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Especial papa A
Igreja no vácuo  Mario
Sabino
Arturo
Mari/AP
 | | Cardeais
reunidos na Capela Sistina, para o conclave que elegeu João Paulo II, em 1978:
nem larápios nem santos |
Quando o
cardeal camerlengo retirou o anel do pescador da mão de João Paulo
II, depois de atestar sua morte, estabeleceu-se oficialmente o vácuo de
poder no governo da Igreja Católica. Vácuo que durará até
o término do conclave que elegerá o novo papa. Houve um tempo em
que esse era um momento perigoso, dado a conspirações e lutas sanguinolentas.
"Os conclaves têm uma história tormentosa. Alguns duraram poucas
horas; outros, anos. Mas nem sempre a pressa foi boa conselheira. Alguns foram
banhados pela luz do Espírito; outros, pela potência do dinheiro.
Os atores às vezes foram santos; em outras, para citar Dante Alighieri,
uns larápios. Com os primeiros, a eleição do papa foi uma
tarefa teológica; com os segundos, simplesmente um negócio", já
disse o vaticanólogo italiano Giancarlo Zizola. Ao que se saiba, não
há larápios no conclave que começará no dia 18. Mas
também não parece haver santos (isso só a Divina Providência
sabe). A batalha do conclave é mais limpa do que no passado remoto. Continua,
no entanto, a ser árdua. E assim o será até o fim dos tempos,
quando, a crer nas Escrituras, Deus vier para julgar os vivos e os mortos. Cardeais,
inclusive. O Juízo Final é
o tema do maior e mais belo afresco pintado por Michelangelo na Capela Sistina,
onde se desenrolam os conclaves. Entre os mortais que expiam suas culpas, o artista
colocou, como vingança, o papa Júlio II. Na eleição
que se avizinha, outro papa poderá ter suas culpas, se não expiadas,
postas a nu João Paulo II, que a multidão aqui fora gostaria
de ver transformado instantaneamente em santo. É verdade que, tendo nomeado
114 dos 116 eleitores (número menor do que o previsto, porque houve a defecção
do filipino Jaime Sin, por motivo de doença, e descobriu-se que não
existia cardeal in pectore nenhum), Karol Wojtyla procurou influir na escolha
de seu sucessor. Assim sendo, como a cúpula da Igreja Católica está
moldada à sua imagem e semelhança, é razoável supor
que o conclave será uma batalha um pouco menos dolorosa do que as anteriores,
com um desenlace rápido, em que triunfará um nome que represente
a continuidade. Há, contudo, mais duas possibilidades, que nada têm
a ver com o que foi dito acima: um conclave breve, sim, mas que signifique uma
condenação sumária de muitos aspectos (e personagens) do
pontificado anterior. Ou um conclave mais longo, em que os cardeais próximos
de João Paulo II encontrarão grande e inesperada resistência
para pavimentar o caminho do wojtylismo sem Wojtyla. O formulador de ambas as
hipóteses é o vaticanólogo Zizola (veja
entrevista). E o significado delas é que a Igreja legada por João
Paulo II não seria tão monolítica assim.
O wojtylismo sem Wojtyla foi uma expressão cunhada em meados da década
de 90, quando o papa começava a apresentar sinais evidentes de fraqueza
física. Os principais propugnadores desse caminho são os italianos
Angelo Sodano e Camillo Ruini, o alemão Joseph Ratzinger e o espanhol Eduardo
Martínez Somalo. No wojtylismo sem Wojtyla, não importa quem governará
a Igreja o que interessa é que ela continuará no rumo seguido
durante o pontificado de João Paulo II, com uma Cúria Romana que
manda e desmanda e a manutenção de uma intransigência moral
que parecia destinada a virar letra morta quando os ventos liberalizantes do Concílio
Vaticano II sopraram, há mais de quarenta anos. Yves
Herman/Reuters
 | | Cardeais
no funeral de João Paulo II: depois do vendaval, nem sempre vem a bonança |
Neste período de vácuo, é natural que os adversários
do wojtylismo se sintam mais à vontade para manifestar e tentar fazer valer
as suas opiniões (tais são, afinal de contas, a sabedoria e a beleza
do conclave). Não lhes pesa sobre a cabeça a guilhotina dos cardeais
da Cúria, destituídos que estão dos cargos que ocupavam desde
a morte do papa. A palavra de ordem dos cardeais que se opõem à
manutenção da atual linha do governo da Igreja é "descentralização".
