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Vade-mécum
da CPI P.
O que é uma CPI? R. Um Comitê Pra
pegar Idiotas.
P. A
que se destina uma CPI? R. A apurar tudo aquilo que deve ser
apurado, com calma e sem prejulgamento, até o dia do esquecimento.
P. Tratando de corrupção nas altas esferas,
como funciona uma CPI? R. Uma CPI só pode ser iniciada a partir
de proposta de algum legislador de preferência em causa própria
, naturalmente da oposição, que no momento não rouba,
só acusa. P. Então,
se entendemos bem, já deve haver embutido no Congresso um espermatozóide
político pra poder fertilizar o óvulo do Processo. R.
Pois entendeu muito bem. Quando o espermatozóide penetra no óvulo
da suspeita generalizada, dá-se a fecundação da CPI.
P. E como age a CPI, nascida, se me permite
o termo, desse contubérnio? R. Convida, ou intima, conforme
a importância ou suspeita de culpabilidade das pessoas, as pessoas a vir
depor numa comissão. P. Comissão
de quanto? R. Não entendi. P.
Comissão de quantos? R. Quantos quiserem, estiverem disponíveis
ou forem possuídos de forte curiosidade. CPI sem uma multidão em
volta não impressiona ninguém. P.
E se as pessoas intimadas ou convidadas alegarem não poder comparecer a
Brasília porque esta é lá longe e elas não têm
verbas especiais para voar até lá, o que faz a CPI? R.
Intima, sob vara, no caso de desculpas esfarrapadas. P.
E como se verifica se uma desculpa é esfarrapada ou não? R.
Pelo poder dos convocados. As desculpas dos poderosos são sempre bem vestidas
porque dispõem de alfaiates advogados competentes. Os destituídos
desses alfaiates não conseguem esconder seus remendos.
P. Tendo ouvido as pessoas a serem ouvidas, a CPI faz
o que com isso? R. Faz registros, resumo dos depoimentos, ampliação
de outros, cópias em várias vias, vias em várias cópias,
vazamentos, apuração de vazamentos, xeroxes, falsificação
de xeroxes, fofocas, microfilmes, e por aí. Se for necessário acrescenta
fotos, junta fitas gravadas clandestinamente com outras gravadas com permissão
judicial e, de tudo isso, completa um pacote suficientemente grande para impressionar
a Promotoria Pública. P. E
a legislação do país não fica um tanto
abandonada, com tantos parlamentares tratando de um processo
de 100 cabeças e 1 000 pernas mas inteiramente periférico
à função básica do Congresso? R.
Fica. P. Se todas as corrupções
fossem apuradas, haveria parlamentares em número
suficiente para a tarefa? E haveria cadeias especiais pra
colocar os condenados, sempre com diploma de curso superior? R.
Não. P. E isso tudo não
sai mais caro ao país do que a corrupção
propriamente dita? R. Quase sempre. P.
Então não seria mais sábio institucionalizar
a corrupção e botar a honestidade fora da lei? R.
Daria no mesmo. Teríamos que instaurar CPIs para apurar casos de honestidade
acima de qualquer suspeita. Sabe como é a natureza humana.
E, antes que eu me esqueça: as aparências não enganam.
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