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Não
estou com dengue
"Se
o Aedes aegypti me houvesse picado, eu poderia sair
do
Brasil reclamando de tudo, de maneira teatral"
Talvez eu devesse dedicar meu tempo a algo mais desafiador, como, por
exemplo, a obra completa de Silviano Santiago, mas confesso que minha
leitura preferida, no atual panorama da literatura brasileira, é
a seção "Eu tenho dengue", do jornal O Globo. Nela,
celebridades infectadas pelo Aedes aegypti descrevem, com sensibilidade
e riqueza de detalhes, o histórico de suas doenças. Zico
conta que contraiu o vírus no Sambódromo, durante o desfile
da Beija-Flor, enquanto o compositor Francis Hime acredita ter sido picado
no Cemitério São João Batista, onde assistiu ao enterro
da sogra. A designer gráfica Lili Kemper permaneceu oito dias de
cama: "No hospital, o médico me deu dipirona na veia. Só
que eu tinha alergia. Meu olho começou a inchar". Pitty Webo, atriz,
passou "um dia inteiro vomitando e com dores pelo corpo". Leandra Leal,
também atriz, ficou enjoada e vomitou. Em sua opinião, "a
dengue é muito chata. Tudo dói e tudo roda". Sensatamente,
ela espera que essa seja a sua "primeira e última vez".
Na madrugada da última sexta-feira, acordei em péssimo estado.
Graças aos conhecimentos adquiridos na seção de O
Globo, diagnostiquei-me com dengue. Todos os sintomas coincidiam com
os das celebridades. Cheguei a sonhar com minha participação
em "Eu tenho dengue", com um desabafo indignado contra as autoridades
sanitárias. No dia seguinte, o sonho começou a desmoronar.
Liguei para um médico e descobri que o Rio de Janeiro, além
da epidemia de dengue, também está atravessando uma epidemia
de gastroenterite. Como O Globo ainda não fez uma seção
chamada "Eu tenho gastroenterite", fiquei muito frustrado. A frustração
aumentou ainda mais depois que os exames comprovaram que eu não
estava com dengue nem com gastroenterite, mas com uma mera intoxicação
alimentar, provocada por um peixe comprado na feira de Ipanema.
Está para terminar a minha temporada no Rio de Janeiro. Caso eu
estivesse com dengue, poderia sair daqui batendo as portas, reclamando
de tudo, de maneira teatral. Mais ou menos como aquela seqüestrada
do interior de São Paulo que, ao ser libertada, expressou o desejo
de se mudar para os Estados Unidos porque sentia vergonha de ser brasileira.
Poucos dias depois, o ministro Roberto Brant imitou-a, declarando-se envergonhado
com o país porque alguém ousou mexer nos papéis suspeitos
de Roseana Sarney. Eu também gostaria de dizer que sinto vergonha
do Brasil. Só que não posso. Escolhi morar na Itália.
E a Itália, em matéria de vergonha, deixa o Brasil comendo
poeira. Para dar uma idéia da trapalhada que é aquilo, o
primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o homem mais rico do país,
acaba de aprovar uma lei que, na prática, lhe garante o direito
de governar em benefício próprio, com a única condição
de passar para o nome do filho a presidência honorária de
seu time de futebol, o Milan. O escândalo da Sudam é fichinha
perto disso. Se um terremoto destruísse todos os monumentos históricos
e todas as obras de arte da Itália, eles reconstruiriam uma civilização
com a espessura cultural de Cuiabá. Mas não é o caso
de fazer tais considerações. Afinal, eu não estou
com dengue.
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