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A fraude está
até na placa
Roseana
e Murad trabalharam
para conseguir dinheiro público
para a Usimar, o megaescândalo
da Sudam que teria sido a fábrica
de autopeças mais cara do mundo

Alexandre
Oltramari
Ana Araujo
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| A
placa informa o preço absurdo da Usimar de 1,38 bilhão
de reais: sobraram ruínas e suspeitas |

Veja também |
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De imponente
mesmo o projeto Usimar tem o preço. Como mostra a placa ainda fincada
diante do terreno onde ela se ergueria, a fábrica de São
Luís do Maranhão custaria, numa primeira fase, 1,38 bilhão
de reais. O investimento total seria de 1,7 bilhão. É dinheiro
demais para uma empresa que se propunha a fabricar peças de automóveis,
especialmente aquelas mais brutas, pesadas, como os blocos de motor, cabeçotes
e cubos de roda. Isso sem que se encontre uma única indústria
de automóveis nas redondezas. A mais próxima fica em Camaçari,
na Bahia, a 1.600 quilômetros de distância.
De lá vem uma boa comparação para medir a megalomania
do natimorto projeto maranhense. Em Camaçari, a Ford está
em fase final de ajustes de sua fábrica que vai produzir 250.000
carros por ano. A unidade da montadora é abastecida por 29 empresas
de autopeças instaladas na região. Pois bem, o investimento
somado de todas essas empresas fornecedoras da Ford em Camaçari
empata com o custo projetado da Usimar de São Luís do Maranhão.
Um espanto. Se as fraudes não tivessem sido descobertas pelo Ministério
Público, a Usimar teria custado dezenas e até centenas de
vezes mais que fábricas de autopeças em funcionamento no
Brasil e no mundo.
Rodolfo Buhrer
 |
| A
New Hübner, em Curitiba: com faturamento de 50 milhões
de reais, queria ser dona da bilionária Usimar |
O que primeiro
chamou a atenção dos procuradores que hoje investigam a
escandalosa empreitada maranhense foi justamente o fato de esse megaprojeto,
totalmente atípico pelo volume de dinheiro público envolvido,
ter tido uma tramitação rotineira, descuidada até,
na Sudam e no governo de Roseana Sarney no Maranhão, órgãos
responsáveis por sua viabilização financeira. A Sudam
precisou de apenas quatro dias para aprovar um investimento de metade
do custo inicial da Usimar, de 690 milhões de reais, equivalente
ao orçamento de um ano da entidade. A outra metade viria do sócio
privado, o paranaense Teodoro Hübner Filho, dono de uma fábrica
de autopeças em Curitiba. Apesar de conceituada fornecedora de
blocos de motores da Volkswagen e da Ford, a New Hübner, empresa
de Teodoro, fatura apenas 50 milhões de reais por ano e nem de
longe teria cacife para bancar a contrapartida exigida pelo projeto Usimar.
Mesmo assim, o projeto foi aprovado em agosto de 1999 sem questionamento,
como se fosse o de um ranário qualquer. Em poucos meses, 44 milhões
de reais da Sudam foram repassados aos responsáveis pelo projeto.
Três anos depois, a Usimar exibe aquela face típica das empreitadas
da Sudam: é investigada por fraude e desvio de dinheiro, enquanto
a obra é apenas um terreno baldio com alguns barracões e
pilotis que começam a ser comidos pelo mato.
Desde a
sua criação, existe a suspeita de que o clã Sarney
tenha sido providencial para a aprovação do projeto Usimar.
Os procuradores que investigam a fraude encontraram diversas pistas sobre
o envolvimento dos Sarney no processo. Na gigantesca operação
de escuta que fez de fraudadores da Sudam no ano passado, a Polícia
Federal captou alguns diálogos em que se cita o nome do senador
José Sarney. Num trecho ainda inédito do grampo telefônico
autorizado pela Justiça, um fraudador diz que "o projeto da Usimar
é do Sarney". Outro, também flagrado pela escuta, conta
que "a filha dele (Roseana) tem interesse de aprovar". As fitas,
obviamente, nada provam. Fraudadores têm como hábito citar
nome de gente poderosa para impressionar seus interlocutores. Na semana
passada, porém, surgiram evidências mais comprometedoras
entre os documentos apreendidos pela Polícia Federal na empresa
de Roseana Sarney e de seu marido, Jorge Murad, a Lunus, de São
Luís. Numa pasta, os policiais encontraram uma carta endereçada
a Murad com tópicos como "Usimar Pendências" e "Resumo
do Projeto". A polícia achou também um documento enviado
pela Sudam, via fax, a Jorge Murad. É o ofício DAI 695/99,
de setembro de 1999. Ele é assinado pelo então superintendente
da Sudam, José Artur Guedes Tourinho, e endereçado à
Usimar. Nessa época, a empresa tinha apenas um mês de vida.
