|
|
Especial papa João
Paulo II, o grande, se despede da vida...
Patrick
Hertzog/AFP
 | | A
exposição do corpo: o ritual tem mais de 700 anos, mas jamais houve
nada parecido com as cenas da semana passada |
...nos
braços do mundo
Jerry
Lampen/Reuters
 | | Sexta-feira
8, a missa fúnebre na Praça de São Pedro: num cenário
sublime, a força da mais antiga instituição humana |
Em
cenas sem precedentes na história, um oceano de gente, dos mais simples
aos mais poderosos, afluiu a Roma para a comunhão final com o papa,
que foi enterrado sob um brado unânime: "Santo, santo, santo"
 Vilma
Gryzinski Luca
Bruno/AP
 | | Nas
faixas levadas pela última multidão reunida em torno de João Paulo II, o pedido
enfático: "Santo, já" |
Nunca houve um velório,
um enterro e o derradeiro adeus como os de João Paulo II e muitos
de nós provavelmente jamais voltaremos a ver algo igual. As prodigiosas
cenas que se desenrolaram aos olhos do mundo entre o sábado 2, quando o
papa morreu, e a sexta-feira 8, quando seu corpo foi depositado na terra, como
pediu, reuniram uma combinação de elementos tão singular
que é muito difícil que venha a se repetir. Entre eles: o caráter
universal da Igreja que ainda contabiliza em suas fileiras mais de 1 bilhão
de almas, a grandeza ímpar do morto, a quantidade sem precedentes de dignitários
presentes para as homenagens finais, o cerimonial de enorme solenidade, o cenário
sublimemente decorado ao longo dos séculos por alguns dos maiores gênios
da arte, a cobertura ininterrupta de todos os meios de comunicação
imagináveis (a maior da história, computando-se quase três
vezes mais de tudo o que foi escrito sobre o 11 de Setembro). E, sobretudo, a
erupção contínua, interminável, espontânea
e incontrolável de manifestações populares. O oceano
de gente que afluiu a Roma não pode ser quantificado exceto em números
presumidos, arredondados. Seiscentos mil nos primeiros dias do velório,
1 milhão nos dias seguintes, o mesmo tanto, talvez mais, no enterro. Mesmo
os homens do Vaticano que passaram os últimos 26 anos testemunhando de
perto o efeito galvanizador de João Paulo II sobre as massas espantaram-se.
Os que certamente dedicaram pensamentos respeitosos ao que aconteceria quando
da sua morte, tão longamente previsível, viram-se às voltas
com o imponderável. "Nada na história se compara a este evento",
disse o prefeito de Roma, Walter Veltroni. Da Itália mesmo, da vizinha
Espanha, da distante Polônia, tão amada, tão grata, de toda
parte veio gente, por toda parte se espalhou. O papa deixou a vida, literalmente,
nos braços do mundo e sob os brados emocionados de uma multidão
que clamava, sem conseguir parar: "Santo, santo, santo". O
homem que morreu sem deixar nenhum bem material, numa tocante demonstração
de fidelidade ao voto de pobreza, foi velado e sepultado cercado de rituais desenvolvidos
ao longo de muitos séculos para celebrar a força, a história
e o poder espiritual que, se não tem mais a contrapartida temporal, continua
a emanar da mais antiga instituição humana. Enterrar os papas no
mesmo lugar é uma tradição que começou por volta do
ano 150 da era cristã quando os primeiros bispos de Roma ainda nem
se chamavam papas, mas já emergiam como a semente de uma hierarquia que
reivindicava a sucessão direta dos apóstolos Pedro e Paulo. Fazê-lo
em solenidades que se estendem por nove dias foi um ritual instituído no
século XIII por Gregório X, quando o papado vivia uma de suas fases
mais tumultuadas, em Avignon, na França. Desde então, o cerimonial
se manteve mais ou menos da mesma forma, perdendo apenas os sinais mais ostensivos
do tempo em que o papa era também um monarca, como o catafalco de 8 metros
que perdurou até o século XIX. Multidões desfilaram diante
do corpo de João XXIII, o querido papa camponês levado pelo câncer.
