Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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Entrevista: Giancarlo Zizola
A igreja precisa de oficina

Depois do longo vôo do pontificado de
João Paulo II, os cardeais do conclave
podem concluir que está na hora de o
catolicismo sofrer uma revisão. É o que
diz o principal vaticanólogo italiano


Mario Sabino

 

Francisco Zizola

"Na discussão sobre a herança de João Paulo II deve aparecer a exigência de reduzir a polarização entre o internacionalismo visionário do último papa e a realidade do dia-a-dia da Igreja"

Há mais de quatro décadas, Giancarlo Zizola, o principal vaticanólogo italiano, acompanha os assuntos relacionados à cúpula da Igreja Católica. Zizola, hoje com 68 anos, conheceu quatro papas: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II. Ele construiu análises brilhantes sobre esses pontificados, além de ter escrito livros que se tornaram referências no mundo jornalístico e acadêmico. Às vésperas do conclave que elegerá o sucessor de Karol Wojtyla, marcado para começar no próximo dia 18, Zizola diz que mais uma vez os cardeais eleitores aproveitarão a oportunidade para fazer um balanço sobre o estado geral do catolicismo. Segundo ele, talvez tenha chegado a hora de o Vaticano ser habitado por um papa que coloque a Igreja na oficina, para uma revisão geral, assim como se faz com um avião, depois do alto e prolongado vôo alçado durante o reinado de João Paulo II. "O conclave sempre teve a função de reequilibrar o sistema direcional da Igreja", diz ele. Zizola concedeu por telefone, de Roma, a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Qual é a herança positiva de João Paulo II?
Zizola – A herança positiva é aquela pela qual ele não é celebrado como deveria: a sua oposição ao choque de civilizações, à ideologia da guerra. A sua defesa dos direitos humanos, do direito à vida. Quanto a esse aspecto, abriu-se uma contradição no mundo católico: ele foi muito aplaudido, mas pouco seguido. O papa sofreu uma grande desilusão ao ver-se isolado em relação a países de antiga tradição cristã, como a Itália, a sua Polônia natal e, num primeiro momento, a Espanha, que mandaram tropas para o Iraque. A maior homenagem que os governos desses países poderiam prestar ao pontífice morto seria, em vez de mandar flores a seu funeral, retirar seus soldados do Iraque. João Paulo II foi o papa da paz.

Veja – E qual é a herança negativa?
Zizola – A herança negativa são uma política doutrinária temerosa do novo e o abandono do caminho da colegialidade no governo da Igreja previsto pelo Concílio Vaticano II. A centralização que caracterizou o pontificado de João Paulo II foi sintetizada na exaltação da figura do papa, promovida pelos meios de comunicação. Essa exaltação denota uma figura totalitária, que está acima da Igreja, e não no seu interior. O processo de centralização foi responsável pelo surgimento de uma espécie de bolha especulativa permanente sobre as intenções de um papa que primou mais pelos gestos e viagens do que por reformas concretas. João Paulo II merece um lugar na história pela dimensão internacional que ele assumiu na defesa da paz, dos direitos humanos, da justiça e da ética na globalização. Mas, ao mesmo tempo, ele foi responsável pelo endurecimento doutrinário e moral dentro da Igreja, pela anemia da produção intelectual das elites católicas e pela perseguição a teólogos. A esse propósito, acredito que a condenação da Teologia da Libertação diz mais respeito ao contexto político dos anos 80 do que à leitura objetiva do papel dessa teologia na busca por uma Igreja mais popular.

Veja – No Brasil, alguns bispos andam animados pela possibilidade de que a morte de João Paulo II leve à ressurreição da Teologia da Libertação. O senhor acredita que isso seja possível?
Zizola – Na minha opinião, o problema crucial a ser enfrentado pelo próximo papa – e, portanto, pelo conclave que o elegerá – é mais amplo. Trata-se de achar uma resposta da Igreja às exigências da globalização. A Igreja encontra-se diante da necessidade de sair do seu berço europeu, do ponto de vista cultural, político e teológico, e de levar a mensagem do Evangelho a universos com tradição religiosa e espiritual diferentes. Nesse quadro de uma nova mediação entre catolicismo e outras culturas, entra o direito das igrejas locais de elaborar uma teologia e uma cristologia mais adequadas às histórias das várias comunidades.

Veja – Apesar do abandono do caminho da colegialidade no governo da Igreja, é possível dizer que João Paulo II foi um traidor do Concílio Vaticano II?
Zizola – Não creio que seja possível emitir um veredicto tão simplista, maniqueísta, a respeito desse ponto. Em alguns aspectos, João Paulo II foi além do que previa o Concílio Vaticano II. Por exemplo, no que se refere ao diálogo com outras grandes religiões. Ele desenvolveu esse diálogo de uma forma muito estruturada, inclusive do ponto de vista teológico. João Paulo II também foi além do que se imaginava na superação do anti-semitismo. No tocante ao ecumenismo, ele avançou bastante. O documento sobre as igrejas orientais abriu um diálogo respeitoso com elas, fundado na concepção de ecumenismo como pluralidade de visões cristãs e no reconhecimento do valor das tradições litúrgicas, espirituais e hierárquicas dessas igrejas irmãs.

