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Edição 1 742 - 13 de março de 2002
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Punição à eficiência

Governo americano sobretaxa
importação de aço e pode criar
uma onda de protecionismo global

Denise Ramiro

 
Gladstone Campos

Linha de produção da Açominas: Brasil investiu 10 bilhões de dólares em modernização

O presidente George W. Bush enfureceu a comunidade internacional ao sobretaxar as importações de aço numa época em que o que mais se discute é a redução das barreiras comerciais. Na última terça-feira, o governo americano estabeleceu tarifas extras de 8% a 30% nos próximos três anos para o aço importado de vários países e limitou a cota de importação do produto a 5,4 milhões de toneladas. Essa cota, entretanto, aumentará em 500 000 toneladas por ano até 2004. A medida foi motivo de protestos até em casa. Em editorial, o New York Times condenou a atitude do governo. Segundo o jornal, a decisão de Bush prejudicará a indústria americana, muito dependente do aço, especialmente as fábricas de automóveis. O artigo diz também que as novas regras revelam uma contradição entre o discurso e a prática. Desde que se mudou para a Casa Branca, Bush mostrou-se um defensor da abertura do comércio externo e freqüentemente criticava os opositores da idéia. "Os protecionistas não confiam no trabalhador, no empreendedor e na força de nossos produtos", disse em um discurso, há apenas um mês, em Nova Orleans.

A favor dos americanos, não se pode esquecer que os Estados Unidos têm a economia mais aberta do mundo. O país absorve um terço de toda a mercadoria transacionada no planeta e apresenta um déficit comercial que beira os 400 bilhões de dólares. Ou seja, importa muito mais que exporta. Mais: muitos dos países que se sentiram prejudicados pelas medidas de Bush há anos acumulam superávits em suas transações comerciais com os Estados Unidos. Os efeitos da medida aqui não serão tão danosos quanto para outros países – pelo menos num primeiro momento. O Brasil ficará com metade da cota total estabelecida pelos americanos, com base em suas exportações de 2001. No entanto, a partir do ano que vem, os planos de crescimento das vendas ficarão comprometidos.

Para os demais parceiros comerciais dos Estados Unidos, o impacto será maior. Por isso mesmo, esses países estão mais zangados. A União Européia, que exporta quase um quarto do aço importado pelos Estados Unidos, já prometeu entrar com uma ação na Organização Mundial do Comércio (OMC). O aço europeu tem alto valor agregado, sobre o qual incide a taxação máxima de 30%. Os europeus também temem uma invasão de importados em seu território. Segundo estimativas da comunidade européia, cerca de 16 milhões de toneladas da produção mundial poderão ser desviadas para os quinze países membros do bloco econômico. O Japão, que no ano passado exportou 2,2 milhões de toneladas para os americanos, também deixou claro que vai acionar a OMC.

A Rússia já iniciou uma retaliação. Aboliu a importação de frango americano. O governo russo nega que a medida seja uma resposta ao endurecimento dos Estados Unidos na questão do aço, alegando que já vinha estudando o caso devido a preocupações com a qualidade do produto. Mas, curiosamente, o bloqueio russo valerá a partir deste domingo. Não se pode esquecer ainda que a Rússia perderá até 400 milhões de dólares com as restrições americanas ao aço importado. Em contrapartida, os Estados Unidos deixarão de receber entre 600 milhões e 800 milhões de dólares com a venda de frango para a Rússia. Até mesmo o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, fidelíssimo aliado do presidente americano, repudiou a atitude de Bush. "As medidas são inaceitáveis e más porque afetam não só a Grã-Bretanha como a comunidade européia e outros países em todo o mundo", declarou. Assim reagiram também os líderes do governo da Alemanha e da França, além de autoridades de vários outros países. "A decisão de Bush é muito grave e contraria as regras da OMC. Por isso, a Europa deve reagir vigorosamente e de forma unida", disse o presidente francês, Jacques Chirac.

Ao sobretaxar as importações de aço, George W. Bush tentou agradar ao lobby da obsoleta indústria siderúrgica americana. Quis também aliviar o estrago que o setor sofreu no ano passado. Com a recessão, a demanda por aço caiu e aumentou a desvantagem da produção americana, que já era fraca na competição internacional devido à falta de modernização de suas indústrias. Entre as falências registradas em 2001, esteve a da Bethlehem Steel, que era a segunda maior do mercado. O presidente americano, entretanto, subestimou a reação da comunidade internacional. Pode ter deflagrado, com isso, o início de uma onda protecionista que traz consigo o risco de minar os esforços feitos até agora para diminuir as barreiras comerciais. O Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, investiu 10 bilhões de dólares nos últimos anos para reestruturar o setor siderúrgico. Nesse segmento, privatizaram-se todas as estatais, a produtividade aumentou e reduziu-se à metade a força de trabalho. Ele é hoje é uma das indústrias mais competitivas e eficientes do mundo. A medida americana pune a eficiência. Por isso foi tão condenada em todo o mundo.

 
 

 

Fotos Rogério Montenegro/Fábio Mangabeira/ Silvio Ferreira/Eduardo Pozella

 

   
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