|
|
Entrevista: Giancarlo
Zizola
A igreja precisa de oficina
Depois do longo vôo do pontificado de
João Paulo II, os cardeais do conclave
podem concluir que está na hora de o
catolicismo sofrer uma revisão. É o que
diz o principal vaticanólogo italiano

Mario Sabino
|
Francisco Zizola

|
"Na discussão
sobre a herança de João Paulo II deve aparecer
a exigência de reduzir a polarização
entre o internacionalismo visionário do último
papa e a realidade do dia-a-dia da Igreja" |
|
Há mais de quatro décadas,
Giancarlo Zizola, o principal vaticanólogo italiano, acompanha
os assuntos relacionados à cúpula da Igreja Católica.
Zizola, hoje com 68 anos, conheceu quatro papas: João XXIII,
Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II. Ele construiu
análises brilhantes sobre esses pontificados, além
de ter escrito livros que se tornaram referências no mundo
jornalístico e acadêmico. Às vésperas
do conclave que elegerá o sucessor de Karol Wojtyla, marcado
para começar no próximo dia 18, Zizola diz que mais
uma vez os cardeais eleitores aproveitarão a oportunidade
para fazer um balanço sobre o estado geral do catolicismo.
Segundo ele, talvez tenha chegado a hora de o Vaticano ser habitado
por um papa que coloque a Igreja na oficina, para uma revisão
geral, assim como se faz com um avião, depois do alto e prolongado
vôo alçado durante o reinado de João Paulo II.
"O conclave sempre teve a função de reequilibrar o
sistema direcional da Igreja", diz ele. Zizola concedeu por telefone,
de Roma, a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Qual é
a herança positiva de João Paulo II?
Zizola A herança positiva é aquela pela
qual ele não é celebrado como deveria: a sua oposição
ao choque de civilizações, à ideologia da guerra.
A sua defesa dos direitos humanos, do direito à vida. Quanto
a esse aspecto, abriu-se uma contradição no mundo
católico: ele foi muito aplaudido, mas pouco seguido. O papa
sofreu uma grande desilusão ao ver-se isolado em relação
a países de antiga tradição cristã,
como a Itália, a sua Polônia natal e, num primeiro
momento, a Espanha, que mandaram tropas para o Iraque. A maior homenagem
que os governos desses países poderiam prestar ao pontífice
morto seria, em vez de mandar flores a seu funeral, retirar seus
soldados do Iraque. João Paulo II foi o papa da paz.
Veja E qual
é a herança negativa?
Zizola A herança negativa são uma política
doutrinária temerosa do novo e o abandono do caminho da colegialidade
no governo da Igreja previsto pelo Concílio Vaticano II.
A centralização que caracterizou o pontificado de
João Paulo II foi sintetizada na exaltação
da figura do papa, promovida pelos meios de comunicação.
Essa exaltação denota uma figura totalitária,
que está acima da Igreja, e não no seu interior. O
processo de centralização foi responsável pelo
surgimento de uma espécie de bolha especulativa permanente
sobre as intenções de um papa que primou mais pelos
gestos e viagens do que por reformas concretas. João Paulo
II merece um lugar na história pela dimensão internacional
que ele assumiu na defesa da paz, dos direitos humanos, da justiça
e da ética na globalização. Mas, ao mesmo tempo,
ele foi responsável pelo endurecimento doutrinário
e moral dentro da Igreja, pela anemia da produção
intelectual das elites católicas e pela perseguição
a teólogos. A esse propósito, acredito que a condenação
da Teologia da Libertação diz mais respeito ao contexto
político dos anos 80 do que à leitura objetiva do
papel dessa teologia na busca por uma Igreja mais popular.
Veja No Brasil,
alguns bispos andam animados pela possibilidade de que a morte de
João Paulo II leve à ressurreição da
Teologia da Libertação. O senhor acredita que isso
seja possível?
Zizola Na minha opinião, o problema crucial
a ser enfrentado pelo próximo papa e, portanto, pelo
conclave que o elegerá é mais amplo. Trata-se
de achar uma resposta da Igreja às exigências da globalização.
A Igreja encontra-se diante da necessidade de sair do seu berço
europeu, do ponto de vista cultural, político e teológico,
e de levar a mensagem do Evangelho a universos com tradição
religiosa e espiritual diferentes. Nesse quadro de uma nova mediação
entre catolicismo e outras culturas, entra o direito das igrejas
locais de elaborar uma teologia e uma cristologia mais adequadas
às histórias das várias comunidades.
Veja Apesar
do abandono do caminho da colegialidade no governo da Igreja, é
possível dizer que João Paulo II foi um traidor do
Concílio Vaticano II?
Zizola Não creio que seja possível
emitir um veredicto tão simplista, maniqueísta, a
respeito desse ponto. Em alguns aspectos, João Paulo II foi
além do que previa o Concílio Vaticano II. Por exemplo,
no que se refere ao diálogo com outras grandes religiões.