À maioria dos ouvidos curiais, ela soa como heresia, visto que significa
retirar do aparato burocrático encastelado no Vaticano o poder de decisão,
reservando-lhe apenas um papel executivo. As deliberações, no caso,
seriam compartilhadas entre cardeais e bispos, sob o papa, é claro, numa
retomada do que apontava o Concílio Vaticano II. Os expoentes da corrente
que, no conclave, poderá ter força para defender a descentralização
são o belga Godfried Danneels, o italiano Mario Francesco Pompedda, o inglês
Cormac Murphy-O'Connor e o português José da Cruz Policarpo.
Essas não são as duas únicas correntes que se digladiarão,
no caso de um conclave mais combativo e sim os pólos opostos mais
evidentes. Entre elas, existem tendências matizadas, que mais se aproximam
de uma ou de outra, o que antecipa alianças circunstanciais e composições
mais sólidas. Um mesmo cardeal, evidentemente, pode fazer parte de duas
ou mais tendências afins. O italiano Camillo Ruini, por exemplo, partidário
do wojtylismo, está entre aqueles que são por manter o Ocidente
como o campo de atuação preferencial da Igreja e os que militam
na defesa da tradição. O belga Godfried Danneels, por sua vez, um
dos arautos da descentralização, aparece tanto entre os que acreditam
que se deve priorizar o diálogo com outras religiões como em meio
aos que pensam que é preciso haver uma maior participação
dos movimentos leigos. O vaticanólogo italiano Luigi Accattoli, do jornal
Corriere della Sera, que também acredita num conclave complicado,
construiu um ótimo quadro com as diversas correntes e algumas intersecções,
reproduzido na página 80.
As variantes podem ser tantas e muitas vezes tão sutis que até mesmo
o Espírito Santo, de quem os cardeais esperam receber inspiração
na escolha do papa, deve encontrar dificuldade para localizar o ponto de equilíbrio
que resulte na indicação de um nome. Mas há uma constante
nessa história complicada, que diz menos respeito a linhas ideológicas
e mais a uma questão de personalidade. É o que os vaticanólogos
chamam de "lei do pêndulo", válida ao longo do último século.
Segundo essa lei, a um papa muito conservador segue-se um menos intransigente;
a um papa de personalidade fulgurante sucede outro mais opaco; de um papa mais
imperial vai-se para outro mais conciliador. O nome mais antípoda ao de
João Paulo II parece ser mesmo o do italiano Dionigi Tettamanzi. Dono de
um temperamento afável, ele é capaz de unir as alas moderada e reformista,
sem ferir em demasia as suscetibilidades dos mais conservadores. Giancarlo Zizola
diz que Tettamanzi teria condição de pacificar os ânimos dentro
da Igreja, reduzindo o poder da Cúria e apagando os focos de incêndio
que existem entre as diferentes facções. Acredita-se que ele também
poderia flexibilizar o trabalho de evangelização, para ganhar ainda
mais terreno na África e na Ásia, continentes onde o catolicismo
já cresce a taxas impressionantes. Sem maiores solavancos, Tettamanzi seria
capaz de fazer com que o wojtylismo morresse aos poucos não com
uma explosão, mas com um suspiro. Se o Espírito Santo quiser que
o wojtylismo não sobreviva a Wojtyla, é claro. 

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