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Edição 1 742 - 13 de março de 2002
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As listas de Posner

Jurista americano faz quem é quem
no mundo dos intelectuais públicos
e, claro, provoca a maior gritaria

Carlos Graieb
Veja também
Entrevista concedida ao jornalista Carlos Graieb por Richard Posner, autor do livro Public Intellectuals

Ninguém resiste a uma boa lista. Nem mesmo os pensadores mais sisudos. Prova disso é a gritaria provocada pelo livro Public Intellectuals, lançado há pouco nos Estados Unidos. Assinada por Richard Posner, influente jurista e escritor, a obra pretende analisar sistematicamente a figura do intelectual público – aquele sujeito que, "empregando idéias complexas, escreve sobre temas de conotação política ou ideológica para uma audiência ampla". O assunto, por si só, tem potencial para causar polêmica. Mas a obra certamente teria recebido leituras menos severas não fosse por um detalhe fatídico: um de seus capítulos está recheado de listas. Uma delas traz os 100 intelectuais "mais preeminentes" nos Estados Unidos, segundo seu número de menções na mídia. Outra organiza os nomes de acordo com as citações nas esferas acadêmicas. "Meu objetivo era fazer observações estatísticas sobre a idade, a raça ou a formação dos intelectuais", diz Posner. "Não pretendia montar uma ordem de mérito, mas as pessoas ficaram obcecadas tão logo souberam da história." De fato, mal o material veio a público, a fogueira das vaidades começou a arder. Questionou-se o método de seleção de Posner. A presença de alguns nomes, e a ausência de outros. O jornalista David Brooks, que comentou o livro para o jornal The New York Times, iniciou seu texto com uma ironia: ele não seria digno de fazer o trabalho, uma vez que Posner é o número 70 entre os "100 mais" – e ele apenas o 85. Outros resenhistas (que não aparecem nos rankings) desvencilharam-se do texto usando termos como "idiota". O curioso é que todos, sem exceção, consideraram as listas o ponto mais importante da obra. O que talvez confirme aquela que, na verdade, é a tese central de Posner: há algo de malparado no reino dos intelectuais.

Criticar a intelligentsia é prática corriqueira, especialmente nas fileiras do pensamento conservador, de onde vem Posner. No seu caso, o mais interessante é a originalidade da análise. Recorrendo a categorias do pensamento econômico, ele procura descrever o mundo dos intelectuais públicos como se fosse um mercado. E um mercado que não funciona bem. O problema não estaria tanto no "volume de transações". Seja nas páginas de opinião dos jornais, nos artigos publicados em revistas ou em entrevistas concedidas na televisão, há boa oferta e demanda para o trabalho dos intelectuais que se dispõem a porfiar por suas convicções em público – reitere-se que ele trata da questão no âmbito dos Estados Unidos, onde as dimensões avassaladoras da mídia abrem espaço para um número enorme de colunistas, comentaristas, políticos e "formadores de opinião", todos tratados por Posner, pelo menos na lista popular, como intelectuais. Segundo sua análise, o que falta é controle de qualidade. O consumidor dos "bens intelectuais", diz Posner, é cada vez mais desavisado, enquanto o fornecedor é cada vez mais irresponsável. A principal causa disso seria a especialização do conhecimento incentivada pela universidade moderna.

As pessoas, segundo Posner, se acostumaram a saber um tanto sobre a matéria que estudaram na faculdade e muito pouco sobre história ou política. Isso torna improvável que consigam avaliar com inteligência as opiniões que os intelectuais lhes oferecem. Elas se guiam por fama e currículo, mais que pela qualidade real das intervenções. Enquanto isso, do lado dos intelectuais, a especialização também traz problemas. Seria cada vez mais rara a figura do generalista – aquele pensador capaz de falar de tudo com pertinência, em prosa translúcida e ainda por cima saborosa (Posner cita o escritor inglês George Orwell e o filósofo inglês John Stuart Mill como seus modelos). Em contraponto, seria cada vez mais comum a figura do professor universitário que, de tempos a tempos, se aventura para além dos muros de sua especialidade. Esse tipo de intelectual público, diz Posner, se encontra numa posição confortabilíssima para dizer besteira e sair impune. Primeiro, porque os registros de suas intervenções tendem a ser precários e pulverizados. Em segundo lugar, porque, mesmo que um de seus erros se torne notório, ele sempre poderá retornar à segurança da carreira acadêmica. "Os riscos do trabalho de intelectual público para um acadêmico respeitado são mínimos e por isso ele se entrega a essa atividade com a mentalidade de quem sai de férias", diz Posner.

