Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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Especial papa
João Paulo II, o grande,
se despede da vida...


Patrick Hertzog/AFP
A exposição do corpo: o ritual tem mais de 700 anos, mas jamais houve nada parecido com as cenas da semana passada

...nos braços do mundo

Jerry Lampen/Reuters
Sexta-feira 8, a missa fúnebre na Praça de São Pedro: num cenário sublime, a força da mais antiga instituição humana

Em cenas sem precedentes na história, um
oceano de gente, dos mais simples aos mais
poderosos, afluiu a Roma para a comunhão
final com o papa, que foi enterrado sob um
brado unânime: "Santo, santo, santo"


Vilma Gryzinski

 
Luca Bruno/AP
Nas faixas levadas pela última multidão reunida em torno de João Paulo II, o pedido enfático: "Santo, já"



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Descanso eterno

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade:
João Paulo II

Nunca houve um velório, um enterro e o derradeiro adeus como os de João Paulo II – e muitos de nós provavelmente jamais voltaremos a ver algo igual. As prodigiosas cenas que se desenrolaram aos olhos do mundo entre o sábado 2, quando o papa morreu, e a sexta-feira 8, quando seu corpo foi depositado na terra, como pediu, reuniram uma combinação de elementos tão singular que é muito difícil que venha a se repetir. Entre eles: o caráter universal da Igreja que ainda contabiliza em suas fileiras mais de 1 bilhão de almas, a grandeza ímpar do morto, a quantidade sem precedentes de dignitários presentes para as homenagens finais, o cerimonial de enorme solenidade, o cenário sublimemente decorado ao longo dos séculos por alguns dos maiores gênios da arte, a cobertura ininterrupta de todos os meios de comunicação imagináveis (a maior da história, computando-se quase três vezes mais de tudo o que foi escrito sobre o 11 de Setembro). E, sobretudo, a erupção contínua, interminável, espontânea – e incontrolável – de manifestações populares. O oceano de gente que afluiu a Roma não pode ser quantificado exceto em números presumidos, arredondados. Seiscentos mil nos primeiros dias do velório, 1 milhão nos dias seguintes, o mesmo tanto, talvez mais, no enterro. Mesmo os homens do Vaticano que passaram os últimos 26 anos testemunhando de perto o efeito galvanizador de João Paulo II sobre as massas espantaram-se. Os que certamente dedicaram pensamentos respeitosos ao que aconteceria quando da sua morte, tão longamente previsível, viram-se às voltas com o imponderável. "Nada na história se compara a este evento", disse o prefeito de Roma, Walter Veltroni. Da Itália mesmo, da vizinha Espanha, da distante Polônia, tão amada, tão grata, de toda parte veio gente, por toda parte se espalhou. O papa deixou a vida, literalmente, nos braços do mundo e sob os brados emocionados de uma multidão que clamava, sem conseguir parar: "Santo, santo, santo".

O homem que morreu sem deixar nenhum bem material, numa tocante demonstração de fidelidade ao voto de pobreza, foi velado e sepultado cercado de rituais desenvolvidos ao longo de muitos séculos para celebrar a força, a história e o poder espiritual que, se não tem mais a contrapartida temporal, continua a emanar da mais antiga instituição humana. Enterrar os papas no mesmo lugar é uma tradição que começou por volta do ano 150 da era cristã – quando os primeiros bispos de Roma ainda nem se chamavam papas, mas já emergiam como a semente de uma hierarquia que reivindicava a sucessão direta dos apóstolos Pedro e Paulo. Fazê-lo em solenidades que se estendem por nove dias foi um ritual instituído no século XIII por Gregório X, quando o papado vivia uma de suas fases mais tumultuadas, em Avignon, na França. Desde então, o cerimonial se manteve mais ou menos da mesma forma, perdendo apenas os sinais mais ostensivos do tempo em que o papa era também um monarca, como o catafalco de 8 metros que perdurou até o século XIX. Multidões desfilaram diante do corpo de João XXIII, o querido papa camponês levado pelo câncer. Paulo VI pediu o sepultamento na terra, como sinal de humildade agora imitado pelo papa polonês, mas houve também a exposição do corpo, as exéquias grandiosas.

