O contágio ocorre apenas pelo contato com fluidos corporais, como fezes ou sangue, e não pelo ar, como o vírus da gripe. Além disso, ele não sobrevive no organismo humano por muito tempo. Depois de três ou quatro transmissões, perde a força. Conclusão: ainda que o Marburg seja muito letal, enquanto não sofrer grandes mutações ele estará confinado a algumas regiões da África.

É pela razão inversa que os vírus Influenza, categoria à qual pertence o H5N1, atemorizam os especialistas. Causadores das gripes em geral, esses microrganismos são agilíssimos, com enorme capacidade de transmissão e mutação. São, além disso, muito democráticos. Não respeitam distinção de classe, idade, sexo ou nacionalidade – nem mesmo a prevenção. Na semana passada, o governo americano anunciou que começará neste mês os testes de uma nova vacina contra o H5N1 em 450 voluntários saudáveis. Mas basta que o vírus mude um pouquinho para que o sistema imunológico humano não reconheça mais o invasor e o deixe agir livremente. Ainda que a vacina se prove eficaz, não haverá fôlego para produzi-la na quantidade necessária. Estima-se que todos os laboratórios fabricantes da droga no planeta não consigam imunizar mais do que 450 milhões de pessoas, ou menos de um décimo da humanidade, numa primeira leva. Essa deficiência é crucial porque, hoje, os vírus saltam de um continente a outro em horas, de carona nos passageiros dos jatos. A cardiologista Eve Slater, ex-secretária assistente de Saúde do governo George W. Bush, calcula que, onde quer que uma pandemia de gripe surja, bastam três meses para que ela se espalhe por todo o mundo e seis meses para que o surto atinja o pico. Em contrapartida, continua Slater, o desenvolvimento de uma vacina eficaz levaria de nove a doze meses – sem contar o tempo necessário para a produção em massa.

O saldo deixado por uma doença que foge ao controle é quase sempre catastrófico. No século XIV, a peste negra dizimou um terço da população da Europa com a bactéria Yersinia pestis, transmitida pelas pulgas de roedores. Em 1918, numa Europa já debilitada pela I Guerra, a gripe espanhola cobrou, no espaço de um ano, uma conta macabra de 40 milhões de mortos. Desde os anos 80, a aids matou 20 milhões, e a conta ainda vai subir muito: embora tenha praticamente se tornado uma doença crônica nos países onde prevalecem informação e medicação adequadas, no continente africano a aids mantém seu padrão de epidemia devastadora. O Programa das Nações Unidas para a Aids (Unaids) calcula que 28 milhões de africanos estejam infectados. Até 2025, esse número pode subir para desesperadores 90 milhões. Isso porque os africanos continuam sem acesso a esclarecimento e remédios, e são ainda presa de superstições bizarras, como a que prega que fazer sexo com uma virgem pode eliminar a infecção pelo vírus HIV. O preço de uma epidemia, porém, não é cobrado só em vidas. O governo americano estima que, sem vacinas ou medicamentos eficientes, um surto mediano de gripe resultaria em despesas e prejuízos de até 166 bilhões de dólares para o país. Isso sem contar os 47 milhões de infectados, as 730.000 internações hospitalares e os 207.000 mortos.

Em que pesem tragédias como a africana, o fato é que o impacto das pandemias é cada vez menor. Epidemias mundiais causadas por bactérias, como a peste bubônica, são hoje uma possibilidade remota. Bactérias não sofrem mutações como um vírus, o que permite desenvolver remédios certeiros contra elas. É impossível subestimar também o papel do avanço das ciências médicas e farmacêuticas – bem ilustrado no caso do HIV, cujo ímpeto mortífero foi drasticamente coibido pelos coquetéis de medicamentos. Mas, contra terroristas como o vírus da sars ou o H5N1, a arma mais poderosa tem sido simplesmente a informação, seguida da resposta disciplinada das populações atingidas. Hoje, a Organização Mundial de Saúde mantém interligada uma rede de mais de 110 centros de estudo da gripe que monitoram qualquer sinal suspeito. No geral, basta essa rede gritar "bomba" para que se esteja a meio caminho de desarmá-la.