Ele desenvolveu esse diálogo de uma forma muito estruturada,
inclusive do ponto de vista teológico. João Paulo
II também foi além do que se imaginava na superação
do anti-semitismo. No tocante ao ecumenismo, ele avançou
bastante. O documento sobre as igrejas orientais abriu um diálogo
respeitoso com elas, fundado na concepção de ecumenismo
como pluralidade de visões cristãs e no reconhecimento
do valor das tradições litúrgicas, espirituais
e hierárquicas dessas igrejas irmãs.
Veja Mas as
relações com a Igreja Ortodoxa russa não melhoraram.
Zizola Não melhoraram porque a atitude positiva
do papa foi prejudicada por uma abordagem política do assunto
por parte da Santa Sé. A Secretaria de Estado, aproveitando-se
da fragilidade do patriarcado de Moscou, que sofreu muitíssimo
sob o regime comunista, criou dioceses católicas na Rússia
e instituiu uma delas na própria sede ortodoxa. Quebrou,
assim, um princípio que foi mantido até mesmo depois
dos cismas o da unicidade das sedes episcopais. Não
bastasse isso, ocorreu um fenômeno de proselitismo, levado
a cabo por grupos e movimentos católicos que saíram
do controle do Vaticano. Tais grupos, principalmente depois da queda
do Muro de Berlim, quiseram ocupar espaços dos ortodoxos
russos, reivindicando o monopólio do verdadeiro cristianismo.
João Paulo II ainda tentou recuperar o terreno perdido
multiplicou os gestos de amizade, ofereceu encontrar-se com o patriarca
Alexei II fora de Moscou, mas não conseguiu cancelar a desconfiança
de que a Igreja Católica queria impor-se como força
hegemônica.
Veja Além
de prosseguir na concretização dos rumos acertados
no Concílio Vaticano II e de dar conta dos problemas colocados
pela necessária globalização da fé católica,
qual será o papel do novo papa?
Zizola Depois do vôo alçado pela Igreja
durante o papado internacionalista de João Paulo II, talvez
esteja na hora de aterrissar o avião e levá-lo para
o hangar, para submetê-lo a uma bela revisão das asas
e dos motores.
Veja O senhor
dá a entender que o próximo conclave não escapará
da lei do pêndulo que costuma reger as eleições
dos papas ou seja, que depois da estridência gloriosa
de João Paulo II os cardeais optarão por alguém
com uma personalidade mais serena, mais meditativa.
Zizola Sim, o conclave sempre teve a função
de reequilibrar o sistema direcional da Igreja Católica.
Na história do século XX, depois do longo reinado
de Leão XIII, um papa reformador e democrático, os
cardeais elegeram Pio X, um homem intransigente, um conservador.
Pio X, por sua vez, foi sucedido pelo inovador e pacifista Benedito
XV, que lutou para desarmar os católicos que marchavam cegamente
para a I Guerra Mundial. E assim por diante, até o conclave
que fez o papa João XXIII, uma personalidade completamente
oposta à de seu antecessor, Pio XII. Acredito, portanto,
que na discussão sobre a herança do longo pontificado
de Karol Wojtyla aparecerá essa perspectiva a da exigência
de reduzir a polarização entre o internacionalismo
visionário do último papa e a realidade do dia-a-dia
da Igreja.
Veja O senhor
acredita que o próximo conclave será breve ou longo?
Zizola Depende da conclusão a que chegarem
os cardeais. Se eles concordarem que é preciso entrar numa
fase de oficina, para continuar na imagem do avião, e colocar
em circulação os inúmeros dossiês críticos
sobre a atuação da Cúria, o conclave será
breve, durará uma semana, mais ou menos. No entanto, se uma
parte dos cardeais entender que é necessário lutar
até o fim por um wojtylismo sem Wojtyla, então o conclave
será bem longo.
Veja Fala-se
muito da necessidade de reformar a Cúria Romana, o aparato
burocrático encastelado no Vaticano que teria extrapolado
as suas funções. O que seria exatamente essa reforma?
Zizola A reforma da Cúria Romana é muito
simples. Basta trazer os bispos para Roma e aplicar a doutrina da
colegialidade no governo da Igreja dos bispos com o papa
e sob o papa. Ou seja, dar aos sínodos poderes deliberativos
e também devolver às conferências episcopais
aquilo que lhes foi roubado: força de decisão. Isso
faria com que a Cúria Romana voltasse a ser apenas um braço
executivo do governo da Igreja governo, não nos esqueçamos,
que é fundado sobre o papa e os sucessores dos apóstolos,
os bispos. A colegialidade foi um princípio surgido no Concílio
Vaticano II que visava a introduzir equilíbrio dentro do
sistema de monarquia absolutista pontifícia, estabelecido
pelo Concílio Vaticano I no século XIX, quando se
afirmaram o primado e a infalibilidade papais. Creio que mesmo os
bispos e cardeais conservadores já constataram que é
dramática a situação de um papa que tem de
carregar nas costas o governo de 1,1 bilhão de fiéis
espalhados pelo mundo um papa que é, ao mesmo tempo,
líder religioso, espiritual e político num contexto
global. Para cumprir suas tarefas, o papa precisa de ajuda
e João Paulo II reconheceu esse fato, quando, em 1995, na
encíclica Ut Unum Sint, se referiu à reforma
do papado.
