Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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Especial papa
A Igreja no vácuo 


Mario Sabino

 
Arturo Mari/AP
Cardeais reunidos na Capela Sistina, para o conclave que elegeu João Paulo II, em 1978: nem larápios nem santos



NESTA REPORTAGEM
Uma eleição de quase
1 000 anos

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Mais sobre os cardeais com chances ser eleitos no mapa interativo

Quando o cardeal camerlengo retirou o anel do pescador da mão de João Paulo II, depois de atestar sua morte, estabeleceu-se oficialmente o vácuo de poder no governo da Igreja Católica. Vácuo que durará até o término do conclave que elegerá o novo papa. Houve um tempo em que esse era um momento perigoso, dado a conspirações e lutas sanguinolentas. "Os conclaves têm uma história tormentosa. Alguns duraram poucas horas; outros, anos. Mas nem sempre a pressa foi boa conselheira. Alguns foram banhados pela luz do Espírito; outros, pela potência do dinheiro. Os atores às vezes foram santos; em outras, para citar Dante Alighieri, uns larápios. Com os primeiros, a eleição do papa foi uma tarefa teológica; com os segundos, simplesmente um negócio", já disse o vaticanólogo italiano Giancarlo Zizola. Ao que se saiba, não há larápios no conclave que começará no dia 18. Mas também não parece haver santos (isso só a Divina Providência sabe). A batalha do conclave é mais limpa do que no passado remoto. Continua, no entanto, a ser árdua. E assim o será até o fim dos tempos, quando, a crer nas Escrituras, Deus vier para julgar os vivos e os mortos. Cardeais, inclusive.  

O Juízo Final é o tema do maior e mais belo afresco pintado por Michelangelo na Capela Sistina, onde se desenrolam os conclaves. Entre os mortais que expiam suas culpas, o artista colocou, como vingança, o papa Júlio II. Na eleição que se avizinha, outro papa poderá ter suas culpas, se não expiadas, postas a nu – João Paulo II, que a multidão aqui fora gostaria de ver transformado instantaneamente em santo. É verdade que, tendo nomeado 114 dos 116 eleitores (número menor do que o previsto, porque houve a defecção do filipino Jaime Sin, por motivo de doença, e descobriu-se que não existia cardeal in pectore nenhum), Karol Wojtyla procurou influir na escolha de seu sucessor. Assim sendo, como a cúpula da Igreja Católica está moldada à sua imagem e semelhança, é razoável supor que o conclave será uma batalha um pouco menos dolorosa do que as anteriores, com um desenlace rápido, em que triunfará um nome que represente a continuidade. Há, contudo, mais duas possibilidades, que nada têm a ver com o que foi dito acima: um conclave breve, sim, mas que signifique uma condenação sumária de muitos aspectos (e personagens) do pontificado anterior. Ou um conclave mais longo, em que os cardeais próximos de João Paulo II encontrarão grande e inesperada resistência para pavimentar o caminho do wojtylismo sem Wojtyla. O formulador de ambas as hipóteses é o vaticanólogo Zizola (veja entrevista). E o significado delas é que a Igreja legada por João Paulo II não seria tão monolítica assim.

O wojtylismo sem Wojtyla foi uma expressão cunhada em meados da década de 90, quando o papa começava a apresentar sinais evidentes de fraqueza física. Os principais propugnadores desse caminho são os italianos Angelo Sodano e Camillo Ruini, o alemão Joseph Ratzinger e o espanhol Eduardo Martínez Somalo. No wojtylismo sem Wojtyla, não importa quem governará a Igreja – o que interessa é que ela continuará no rumo seguido durante o pontificado de João Paulo II, com uma Cúria Romana que manda e desmanda e a manutenção de uma intransigência moral que parecia destinada a virar letra morta quando os ventos liberalizantes do Concílio Vaticano II sopraram, há mais de quarenta anos.

 
Yves Herman/Reuters
Cardeais no funeral de João Paulo II: depois do vendaval, nem sempre vem a bonança

Neste período de vácuo, é natural que os adversários do wojtylismo se sintam mais à vontade para manifestar e tentar fazer valer as suas opiniões (tais são, afinal de contas, a sabedoria e a beleza do conclave). Não lhes pesa sobre a cabeça a guilhotina dos cardeais da Cúria, destituídos que estão dos cargos que ocupavam desde a morte do papa. A palavra de ordem dos cardeais que se opõem à manutenção da atual linha do governo da Igreja é "descentralização". À maioria dos ouvidos curiais, ela soa como heresia, visto que significa retirar do aparato burocrático encastelado no Vaticano o poder de decisão, reservando-lhe apenas um papel executivo. As deliberações, no caso, seriam compartilhadas entre cardeais e bispos, sob o papa, é claro, numa retomada do que apontava o Concílio Vaticano II. Os expoentes da corrente que, no conclave, poderá ter força para defender a descentralização são o belga Godfried Danneels, o italiano Mario Francesco Pompedda, o inglês Cormac Murphy-O'Connor e o português José da Cruz Policarpo.

Essas não são as duas únicas correntes que se digladiarão, no caso de um conclave mais combativo – e sim os pólos opostos mais evidentes. Entre elas, existem tendências matizadas, que mais se aproximam de uma ou de outra, o que antecipa alianças circunstanciais e composições mais sólidas. Um mesmo cardeal, evidentemente, pode fazer parte de duas ou mais tendências afins. O italiano Camillo Ruini, por exemplo, partidário do wojtylismo, está entre aqueles que são por manter o Ocidente como o campo de atuação preferencial da Igreja e os que militam na defesa da tradição. O belga Godfried Danneels, por sua vez, um dos arautos da descentralização, aparece tanto entre os que acreditam que se deve priorizar o diálogo com outras religiões como em meio aos que pensam que é preciso haver uma maior participação dos movimentos leigos. O vaticanólogo italiano Luigi Accattoli, do jornal Corriere della Sera, que também acredita num conclave complicado, construiu um ótimo quadro com as diversas correntes e algumas intersecções, reproduzido na página 80.

As variantes podem ser tantas e muitas vezes tão sutis que até mesmo o Espírito Santo, de quem os cardeais esperam receber inspiração na escolha do papa, deve encontrar dificuldade para localizar o ponto de equilíbrio que resulte na indicação de um nome. Mas há uma constante nessa história complicada, que diz menos respeito a linhas ideológicas e mais a uma questão de personalidade. É o que os vaticanólogos chamam de "lei do pêndulo", válida ao longo do último século. Segundo essa lei, a um papa muito conservador segue-se um menos intransigente; a um papa de personalidade fulgurante sucede outro mais opaco; de um papa mais imperial vai-se para outro mais conciliador. O nome mais antípoda ao de João Paulo II parece ser mesmo o do italiano Dionigi Tettamanzi. Dono de um temperamento afável, ele é capaz de unir as alas moderada e reformista, sem ferir em demasia as suscetibilidades dos mais conservadores. Giancarlo Zizola diz que Tettamanzi teria condição de pacificar os ânimos dentro da Igreja, reduzindo o poder da Cúria e apagando os focos de incêndio que existem entre as diferentes facções. Acredita-se que ele também poderia flexibilizar o trabalho de evangelização, para ganhar ainda mais terreno na África e na Ásia, continentes onde o catolicismo já cresce a taxas impressionantes. Sem maiores solavancos, Tettamanzi seria capaz de fazer com que o wojtylismo morresse aos poucos – não com uma explosão, mas com um suspiro. Se o Espírito Santo quiser que o wojtylismo não sobreviva a Wojtyla, é claro.

 

 

 
 
 
 
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