 
Ilustrações Dálcio
 
Kissinger: no topo, ainda e sempre   Rushdie: o único estrangeiro

O uso de conceitos econômicos resulta em vários insights curiosos. Por exemplo, Posner trata os textos escritos por intelectuais como se fossem "produtos" e diferencia neles três dimensões: uma informativa, outra de entretenimento e outra, finalmente, de "solidariedade". Em outras palavras, o leitor procura textos desse tipo para informar-se, para divertir-se e também para encontrar sustentação de suas crenças. "As pessoas dizem que o trabalho dos intelectuais é desfazer idéias feitas, mas tudo indica que o contrário é verdade", diz Posner. "No campo das idéias, as pessoas quase sempre preferem suas certezas à dúvida. Por isso o intelectual público moderno atua muito mais no sentido de solidificar que no de dissipar preconceitos."

 
 
Orwell: modelo quase extinto   Noam Chomsky: truques expostos

Ao lado de todo o arcabouço teórico que levanta, Posner também se preocupa em discutir – e desancar – vários intelectuais de renome. O lingüista Noam Chomsky e os economistas Paul Krugman e Lester Thurow, bastante conhecidos no Brasil, são alguns dos seus alvos. Eles seriam exemplos de como, livres da vigilância normalmente exercida sobre um texto acadêmico e soltos na mídia para argumentar como bem entenderem, os intelectuais jogam para o alto toda cautela e responsabilidade. Chomsky, venerado pela esquerda, é exposto em todos os seus truquezinhos. Quando ele escreve sobre política, diz Posner, "seu método de discussão consiste simplesmente em mudar de assunto. Se alguém afirma que a intervenção ocidental em Kosovo foi um esforço justificável, ainda que ineptamente implementado, de evitar o genocídio da população albanesa, sua resposta é perguntar por que falhamos em proteger os curdos dos turcos". Passagens como essa dão carne – e um tanto de sangue – às páginas de Public Intellectuals. Sem contar a tentação irresistível de ler aquelas listas...

 

O DIREITO DE OPINAR

"Depois de escrever um livro como o que escrevi, não vejo grande mérito em ser um intelectual público 'preeminente'", diz Richard Posner. Mas é exatamente isso que ele é, e não apenas por causa do grande número de menções na mídia e na universidade que seu nome recebe. Desde os anos 70, Posner ocupa um lugar importante no pensamento jurídico americano. Ele é um dos principais expoentes da chamada "escola de análise econômica do direito", que revolucionou vários campos da disciplina – da legislação antitruste ao direito penal. Nomeado em 1981 para um dos principais tribunais de recursos dos Estados Unidos pelo ex-presidente Ronald Reagan, ele se tornou também uma figura influente no Judiciário americano. Tanto assim que, em 1999, acabou escolhido para servir de mediador num dos casos de maior repercussão pública dos últimos tempos: o processo de monopólio enfrentado pela Microsoft, a empresa gigante do bilionário Bill Gates. Mas não é só no campo das leis que Posner exerce o direito de opinar. Sua bibliografia ostenta mais de trinta livros, sobre temas que vão da filosofia à literatura, do sexo à velhice, do caso Monica Lewinsky ao impasse na última eleição presidencial nos Estados Unidos. Seus adversários gostam de pintá-lo como conservador, daqueles da direita brava. Posner prefere descrever-se como "libertário", sem dúvida muito mais charmoso. A verdade é que se trata de um personagem difícil de classificar – uma boa palavra para descrevê-lo talvez seja mesmo iconoclasta.



   
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OS CAMPEÕES DO INTELECTO

NA MÍDIA*
  Número de citações

Henry Kissinger
(ex-secretário de Estado americano)
12 570

Daniel Moynihan
(ex-senador americano)
12 344

George F. Will
(colunista americano)
10 425

Lawrence Summers
(economista americano)
9 369

William J. Bennett
(escritor americano)
9 070

Robert Reich
(economista americano)
8 795

Sidney Blumenthal
(jornalista americano)
8 044

Arthur Miller
(dramaturgo americano)
7 955

Salman Rushdie
(escritor anglo-indiano)
7 688

William Safire
(colunista americano)
6 408

Confira o complemento do ranking dos intelectuais mais citados pela mídia, do
11º ao 100.º lugar
NA ACADEMIA*
  Número de citações

Michel Foucault
(filósofo francês)

13 238

Pierre Bourdieu
(sociólogo francês)
7 472

Jürgen Habermas
(filósofo alemão)
7 052

Jacques Derrida
(filósofo francês)
6 902

Noam Chomsky
(lingüista americano)
5 628

Max Weber
(sociólogo alemão)
5 463

Gary Becker
(economista americano)
5 028

Anthony Giddens
(sociólogo inglês)
4 910

Stephen Jay Gould
(biólogo americano)
4 891

Richard Posner
(jurista americano)
4 321

Confira o complemento do ranking dos intelectuais mais citados pela academia, do 11º ao 100º lugar
   
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