 

Jerry Lampen/Reuters
A cerimônia da missa solene, com 164 cardeais, contrasta com a modéstia do caixão sem adornos: o papa polonês morreu sem deixar nenhum bem terreno

O papado de João Paulo II, porém, durou tanto e sua figura se impôs de tal maneira que mesmo quem viveu o suficiente para ver seus antecessores receber idênticas honras fúnebres parecia estar assistindo a cerimônias sem precedentes. Aos olhos contemporâneos, de fato, as diversas etapas do ritual fúnebre tinham um forte componente de arcaísmo. O corpo longamente exposto em toda a pungência da carne humana já desprovida do sopro da vida, as vestes cerimoniais (a túnica branca; a casula vermelha, cor de luto dos papas, como a usada, em vida, no percurso na Via Crucis; o báculo pastoral; a mitra branca e, no ato final, longe dos olhos do público, o véu de seda colocado sobre o rosto), a procissão pela praça, a interminável visitação à Basílica de São Pedro.

Por fim, a missa fúnebre de três horas, celebrada em latim, pelo mais velho dos 164 cardeais, Joseph Ratzinger, diante do caixão de madeira sem ornamentos – apenas a cruz, o M de Maria, mais o Evangelho aberto. Diante também de mais de 200 delegações estrangeiras, setenta presidentes e primeiros-ministros, quatro reis, cinco rainhas e um muito infeliz príncipe herdeiro (Charles, que precisou adiar o casamento com Camilla, pelo qual espera há mais de trinta anos). Para um papa que fez tantas coisas pela primeira vez em vida, na morte muitos retribuíram. Foi a primeira vez que um presidente americano, George W. Bush, compareceu a um funeral no Vaticano – e ainda levando dois antecessores, Bill Clinton e seu próprio pai. Foi a primeira vez também para o homem que Bush chama de enviado do eixo do mal, Mohamed Khatami, presidente do Irã – e mais espantosamente ainda, foi a primeira vez que um representante da república dos aiatolás falou com um presidente de Israel (Moshe Katsav, judeu iraniano, o que permitiu que as palavras trocadas fossem em persa).  

Mas nenhuma cabeça coroada, nenhum líder de grande potência, nenhum chefe religioso de outras fés – nada teve eloqüência comparável à eletricidade em estado bruto emanada pelas massas que se sucederam para o último adeus. Os "grandes funerais" da era contemporânea têm provocado esse efeito cascata, em que reservas insuspeitas de emoção popular são desatadas pela morte de figuras de grande projeção, realimentadas pela cobertura contínua e transformadas em surpreendentes manifestações. O fenômeno se repete de Ayrton Senna a Yasser Arafat, do aiatolá Khomeini à princesa Diana – o desta, o único enterro comparável, mesmo que remotamente, ao que se viu na semana passada, tanto por sua visibilidade quando viva como pela dimensão das demonstrações de pesar.  

 

Patrick Hertzog/AFP
Sem precedentes: Bush se torna o primeiro presidente americano a ir a um funeral no Vaticano (na foto acima, com Jacques Chirac saudando Condoleezza Rice) e dois inimigos, o israelense Katsav e o iraniano Khatami, conversam
Vincenzo Pinto/AFP

O que movia o infindável mar de gente, a torrente humana que tomou Roma? As respostas podem ser buscadas em muitos escaninhos do comportamento humano. Comoção, fé, respeito, afeto. O sentimento de perda diante de uma figura paterna de dimensões heróicas. Catarse coletiva, um doce entregar-se ao seio da massa. A sensação arrepiante de participar de um momento histórico. Curiosidade, até, por que não? Mas também, num patamar um pouco acima, um difuso desejo de transcendência, de fazer parte de algo maior, de integrar-se a uma experiência espiritual tão distante das realidades cotidianas. Os mesmos sentimentos que, em vida, João Paulo II despertava, com sua celebrada capacidade de arrebatar multidões, foram potencializados em níveis espantosos na sua morte. Não é preciso ser católico, ou crente, ou mesmo simpatizante para constatar que o papa polonês tocava em desvãos normalmente recônditos das emoções do público, despertava manifestações talvez nunca antes percebidas, sentimentos que muitos passam a vida sem deixar aflorar. Muitos pareciam sair melhores, mais purificados, das aglomerações congregadas em torno de João Paulo. Nesse sentido, ele era um verdadeiro portador do carisma, no significado original da palavra, de "força divina" que, conferida a um indivíduo, o dota de liderança excepcional. Morto, foi como se milhares, milhões, quisessem se aproximar, num antigo e inconsciente ritual, para tomar a si um sopro desse dom. A isso se pode chamar de comunhão. Um fim à altura de João Paulo II. Chamado de "o grande" imediatamente depois da morte, foi sepultado ao som de palmas e dos gritos que invocavam um poder superior. "Santo, santo, santo."

 
 
 
 
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