Os policiais se perguntam agora que estranha coincidência teria
feito com que documentos da Sudam sobre a Usimar fossem parar no escritório
particular de Murad, que, oficialmente, nada tem a ver com o projeto.
"Coincidências,
quando se repetem demais, não são apenas coincidências.
Indicam uma tendência que precisa ser investigada", disse a VEJA
um dos envolvidos na apuração. A investigação
feita até agora mostra um empenho especial da governadora do Maranhão
e de Murad no fulminante processo de aprovação do projeto
Usimar. A pedido de Roseana, o projeto foi incluído na pauta do
Conselho Deliberativo da Sudam (Condel) apenas vinte dias antes da reunião.
Projetos muito menos complexos ficam normalmente até seis meses
na fila. O superintendente Tourinho precisou somente de quatro dias para
dar seu parecer favorável e levar o projeto a votação
no Condel, que era presidido justamente por Roseana. O projeto foi aprovado
por dezenove votos a favor e um contra, dado pelo superintendente da Receita
Federal em Belém do Pará, José Tostes Neto, representante
do Ministério da Fazenda no Condel. Conforme depoimentos colhidos
pelos procuradores que investigam o caso, Murad tentou mudar o voto de
Tostes. O representante do Ministério da Fazenda pediu para ver
as declarações de imposto de renda dos controladores da
Usimar. Disseram-lhe que os documentos estavam numa sala ao lado. Mas
na sala ao lado Tostes encontrou o marido de Roseana, Jorge Murad, e o
dono oficial da Usimar, Teodoro Hübner Filho. "O investimento é
bom para o Maranhão, Tostes. Fique tranqüilo. Conheço
bem esse pessoal. É gente séria", disse Jorge Murad a José
Tostes Neto. Tostes relembra o diálogo e afirma que não
ficou convencido com as palavras de Murad. Manteve o voto contra. "Era
visível que a empresa não tinha capacidade financeira para
executar o projeto", diz Tostes. Não tinha mesmo. Os procuradores
resolveram intervir quando constataram que a empresa de Hübner não
colocara um tostão no negócio enquanto a Sudam já
tinha despejado dezenas de milhões de reais de dinheiro público
na arapuca.
Um aspecto
fundamental do projeto Usimar que parece ter sido esquecido até
pelos investigadores é sua flagrante irracionalidade econômica.
No projeto original, informa-se que a Usimar produziria peças pesadas
a partir de ferro comprado da Vale do Rio Doce. Parte da produção
seria vendida para a Volkswagen, a Ford e a Audi. Outra parte seria exportada.
Os especialistas dizem que esses fundamentos são equivocados. "Não
faz sentido uma empresa de autopeças instalar-se no Maranhão
se tiver que vender para São Paulo. Ainda mais quando o produto
é muito pesado e caro para transportar", diz o consultor Diogo
Clemente, especialista em indústria automobilística. Os
clientes potenciais citados no projeto nunca o levaram a sério.
Na Volkswagen foram feitas duas reuniões de diretoria para examinar
o assunto. "Concluiu-se que seria desastroso ter o nome da companhia vinculado
a um projeto tão cheio de falhas", lembra um alto funcionário
que participou das reuniões. Na Ford a reação foi
a mesma. "A empresa nunca cogitou de ter a Usimar como fornecedora", afirma
um diretor da Ford. Demorou dois anos e custou 44 milhões de reais
para que se descobrisse que a Usimar era apenas uma empresa fantasma que
ainda vai assombrar muita gente.
Com
reportagem de
Diogo Schelp e José Edward
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