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O
lobo espera a sua hora
Denzel
Washington pode
finalmente
levar o Oscar e pelo primeiro vilão
de sua carreira
Isabela
Boscov

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Denzel
Washington sempre foi visto como uma espécie de coroinha entre
os astros negros americanos. É casado há mais de vinte anos
com a mãe de seus quatro filhos, vai à igreja pentecostal
todos os domingos, recusa-se a protagonizar romances com atrizes brancas
na tela e só aceita papéis em que a cor seja um elemento
determinante quando há alguma causa agregada a eles como
em Malcolm X, em que interpretava o líder muçulmano
morto em 1965, ou O Furacão, no qual vivia o boxeador Rubin
Carter, injustamente condenado por assassinato. Washington, em suma, gosta
de personagens complexos, longe de estereótipos como o traficante
ou o bandido do gueto. Além de belo como um deus, é um ator
completo. Há dois anos, contudo, perdeu para Kevin Spacey o Oscar
pelo qual concorria por O Furacão. Foi sua segunda derrota
na disputa pelo prêmio de melhor ator (venceu como coadjuvante por
Tempo de Glória) e, como ele deu a entender, um dos momentos
mais frustrantes de sua carreira. O saldo desse chacoalhão é
Dia de Treinamento (Training Day, Estados Unidos,
2001), que estréia nesta sexta-feira no país e pelo qual
o astro disputa novamente a estatueta, desta vez como o primeiro vilão
declarado de seu currículo.
No
filme, Washington interpreta Alonzo Harris, um detetive da divisão
de narcóticos de Los Angeles que aceita testar, por 24 horas, o
inexperiente Jake Hoyt (Ethan Hawke), candidato a trabalhar sob sua tutela.
Desde o primeiro instante, Alonzo deixa claro que a visão idealizada
de Jake sobre a missão policial não só não
o comove como provoca seu desprezo. Achacar, intimidar e coagir são
seus métodos de preferência, aplicáveis não
apenas aos marginais mas também ao parceiro. No espaço de
umas poucas horas, o veterano obriga Jake a apontar a arma para a cabeça
de inocentes, fumar maconha com alucinógeno e esperar pacientemente
enquanto ele dá uma escapadela com a amante. E isso é só
o começo. A tese de Alonzo é de que na selva de L.A. não
há lugar para cordeiros, só para lobos, e Jake tem de provar
a qual espécie pertence.
Não
há nada de original no enredo e mais ainda porque o diretor
Antoine Fuqua, embora eficaz do ponto de vista do estilo, se apressa em
condenar a conduta do personagem. Washington, contudo, tem sua própria
visão do assunto, e ela é bem mais interessante do que qualquer
coisa que o roteiro preveja. Com sua jaqueta de couro preta e suas grossas
correntes de prata, Alonzo é uma figura ameaçadora, que
corrompe simplesmente porque tem poder para fazê-lo. Mas o carisma
de Washington e a credibilidade que ele imprime na tela, mesmo num papel
tão negativo, tornam o detetive bem mais ambíguo. Sua atuação
sugere que, quem sabe, Alonzo não passe de um espelho do futuro
que inevitavelmente aguarda Jake. Parafraseando Mae West, quando Washington
é bom, ele é ótimo. Mas, quando ele é mau,
é melhor ainda.
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