Veja – Mas as relações com a Igreja Ortodoxa russa não melhoraram.
Zizola – Não melhoraram porque a atitude positiva do papa foi prejudicada por uma abordagem política do assunto por parte da Santa Sé. A Secretaria de Estado, aproveitando-se da fragilidade do patriarcado de Moscou, que sofreu muitíssimo sob o regime comunista, criou dioceses católicas na Rússia e instituiu uma delas na própria sede ortodoxa. Quebrou, assim, um princípio que foi mantido até mesmo depois dos cismas – o da unicidade das sedes episcopais. Não bastasse isso, ocorreu um fenômeno de proselitismo, levado a cabo por grupos e movimentos católicos que saíram do controle do Vaticano. Tais grupos, principalmente depois da queda do Muro de Berlim, quiseram ocupar espaços dos ortodoxos russos, reivindicando o monopólio do verdadeiro cristianismo. João Paulo II ainda tentou recuperar o terreno perdido – multiplicou os gestos de amizade, ofereceu encontrar-se com o patriarca Alexei II fora de Moscou, mas não conseguiu cancelar a desconfiança de que a Igreja Católica queria impor-se como força hegemônica.

Veja – Além de prosseguir na concretização dos rumos acertados no Concílio Vaticano II e de dar conta dos problemas colocados pela necessária globalização da fé católica, qual será o papel do novo papa?
Zizola – Depois do vôo alçado pela Igreja durante o papado internacionalista de João Paulo II, talvez esteja na hora de aterrissar o avião e levá-lo para o hangar, para submetê-lo a uma bela revisão das asas e dos motores.

Veja – O senhor dá a entender que o próximo conclave não escapará da lei do pêndulo que costuma reger as eleições dos papas – ou seja, que depois da estridência gloriosa de João Paulo II os cardeais optarão por alguém com uma personalidade mais serena, mais meditativa.
Zizola – Sim, o conclave sempre teve a função de reequilibrar o sistema direcional da Igreja Católica. Na história do século XX, depois do longo reinado de Leão XIII, um papa reformador e democrático, os cardeais elegeram Pio X, um homem intransigente, um conservador. Pio X, por sua vez, foi sucedido pelo inovador e pacifista Benedito XV, que lutou para desarmar os católicos que marchavam cegamente para a I Guerra Mundial. E assim por diante, até o conclave que fez o papa João XXIII, uma personalidade completamente oposta à de seu antecessor, Pio XII. Acredito, portanto, que na discussão sobre a herança do longo pontificado de Karol Wojtyla aparecerá essa perspectiva – a da exigência de reduzir a polarização entre o internacionalismo visionário do último papa e a realidade do dia-a-dia da Igreja.

Veja – O senhor acredita que o próximo conclave será breve ou longo?
Zizola – Depende da conclusão a que chegarem os cardeais. Se eles concordarem que é preciso entrar numa fase de oficina, para continuar na imagem do avião, e colocar em circulação os inúmeros dossiês críticos sobre a atuação da Cúria, o conclave será breve, durará uma semana, mais ou menos. No entanto, se uma parte dos cardeais entender que é necessário lutar até o fim por um wojtylismo sem Wojtyla, então o conclave será bem longo.

Veja – Fala-se muito da necessidade de reformar a Cúria Romana, o aparato burocrático encastelado no Vaticano que teria extrapolado as suas funções. O que seria exatamente essa reforma?
Zizola – A reforma da Cúria Romana é muito simples. Basta trazer os bispos para Roma e aplicar a doutrina da colegialidade no governo da Igreja – dos bispos com o papa e sob o papa. Ou seja, dar aos sínodos poderes deliberativos e também devolver às conferências episcopais aquilo que lhes foi roubado: força de decisão. Isso faria com que a Cúria Romana voltasse a ser apenas um braço executivo do governo da Igreja – governo, não nos esqueçamos, que é fundado sobre o papa e os sucessores dos apóstolos, os bispos. A colegialidade foi um princípio surgido no Concílio Vaticano II que visava a introduzir equilíbrio dentro do sistema de monarquia absolutista pontifícia, estabelecido pelo Concílio Vaticano I no século XIX, quando se afirmaram o primado e a infalibilidade papais. Creio que mesmo os bispos e cardeais conservadores já constataram que é dramática a situação de um papa que tem de carregar nas costas o governo de 1,1 bilhão de fiéis espalhados pelo mundo – um papa que é, ao mesmo tempo, líder religioso, espiritual e político num contexto global. Para cumprir suas tarefas, o papa precisa de ajuda – e João Paulo II reconheceu esse fato, quando, em 1995, na encíclica Ut Unum Sint, se referiu à reforma do papado.

