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Edição 1 742 - 13 de março de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Lugar de estadista
é na favela

Antes, chefes de Estado em visita
ao
Rio eram levados ao Jóquei.
Hoje,
são levados ao morro

Nas solenidades reais, em Londres, o príncipe Charles está acostumado a andar em lindas carruagens, símbolos sobre rodas de um estilo e uma altivez que desafiam o tempo. Quando se está nelas, até mesmo a insistência dos cavalos em levantar o rabo e fazer o que os cavalos fazem quando levantam o rabo soa a precioso toque de requinte. Na segunda-feira passada, Charles teve de ir a pé mesmo. Em visita ao Rio de Janeiro, pôs as reais pernas em funcionamento e, mesmo sob calor de 30 e tantos graus, galgou 200 metros de íngreme subida, Morro do Cantagalo acima. Estava em curso o programa que, nestes últimos anos, se tornou obrigatório para chefes de Estado ou assemelhados em visita ao Rio de Janeiro, e quanto mais ilustre o chefe de Estado mais obrigatório: a visita à favela.

"No meu tempo", costuma dizer um veterano diplomata brasileiro, "levava-se o visitante ao Jóquei Clube. Hoje, leva-se à favela". Ninguém escapa. O ex-presidente americano Bill Clinton, o leitor deve se lembrar, esteve na Mangueira. Talvez, dado o prestígio decrescente do Jóquei Clube, não fosse o caso de levá-lo lá. Bem pesadas as coisas, o charme da Mangueira supera de longe o do Jóquei, nos dias que correm. Mesmo assim, é de perguntar se não se teria ido longe demais, ao substituir os salões pela favela. Será que não se passou de um extremo a outro? Sobretudo, será que não se substituiu uma fantasia por outra – a fantasia de um país que se mostrava emperiquitado de luxo e riqueza, como no tempo das recepções no Jóquei, pela de um país que se quer democrático, com pobres, sim, mas que não tem medo deles, está empenhado em melhorar-lhes a vida, e tanto é assim que não tem vergonha de mostrá-los aos estrangeiros?

A moda de levar visitantes à favela começou, salvo engano, no primeiro governo de Leonel Brizola no Rio. Ponto alto, na época, foi a ida do presidente francês François Mitterrand, em 1985, ao mesmo Morro do Cantagalo agora visitado por Charles. Logo que Mitterrand chegou ao morro, ouviu-se um estrondo. O francês ficou lívido. Houve princípio de pânico, e os seguranças chegaram a apalpar as armas. A calma só voltou, segundo VEJA registrou na época, quando um morador da favela gritou: "Ei, macacada, foi só um foguete". No caso de Charles, o susto foi na véspera. Um tiroteio na favela, ou nas proximidades, deixou o saldo de um suposto traficante morto. Logo numa favela considerada modelo de uma nova política de segurança e que havia um ano não registrava ocorrências desse tipo... Chegou-se a cogitar de cancelar a visita do príncipe. Policiais brasileiros e funcionários britânicos correram ao local, para avaliar a situação. Afinal se manteve a visita, mas ao custo de uma operação de segurança de larga envergadura, envolvendo quase 200 policiais.

Depois, ainda havia o medo da dengue. Charles, quando sai pelas ruas de Londres, costuma ser precedido por garbosos cavaleiros, metidos em fardas de secular esplendor, e montados em animais de insuperável garbo. Na subida do morro, foi precedido de quê? Do fumacê! O carrinho que espalha fumaça para matar mosquito. Com o príncipe e demais membros da comitiva sempre de terno, com os braços bem cobertos, apesar do calor, assim como as pernas, o pescoço e tudo o mais que se pudesse cobrir, para não dar chance ao Aedes aegypti, e mais um mar de policiais cujo número rivalizava com o dos moradores que se dispuseram a recepcionar o visitante, assim transcorreu o programa. Tudo tão natural! Tão espontâneo e à vontade! Tão natural e espontâneo que a segurança houve por bem abreviar a visita em vinte minutos.

Quando se começou a induzir os visitantes a fazer o que os próprios cariocas que vivem no asfalto não fazem, que é subir ao morro, até se compreendia. Viviam-se os primeiros anos pós-regime militar, pairava uma euforia democrática no ar e vá lá: com boa vontade, podia-se interpretar a novidade como parte do projeto de reencontro do país consigo mesmo. Hoje, somados os interesses dos visitantes estrangeiros aos dos anfitriões brasileiros, o resultado é uma dupla e grossa demagogia. Os visitantes conseguem cenas de televisão que, mostradas em casa, revelarão como representam bem o seu país, sempre tão atenciosos aos carentes quanto indiferentes ao conforto pessoal. Como são bonzinhos! Por extensão, como é bonzinho o seu país! Os anfitriões transmitem aos estrangeiros a idéia de que não são tão cruéis como se apregoa com os escanteados desta vida (o termo futebolístico é mais aceitável do que o pernóstico "excluídos"). Os escanteados não são tão escanteados assim. Tanto que são convidados de honra a essa suprema ventura que é o encontro com os grandes deste mundo.

P.S.: Para o príncipe Charles, ainda houve o samba! A tortura lancinante de, mais uma vez, assim como na primeira visita ao Brasil, vinte anos atrás, ter sido instado a chacoalhar o corpo numa roda de passistas. Não será de surpreender se se souber que, de volta a Londres, ele tenha desabafado: "Mamãe, não volto mais lá".

   
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