Veja Não
será difícil para o próximo papa sair da sombra
de João Paulo II, um líder dotado de grande carisma
e que morreu gloriosamente?
Zizola Todo papa tem o seu próprio carisma.
João XXIII, o "papa bom", tinha um grande carisma e não
precisou sair muito de Roma para exercê-lo. O seu carisma
era o da misericórdia, o da não-exclusão, manifestava-se
sem interdições nem excomunhões. A Igreja que
ele personificava estava mais próxima dos Evangelhos do que
de uma ideologia. Paulo VI, um homem da máquina curial, tinha
o carisma da inteligência. João Paulo II possuía
o carisma da comunicação não demagógica,
mas que acompanhava uma visão utópica da humanidade.
Imagino que o próximo papa terá um carisma de tipo
diferente do de Wojtyla. Nem por isso ele será menos eficaz,
menos exemplar.
Veja A imprensa
não se cansa de repetir o ditado que diz que "quem entra
papa no conclave sai cardeal". Mas é muito provável
que o próximo papa seja um italiano, não?
Zizola Bem, é preciso considerar o fato
de que um vaticanólogo não é um adivinho. E
que hoje, com tantas variantes possíveis, se tornou ainda
mais difícil acertar na "loteria do papa". O que posso responder
é que, depois de um pontificado de mais de 26 anos, as categorias
analíticas dos conclaves precedentes envelheceram. O critério
papa italiano/papa estrangeiro não é mais atual. É
um equívoco pensar que escolher um candidato de fora da Itália
signifique reforma, inovação, e que optar por um italiano
seja sinônimo de conservadorismo. Aliás, esse foi um
dos erros do Concílio Vaticano II: acreditar que a internacionalização
da Cúria resolveria o problema da Cúria. Foram cardeais
latino-americanos, alemães e também franceses que,
uma vez instalados em Roma, fizeram com que as reformas voltassem
para trás. Quando João Paulo II já estava muito
doente, forçaram-no a assinar o documento sobre a Eucaristia
elaborado pela Congregação para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos, então presidida pelo cardeal
chileno Jorge Medina um documento que representou um retrocesso
assustador em relação às determinações
litúrgicas do Concílio Vaticano II. Pegaram a sua
mão e o forçaram! Enfim, é verdade que há
muitos papáveis entre os cardeais italianos, e das mais diversas
tendências, mas é preciso levar em conta que, atualmente,
no colégio eleitoral, 52 países estão representados
em 1958, quando foi eleito João XXIII, esse número
era de apenas 22. Pela primeira vez na história, a Europa
não tem maioria absoluta no colégio dos cardeais eleitores.
Em 1978, quando foi eleito João Paulo II, os europeus eram
mais da metade dos participantes do conclave. Nesse contexto, pode
ser que os cardeais decidam fazer um papa italiano, caso cheguem
à conclusão de que a Igreja precisa ir para a oficina
(eu ainda estou na metáfora do avião). Mas, se assim
não for, tudo leva a crer que o novo papa virá de
fora da Europa. Seria uma revolução.
Veja As chances
de o novo papa ser um brasileiro, então, são boas.
Zizola Ou um indiano, um argentino, um hondurenho.
De qualquer maneira, o novo papa dificilmente será proveniente
de um país poderoso, para evitar que haja coincidência
entre o papado e uma potência política, econômica
e militar. É improvável, por isso, que haja um pontífice
americano ou alemão. Se o conclave eleger um papa não
europeu, isso representará o encontro do Evangelho com culturas
e tradições espirituais de outros continentes
especialmente do asiático. É na Ásia que passará
o eixo econômico, político, tecnológico e demográfico
do mundo, e o grande desafio do catolicismo está em fincar
raízes mais profundas por lá. Se os católicos
são uma gota naquele oceano, isso se deve às falências
das missões. Mas, desde que a Igreja se libertou do compromisso
com as potências coloniais, as pequenas comunidades católicas
na Ásia vêm alcançando uma altíssima
taxa de crescimento anual, da ordem de 108%. Nessa trilha, o que
também está em jogo no próximo conclave é
liberar o cristianismo da cristandade.
Veja O que significa
liberar o cristianismo da cristandade?
Zizola Significa desatá-lo dos regimes de cristandade
nos quais a religião cresce apenas vegetativamente,
protegida por uma rede social e estatal. A assimetria entre cristianismo
e cristandade revela-se na discrepância entre pessoas que
se dizem católicas, mas não vão à missa,
nem se casam na Igreja ou batizam seus filhos. O cristianismo não
poderá existir no futuro como religião de sociedade,
e sim como religião de testemunho.
|