Edição 1900 . 13 de abril de 2005

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André Petry
Um papa brasileiro? Não!

"Um papa brasileiro impediria os
avanços
morais e éticos dos quais
o Brasil tanto necessita"

O ideal é que o novo papa não seja brasileiro. Seria ruim para o Brasil. Nos últimos tempos, a duras penas, a sociedade brasileira tem conseguido alguns avanços relevantes. As pesquisas com células-tronco embrionárias, ainda que de forma bastante limitada, foram aprovadas. As pílulas do dia seguinte são distribuídas nos postos de saúde da rede pública. As mulheres vítimas de estupro estão – pelo menos até agora – autorizadas a ir direto a um hospital em busca do aborto sem ter de passar antes na delegacia para pegar um boletim de ocorrência. O aborto de fetos sem cérebro está para ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal e tem chance de ser aprovado. Tudo isso são avanços importantes, especialmente no Brasil, o maior país católico do mundo. Afinal, ninguém desconhece que a Igreja Católica, pelo menos essa que esteve longos anos sob o comando de João Paulo II, tem cerrado fileiras contra tudo isso.

Um papa brasileiro teria uma ascendência imensa sobre a sociedade brasileira e, portanto, mais condições de impedir que esses avanços se consolidem – e, sobretudo, de impedir que novos avanços éticos e morais sejam atingidos, como a aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo, outra matéria contra a qual a Igreja Católica milita.

Dom Cláudio Hummes, o arcebispo de São Paulo, é o brasileiro mais cotado para ser o novo papa. Ele tem biografia impecável. Não é autoritário nem centralizador como João Paulo II. Tampouco arrasta a batina para a Opus Dei, a mais reacionária organização católica, a qual João Paulo II cumulou de mimos e poderes. Dom Cláudio Hummes, se tivesse assumido no lugar de João Paulo II, lá no fim dos anos 70, com certeza teria feito um papado diferente, arejado, participativo. Mas assumir agora é outra coisa. A Igreja Católica é uma instituição sólida, milenar, vetusta. Não dá guinadas ideológicas, como se fosse um diretório estudantil. Dom Cláudio Hummes não poderia – não no tempo de um papado apenas – imprimir as mudanças radicais tão necessárias para que a Igreja Católica se modernize. Forçosamente, teria de manter grande parte da visão conservadora do antecessor. E nós, brasileiros, seríamos as vítimas preferenciais desse atraso esmagador. Não merecemos isso.

 
 
 
 
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