Veja – Não será difícil para o próximo papa sair da sombra de João Paulo II, um líder dotado de grande carisma e que morreu gloriosamente?
Zizola – Todo papa tem o seu próprio carisma. João XXIII, o "papa bom", tinha um grande carisma e não precisou sair muito de Roma para exercê-lo. O seu carisma era o da misericórdia, o da não-exclusão, manifestava-se sem interdições nem excomunhões. A Igreja que ele personificava estava mais próxima dos Evangelhos do que de uma ideologia. Paulo VI, um homem da máquina curial, tinha o carisma da inteligência. João Paulo II possuía o carisma da comunicação – não demagógica, mas que acompanhava uma visão utópica da humanidade. Imagino que o próximo papa terá um carisma de tipo diferente do de Wojtyla. Nem por isso ele será menos eficaz, menos exemplar.

Veja – A imprensa não se cansa de repetir o ditado que diz que "quem entra papa no conclave sai cardeal". Mas é muito provável que o próximo papa seja um italiano, não?
Zizola – Bem, é preciso considerar o fato de que um vaticanólogo não é um adivinho. E que hoje, com tantas variantes possíveis, se tornou ainda mais difícil acertar na "loteria do papa". O que posso responder é que, depois de um pontificado de mais de 26 anos, as categorias analíticas dos conclaves precedentes envelheceram. O critério papa italiano/papa estrangeiro não é mais atual. É um equívoco pensar que escolher um candidato de fora da Itália signifique reforma, inovação, e que optar por um italiano seja sinônimo de conservadorismo. Aliás, esse foi um dos erros do Concílio Vaticano II: acreditar que a internacionalização da Cúria resolveria o problema da Cúria. Foram cardeais latino-americanos, alemães e também franceses que, uma vez instalados em Roma, fizeram com que as reformas voltassem para trás. Quando João Paulo II já estava muito doente, forçaram-no a assinar o documento sobre a Eucaristia elaborado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, então presidida pelo cardeal chileno Jorge Medina – um documento que representou um retrocesso assustador em relação às determinações litúrgicas do Concílio Vaticano II. Pegaram a sua mão e o forçaram! Enfim, é verdade que há muitos papáveis entre os cardeais italianos, e das mais diversas tendências, mas é preciso levar em conta que, atualmente, no colégio eleitoral, 52 países estão representados – em 1958, quando foi eleito João XXIII, esse número era de apenas 22. Pela primeira vez na história, a Europa não tem maioria absoluta no colégio dos cardeais eleitores. Em 1978, quando foi eleito João Paulo II, os europeus eram mais da metade dos participantes do conclave. Nesse contexto, pode ser que os cardeais decidam fazer um papa italiano, caso cheguem à conclusão de que a Igreja precisa ir para a oficina (eu ainda estou na metáfora do avião). Mas, se assim não for, tudo leva a crer que o novo papa virá de fora da Europa. Seria uma revolução.

Veja – As chances de o novo papa ser um brasileiro, então, são boas.
Zizola – Ou um indiano, um argentino, um hondurenho. De qualquer maneira, o novo papa dificilmente será proveniente de um país poderoso, para evitar que haja coincidência entre o papado e uma potência política, econômica e militar. É improvável, por isso, que haja um pontífice americano ou alemão. Se o conclave eleger um papa não europeu, isso representará o encontro do Evangelho com culturas e tradições espirituais de outros continentes – especialmente do asiático. É na Ásia que passará o eixo econômico, político, tecnológico e demográfico do mundo, e o grande desafio do catolicismo está em fincar raízes mais profundas por lá. Se os católicos são uma gota naquele oceano, isso se deve às falências das missões. Mas, desde que a Igreja se libertou do compromisso com as potências coloniais, as pequenas comunidades católicas na Ásia vêm alcançando uma altíssima taxa de crescimento anual, da ordem de 108%. Nessa trilha, o que também está em jogo no próximo conclave é liberar o cristianismo da cristandade.

Veja – O que significa liberar o cristianismo da cristandade?
Zizola – Significa desatá-lo dos regimes de cristandade – nos quais a religião cresce apenas vegetativamente, protegida por uma rede social e estatal. A assimetria entre cristianismo e cristandade revela-se na discrepância entre pessoas que se dizem católicas, mas não vão à missa, nem se casam na Igreja ou batizam seus filhos. O cristianismo não poderá existir no futuro como religião de sociedade, e sim como religião de testemunho.

 

 
 
 
 
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