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André
Petry
Um papa brasileiro? Não!
"Um papa brasileiro impediria os
avanços morais e
éticos dos quais
o Brasil tanto necessita"
O ideal é que o novo papa não
seja brasileiro. Seria ruim para o Brasil. Nos últimos tempos,
a duras penas, a sociedade brasileira tem conseguido alguns avanços
relevantes. As pesquisas com células-tronco embrionárias,
ainda que de forma bastante limitada, foram aprovadas. As pílulas
do dia seguinte são distribuídas nos postos de saúde
da rede pública. As mulheres vítimas de estupro estão
pelo menos até agora autorizadas a ir direto
a um hospital em busca do aborto sem ter de passar antes na delegacia
para pegar um boletim de ocorrência. O aborto de fetos sem
cérebro está para ser julgado pelo Supremo Tribunal
Federal e tem chance de ser aprovado. Tudo isso são avanços
importantes, especialmente no Brasil, o maior país católico
do mundo. Afinal, ninguém desconhece que a Igreja Católica,
pelo menos essa que esteve longos anos sob o comando de João
Paulo II, tem cerrado fileiras contra tudo isso.
Um papa brasileiro teria uma ascendência
imensa sobre a sociedade brasileira e, portanto, mais condições
de impedir que esses avanços se consolidem e, sobretudo,
de impedir que novos avanços éticos e morais sejam
atingidos, como a aprovação da união civil
entre pessoas do mesmo sexo, outra matéria contra a qual
a Igreja Católica milita.
Dom Cláudio Hummes, o arcebispo de
São Paulo, é o brasileiro mais cotado para ser o novo
papa. Ele tem biografia impecável. Não é autoritário
nem centralizador como João Paulo II. Tampouco arrasta a
batina para a Opus Dei, a mais reacionária organização
católica, a qual João Paulo II cumulou de mimos e
poderes. Dom Cláudio Hummes, se tivesse assumido no lugar
de João Paulo II, lá no fim dos anos 70, com certeza
teria feito um papado diferente, arejado, participativo. Mas assumir
agora é outra coisa. A Igreja Católica é uma
instituição sólida, milenar, vetusta. Não
dá guinadas ideológicas, como se fosse um diretório
estudantil. Dom Cláudio Hummes não poderia
não no tempo de um papado apenas imprimir as mudanças
radicais tão necessárias para que a Igreja Católica
se modernize. Forçosamente, teria de manter grande parte
da visão conservadora do antecessor. E nós, brasileiros,
seríamos as vítimas preferenciais desse atraso esmagador.
Não merecemos isso.
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