Paulo VI pediu o sepultamento na terra, como sinal de humildade agora imitado
pelo papa polonês, mas houve também a exposição do
corpo, as exéquias grandiosas. Jerry
Lampen/Reuters
 | | A
cerimônia da missa solene, com 164 cardeais, contrasta com a modéstia do caixão
sem adornos: o papa polonês morreu sem deixar nenhum bem terreno |
O papado de João Paulo II, porém, durou tanto
e sua figura se impôs de tal maneira que mesmo quem viveu o suficiente para
ver seus antecessores receber idênticas honras fúnebres parecia estar
assistindo a cerimônias sem precedentes. Aos olhos contemporâneos,
de fato, as diversas etapas do ritual fúnebre tinham um forte componente
de arcaísmo. O corpo longamente exposto em toda a pungência da carne
humana já desprovida do sopro da vida, as vestes cerimoniais (a túnica
branca; a casula vermelha, cor de luto dos papas, como a usada, em vida, no percurso
na Via Crucis; o báculo pastoral; a mitra branca e, no ato final, longe
dos olhos do público, o véu de seda colocado sobre o rosto), a procissão
pela praça, a interminável visitação à Basílica
de São Pedro. Por fim, a missa fúnebre
de três horas, celebrada em latim, pelo mais velho dos 164 cardeais, Joseph
Ratzinger, diante do caixão de madeira sem ornamentos apenas a cruz,
o M de Maria, mais o Evangelho aberto. Diante também de mais de 200 delegações
estrangeiras, setenta presidentes e primeiros-ministros, quatro reis, cinco rainhas
e um muito infeliz príncipe herdeiro (Charles, que precisou adiar o casamento
com Camilla, pelo qual espera há mais de trinta anos). Para um papa que
fez tantas coisas pela primeira vez em vida, na morte muitos retribuíram.
Foi a primeira vez que um presidente americano, George W. Bush, compareceu a um
funeral no Vaticano e ainda levando dois antecessores, Bill Clinton e seu
próprio pai. Foi a primeira vez também para o homem que Bush chama
de enviado do eixo do mal, Mohamed Khatami, presidente do Irã e
mais espantosamente ainda, foi a primeira vez que um representante da república
dos aiatolás falou com um presidente de Israel (Moshe Katsav, judeu iraniano,
o que permitiu que as palavras trocadas fossem em persa). Mas
nenhuma cabeça coroada, nenhum líder de grande potência, nenhum
chefe religioso de outras fés nada teve eloqüência comparável
à eletricidade em estado bruto emanada pelas massas que se sucederam para
o último adeus. Os "grandes funerais" da era contemporânea têm
provocado esse efeito cascata, em que reservas insuspeitas de emoção
popular são desatadas pela morte de figuras de grande projeção,
realimentadas pela cobertura contínua e transformadas em surpreendentes
manifestações. O fenômeno se repete de Ayrton Senna a Yasser
Arafat, do aiatolá Khomeini à princesa Diana o desta, o único
enterro comparável, mesmo que remotamente, ao que se viu na semana passada,
tanto por sua visibilidade quando viva como pela dimensão das demonstrações
de pesar. Patrick
Hertzog/AFP
 | | Sem
precedentes: Bush se torna o primeiro presidente americano a ir a um funeral no
Vaticano (na foto acima, com Jacques Chirac saudando Condoleezza Rice)
e dois inimigos, o israelense Katsav e o iraniano Khatami, conversam | Vincenzo
Pinto/AFP
 |
O que movia o infindável mar de gente, a torrente humana
que tomou Roma? As respostas podem ser buscadas em muitos escaninhos do comportamento
humano. Comoção, fé, respeito, afeto. O sentimento de perda
diante de uma figura paterna de dimensões heróicas. Catarse coletiva,
um doce entregar-se ao seio da massa. A sensação arrepiante de participar
de um momento histórico. Curiosidade, até, por que não? Mas
também, num patamar um pouco acima, um difuso desejo de transcendência,
de fazer parte de algo maior, de integrar-se a uma experiência espiritual
tão distante das realidades cotidianas. Os mesmos sentimentos que, em vida,
João Paulo II despertava, com sua celebrada capacidade de arrebatar multidões,
foram potencializados em níveis espantosos na sua morte. Não é
preciso ser católico, ou crente, ou mesmo simpatizante para constatar que
o papa polonês tocava em desvãos normalmente recônditos das
emoções do público, despertava manifestações
talvez nunca antes percebidas, sentimentos que muitos passam a vida sem deixar
aflorar. Muitos pareciam sair melhores, mais purificados, das aglomerações
congregadas em torno de João Paulo. Nesse sentido, ele era um verdadeiro
portador do carisma, no significado original da palavra, de "força divina"
que, conferida a um indivíduo, o dota de liderança excepcional.
Morto, foi como se milhares, milhões, quisessem se aproximar, num antigo
e inconsciente ritual, para tomar a si um sopro desse dom. A isso se pode chamar
de comunhão. Um fim à altura de João Paulo II. Chamado de
"o grande" imediatamente depois da morte, foi sepultado ao som de palmas e dos
gritos que invocavam um poder superior. "Santo, santo, santo." |