Veja-se o caso da sars. Há dois anos, o governo chinês manteve em segredo durante três meses inteiros a estranha pneumonia que matava a rodo no interior do país. Foi o tempo para que o vírus se espalhasse por diversas províncias chinesas e escapasse para Hong Kong, a bordo de – ironia – um médico. Dali a doença se alastrou para outros países asiáticos e cruzou o oceano de avião até Toronto, no Canadá. Depois desse fiasco inicial, o que se viu foi um espetáculo de organização e cooperação. Ao primeiro indício do ataque da sars, as autoridades sanitárias do Vietnã, Hong Kong, Cingapura e Canadá isolaram os suspeitos de infecção, a população passou a usar máscara, os locais de grande aglomeração foram fechados e as praças e os parques, desinfetados. Resultado: em vez de a doença fazer milhões de vítimas, seu balanço fechou em 8.000 casos de infecção e 800 mortos. Segundo os Centros para Controle e Prevenção de Doenças, nos Estados Unidos, o último caso de sars de que se tem notícia ocorreu exatamente há um ano, em abril de 2004. Com circunstâncias favoráveis – e muita prontidão – pode ser esse também o destino da gripe do frango.

 

 

Um pesadelo chamado Marburg

As 156 mortes por febre hemorrágica registradas desde outubro em Angola foram causadas não pelo Ebola, mas por um vírus similar, o Marburg. A exemplo de seu parente mais famoso, o Marburg é transmitido por secreções como sangue e fezes. Ele também causa sangramentos, vômitos, diarréia, tosse e icterícia. Sua letalidade, porém, é bem menor que a do Ebola: 25% dos infectados morrem, na grande maioria crianças abaixo dos 5 anos de idade. Os sobreviventes costumam apresentar problemas hepáticos severos pelo resto da vida, entre outras complicações. No primeiro surto registrado de Marburg, em 1967, 31 pessoas foram infectadas em laboratórios da Alemanha e da Sérvia por macacos importados de Uganda. Entre 1998 e 2000, houve outras 128 mortes na República Democrática do Congo por causa do vírus. No geral, porém, ele é mais conhecido por provocar casos esporádicos em países como Quênia, Uganda e Zimbábue.

 

O enigma da aids 

Desirey Minkoh/AFP
Portadora de HIV em zona rural da África do Sul: três quartos dos infectados pela aids no mundo são africanos

O primeiro caso de aids foi registrado em 1959, na República Democrática do Congo, mas foi nos anos 80 que ela começou a se alastrar pelo mundo como pandemia. Desde 1981, quando surgiu o primeiro caso em Los Angeles, 75 milhões de pessoas contraíram o vírus HIV e 20 milhões morreram. O HIV é uma mutação do vírus SIV, que habita o organismo de macacos africanos. Calcula-se que ele tenha saltado para o corpo humano em algum momento entre 1920 e 1940, em populações que caçam chimpanzés como alimento ou os mantêm em cativeiro. Diversos fatores – como a invasão das cidades sobre o hábitat desses animais e a prostituição – dispararam a transmissão do HIV em larga escala. Hoje, quase 40 milhões de pessoas estão infectadas, e a possibilidade de uma vacina eficiente é remota. Mas terapias eficazes e informações sobre o contágio e a prevenção têm empurrado a aids para a lista das doenças crônicas, ao menos entre as populações que têm acesso a esses recursos. No início da pandemia, a expectativa de vida para os portadores do vírus não passava de três meses. Hoje, eles podem viver por mais de dez anos sem desenvolver doenças oportunistas. Na África, onde nada disso vale, a epidemia atinge 28 milhões de pessoas – três quartos do total mundial de infectados.

 
 
 
 
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