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Roberto
Pompeu de Toledo
Lugar
de estadista
é
na favela
Antes,
chefes
de Estado
em visita
ao Rio
eram levados
ao Jóquei.
Hoje, são
levados ao
morro
Nas
solenidades reais, em Londres, o príncipe Charles está acostumado
a andar em lindas carruagens, símbolos sobre rodas de um estilo
e uma altivez que desafiam o tempo. Quando se está nelas, até
mesmo a insistência dos cavalos em levantar o rabo e fazer o que
os cavalos fazem quando levantam o rabo soa a precioso toque de requinte.
Na segunda-feira passada, Charles teve de ir a pé mesmo. Em visita
ao Rio de Janeiro, pôs as reais pernas em funcionamento e, mesmo
sob calor de 30 e tantos graus, galgou 200 metros de íngreme subida,
Morro do Cantagalo acima. Estava em curso o programa que, nestes últimos
anos, se tornou obrigatório para chefes de Estado ou assemelhados
em visita ao Rio de Janeiro, e quanto mais ilustre o chefe de Estado mais
obrigatório: a visita à favela.
"No
meu tempo", costuma dizer um veterano diplomata brasileiro, "levava-se
o visitante ao Jóquei Clube. Hoje, leva-se à favela". Ninguém
escapa. O ex-presidente americano Bill Clinton, o leitor deve se lembrar,
esteve na Mangueira. Talvez, dado o prestígio decrescente do Jóquei
Clube, não fosse o caso de levá-lo lá. Bem pesadas
as coisas, o charme da Mangueira supera de longe o do Jóquei, nos
dias que correm. Mesmo assim, é de perguntar se não se teria
ido longe demais, ao substituir os salões pela favela. Será
que não se passou de um extremo a outro? Sobretudo, será
que não se substituiu uma fantasia por outra a fantasia
de um país que se mostrava emperiquitado de luxo e riqueza, como
no tempo das recepções no Jóquei, pela de um país
que se quer democrático, com pobres, sim, mas que não tem
medo deles, está empenhado em melhorar-lhes a vida, e tanto é
assim que não tem vergonha de mostrá-los aos estrangeiros?
A moda de levar visitantes à favela começou, salvo engano,
no primeiro governo de Leonel Brizola no Rio. Ponto alto, na época,
foi a ida do presidente francês François Mitterrand, em 1985,
ao mesmo Morro do Cantagalo agora visitado por Charles. Logo que Mitterrand
chegou ao morro, ouviu-se um estrondo. O francês ficou lívido.
Houve princípio de pânico, e os seguranças chegaram
a apalpar as armas. A calma só voltou, segundo VEJA registrou na
época, quando um morador da favela gritou: "Ei, macacada, foi só
um foguete". No caso de Charles, o susto foi na véspera. Um tiroteio
na favela, ou nas proximidades, deixou o saldo de um suposto traficante
morto. Logo numa favela considerada modelo de uma nova política
de segurança e que havia um ano não registrava ocorrências
desse tipo... Chegou-se a cogitar de cancelar a visita do príncipe.
Policiais brasileiros e funcionários britânicos correram
ao local, para avaliar a situação. Afinal se manteve a visita,
mas ao custo de uma operação de segurança de larga
envergadura, envolvendo quase 200 policiais.
Depois, ainda havia o medo da dengue. Charles, quando sai pelas ruas de
Londres, costuma ser precedido por garbosos cavaleiros, metidos em fardas
de secular esplendor, e montados em animais de insuperável garbo.
Na subida do morro, foi precedido de quê? Do fumacê! O carrinho
que espalha fumaça para matar mosquito. Com o príncipe e
demais membros da comitiva sempre de terno, com os braços bem cobertos,
apesar do calor, assim como as pernas, o pescoço e tudo o mais
que se pudesse cobrir, para não dar chance ao Aedes aegypti,
e mais um mar de policiais cujo número rivalizava com o dos moradores
que se dispuseram a recepcionar o visitante, assim transcorreu o programa.
Tudo tão natural! Tão espontâneo e à vontade!
Tão natural e espontâneo que a segurança houve por
bem abreviar a visita em vinte minutos.
Quando se começou a induzir os visitantes a fazer o que os próprios
cariocas que vivem no asfalto não fazem, que é subir ao
morro, até se compreendia. Viviam-se os primeiros anos pós-regime
militar, pairava uma euforia democrática no ar e vá lá:
com boa vontade, podia-se interpretar a novidade como parte do projeto
de reencontro do país consigo mesmo. Hoje, somados os interesses
dos visitantes estrangeiros aos dos anfitriões brasileiros, o resultado
é uma dupla e grossa demagogia. Os visitantes conseguem cenas de
televisão que, mostradas em casa, revelarão como representam
bem o seu país, sempre tão atenciosos aos carentes quanto
indiferentes ao conforto pessoal. Como são bonzinhos! Por extensão,
como é bonzinho o seu país! Os anfitriões transmitem
aos estrangeiros a idéia de que não são tão
cruéis como se apregoa com os escanteados desta vida (o termo futebolístico
é mais aceitável do que o pernóstico "excluídos").
Os escanteados não são tão escanteados assim. Tanto
que são convidados de honra a essa suprema ventura que é
o encontro com os grandes deste mundo.
P.S.:
Para o príncipe Charles, ainda houve o samba! A tortura lancinante
de, mais uma vez, assim como na primeira visita ao Brasil, vinte anos
atrás, ter sido instado a chacoalhar o corpo numa roda de passistas.
Não será de surpreender se se souber que, de volta a Londres,
ele tenha desabafado: "Mamãe, não volto mais lá".
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