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Punição
à eficiência
Governo
americano sobretaxa
importação
de aço e pode criar
uma onda de protecionismo global
Denise Ramiro
Gladstone Campos

Linha
de produção da Açominas: Brasil investiu 10 bilhões de dólares em
modernização |
O presidente
George W. Bush enfureceu a comunidade internacional ao sobretaxar as importações
de aço numa época em que o que mais se discute é
a redução das barreiras comerciais. Na última terça-feira,
o governo americano estabeleceu tarifas extras de 8% a 30% nos próximos
três anos para o aço importado de vários países
e limitou a cota de importação do produto a 5,4 milhões
de toneladas. Essa cota, entretanto, aumentará em 500 000 toneladas
por ano até 2004. A medida foi motivo de protestos até em
casa. Em editorial, o New York Times condenou a atitude do governo.
Segundo o jornal, a decisão de Bush prejudicará a indústria
americana, muito dependente do aço, especialmente as fábricas
de automóveis. O artigo diz também que as novas regras revelam
uma contradição entre o discurso e a prática. Desde
que se mudou para a Casa Branca, Bush mostrou-se um defensor da abertura
do comércio externo e freqüentemente criticava os opositores
da idéia. "Os protecionistas não confiam no trabalhador,
no empreendedor e na força de nossos produtos", disse em um discurso,
há apenas um mês, em Nova Orleans.
A favor
dos americanos, não se pode esquecer que os Estados Unidos têm
a economia mais aberta do mundo. O país absorve um terço
de toda a mercadoria transacionada no planeta e apresenta um déficit
comercial que beira os 400 bilhões de dólares. Ou seja,
importa muito mais que exporta. Mais: muitos dos países que se
sentiram prejudicados pelas medidas de Bush há anos acumulam superávits
em suas transações comerciais com os Estados Unidos. Os
efeitos da medida aqui não serão tão danosos quanto
para outros países pelo menos num primeiro momento. O Brasil
ficará com metade da cota total estabelecida pelos americanos,
com base em suas exportações de 2001. No entanto, a partir
do ano que vem, os planos de crescimento das vendas ficarão comprometidos.
Para os
demais parceiros comerciais dos Estados Unidos, o impacto será
maior. Por isso mesmo, esses países estão mais zangados.
A União Européia, que exporta quase um quarto do aço
importado pelos Estados Unidos, já prometeu entrar com uma ação
na Organização Mundial do Comércio (OMC). O aço
europeu tem alto valor agregado, sobre o qual incide a taxação
máxima de 30%. Os europeus também temem uma invasão
de importados em seu território. Segundo estimativas da comunidade
européia, cerca de 16 milhões de toneladas da produção
mundial poderão ser desviadas para os quinze países membros
do bloco econômico. O Japão, que no ano passado exportou
2,2 milhões de toneladas para os americanos, também deixou
claro que vai acionar a OMC.
A Rússia
já iniciou uma retaliação. Aboliu a importação
de frango americano. O governo russo nega que a medida seja uma resposta
ao endurecimento dos Estados Unidos na questão do aço, alegando
que já vinha estudando o caso devido a preocupações
com a qualidade do produto. Mas, curiosamente, o bloqueio russo valerá
a partir deste domingo. Não se pode esquecer ainda que a Rússia
perderá até 400 milhões de dólares com as
restrições americanas ao aço importado. Em contrapartida,
os Estados Unidos deixarão de receber entre 600 milhões
e 800 milhões de dólares com a venda de frango para a Rússia.
Até mesmo o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, fidelíssimo
aliado do presidente americano, repudiou a atitude de Bush. "As medidas
são inaceitáveis e más porque afetam não só
a Grã-Bretanha como a comunidade européia e outros países
em todo o mundo", declarou. Assim reagiram também os líderes
do governo da Alemanha e da França, além de autoridades
de vários outros países. "A decisão de Bush é
muito grave e contraria as regras da OMC. Por isso, a Europa deve reagir
vigorosamente e de forma unida", disse o presidente francês, Jacques
Chirac.
Ao sobretaxar
as importações de aço, George W. Bush tentou agradar
ao lobby da obsoleta indústria siderúrgica americana. Quis
também aliviar o estrago que o setor sofreu no ano passado. Com
a recessão, a demanda por aço caiu e aumentou a desvantagem
da produção americana, que já era fraca na competição
internacional devido à falta de modernização de suas
indústrias. Entre as falências registradas em 2001, esteve
a da Bethlehem Steel, que era a segunda maior do mercado. O presidente
americano, entretanto, subestimou a reação da comunidade
internacional. Pode ter deflagrado, com isso, o início de uma onda
protecionista que traz consigo o risco de minar os esforços feitos
até agora para diminuir as barreiras comerciais. O Brasil, ao contrário
dos Estados Unidos, investiu 10 bilhões de dólares nos últimos
anos para reestruturar o setor siderúrgico. Nesse segmento, privatizaram-se
todas as estatais, a produtividade aumentou e reduziu-se à metade
a força de trabalho. Ele é hoje é uma das indústrias
mais competitivas e eficientes do mundo. A medida americana pune a eficiência.
Por isso foi tão condenada em todo o mundo.
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