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Gay pode ser pai
adotivo?
Corte
européia dá à França direito
de proibir a adoção por homossexual
Ruth
de Aquino, de Paris
O francês
Philippe Fretté é professor, homossexual, tem 47 anos e
há dez luta na Justiça para ser pai adotivo. Depois de várias
instâncias, perdendo e ganhando, Fretté levou enfim seu caso
à Corte Européia de Direitos Humanos, em Estrasburgo, já
que desde 1966 a União Européia dá direito a qualquer
pessoa solteira de adotar uma criança, sem restrições
de sexo. Por quatro votos a três, a corte decidiu, há duas
semanas, que a França pode negar a homossexuais o direito de adotar
uma criança, sem com isso correr o risco de ser processada por
discriminação. No momento, a história do professor
Fretté desperta na França muito mais interesse e polêmica
que a sonolenta campanha presidencial. Uma pesquisa do Instituto Louis
Harris, publicada no jornal Libération, mostrou que 59%
dos franceses não estão interessados na eleição
de abril, que escolherá o presidente da República, e que
74% não vêem diferença entre os projetos dos principais
candidatos: o primeiro-ministro Lionel Jospin e o presidente Jacques Chirac.
Mesmo sendo um de esquerda e outro de direita. Fora dos palanques, mas
sob quentes holofotes, está o professor gay.
Ele solicitou
a adoção de uma criança em outubro de 1991. Decidiu
ignorar as advertências de amigos e, em entrevistas, não
escondeu que, além de solteiro, era homossexual. Não havia
nada de desabonador em seu passado e o relatório do juizado de
menores reconheceu explicitamente suas "qualidades humanas e de educador".
O pedido foi negado com base na orientação sexual e na "ausência
de uma referência materna". Começava ali a batalha do professor
nos labirintos jurídicos. A votação da corte de Estrasburgo
em nada contribui para a imagem da França como uma nação
"moderna", antenada com as novas famílias. Um país, aliás,
que tem um homossexual assumido na prefeitura de Paris, Bertrand Delanoë,
e um primeiro-ministro que legalizou o casamento gay. O caso mexe com
uma questão complexa, a das famílias formadas por homossexuais.
"Há centenas de milhares de famílias na França chefiadas
por homossexuais", diz Martine Gross, da Associação de Pais
Gays e Lésbicas. "Algumas crianças são adotadas,
outras vêm de um casamento heterossexual anterior ou são
fruto de inseminação artificial feita na Holanda ou na Bélgica."
O número
de Martine pode ser exagerado, mas a verdade é que a Europa está
dividida: Holanda, Bélgica, Inglaterra e Alemanha não se
opõem a que um casal homossexual adote um filho. França,
Espanha, Grécia e Portugal não discutem sequer o assunto.
Nesse sentido, é curioso observar a nacionalidade dos juízes
contrários e favoráveis ao pleito de Fretté. Dos
setes magistrados em Estrasburgo, votaram contra a adoção
o juiz francês, o lituano, o checo e o albanês. Já
os juízes belga, inglês e austríaco indignaram-se
com o veredicto. No voto, acusaram a França de violar os direitos
humanos ao negar autorização de "paternidade" ao professor.
Fretté tem agora três meses para apelar a uma corte mais
ampla, com dezessete juízes em lugar de sete. Jornais e revistas
franceses estão inundados com depoimentos de gays e lésbicas
que não tiveram problema para adotar crianças na França.
A receita é, na conversa sobre a adoção com as autoridades,
revelar apenas ser solteiro; disfarçar, esconder ou mentir sobre
a preferência sexual. Ou seja, nunca "sair do armário".
A história
do professor Fretté é especialmente oportuna num momento
em que os franceses se preparam para eleger (ou não) um novo presidente.
Os Chirac são um casal conservador, ela mais do que ele e o
presidente, que concorre à reeleição, tem se esquivado
a dar opiniões sobre assuntos controvertidos. Os Jospin são
um casal liberal, ela mais do que ele e o primeiro-ministro também
se tem esquivado a dar opiniões sobre assuntos controvertidos.
Em entrevista à TV, Jospin evitou definir-se como "socialista",
dizendo que quer governar para "todos os franceses". Curiosamente, Chirac
não apareceu numa ruidosa manifestação de 7.000
correligionários, a nata da direita autêntica em Toulouse,
fora de Paris. O primeiro-ministro e o presidente provocam cisões
em seus partidos. Mas Jospin e Chirac querem distância dos militantes
estridentes e passionais. Parece até que combinaram, entre eles,
que a ideologia caducou no receituário dos políticos do
século XXI. O que interessa ao eleitorado é se a semana
de 35 horas de trabalho será mantida ou revogada, se haverá
mais empregos, se a delinqüência juvenil na periferia será
contida, se os hospitais vão melhorar o atendimento e se os impostos
continuarão subindo para o Estado sustentar desempregados e imigrantes.
E até mesmo se o professor Philippe Fretté poderá,
ou não, finalmente ser pai.
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