Entrevista: Maria
Helena Guimarães de Castro Premiar
o mérito
A secretária de Educação
de São Paulo diz que o Brasil precisa livrar-se de vez do corporativismo
e dar incentivos a quem merece
Monica
Weinberg
Paulo Vitale
"A
velha política de isonomia salarial contribui para a acomodação dos professores
numa zona de mediocridade"
Como
secretária estadual de Educação em São Paulo, a professora
Maria Helena Guimarães de Castro, 61 anos, comanda uma rede de 5 500
escolas, 250 000 professores e 5 milhões de alunos. Nenhuma outra no país
chega perto de tais números. É justamente nesse universo que será
implantado pela primeira vez no Brasil um sistema segundo o qual as escolas passarão
a ter metas acadêmicas no horizonte e receberão mais verbas caso
consigam cumpri-las. O tal bônus será distribuído entre os
funcionários. Depois de anunciado o novo sistema, a secretária passou
a receber dezenas de e-mails de professores, alguns deles furiosos. "Eles
querem aumento de salário, sim, mas dissociado do desempenho. Estão
na contramão", diz a secretária. Cientista social de formação,
desde 1993, quando assumiu a Secretaria de Educação em Campinas,
Maria Helena ocupou diversos cargos públicos, entre eles o de secretária
executiva do Ministério da Educação (MEC), durante o governo
FHC, onde é lembrada por ter liderado a construção de um
valioso sistema de avaliação das escolas brasileiras. Casada, mãe
de três filhos e avó de quatro netos, ela concedeu a VEJA a seguinte
entrevista.
Veja Nas próximas semanas, as escolas estaduais de São Paulo se tornarão
as primeiras no país a ter metas acadêmicas a cumprir e a
ser premiadas com mais dinheiro caso consigam atingi-las. Quais resultados a senhora
espera alcançar com tais medidas? Maria Helena O objetivo
é criar incentivos concretos para o progresso das escolas, a exemplo da
bem-sucedida experiência de outros países do mundo desenvolvido,
como Inglaterra e Estados Unidos. Eles não inventaram nenhuma fórmula
mirabolante, mas, sim, conseguiram pôr em prática sistemas capazes
de distinguir e premiar, com base em critérios objetivos, as escolas com
bom desempenho acadêmico. As pesquisas mostram que, em todos os lugares
onde uma política de reconhecimento ao mérito foi implantada, a
educação avançou. No Brasil, esse é um debate novo
e, infelizmente, ainda contraria uma parcela dos educadores.
Veja
Qual é exatamente o motivo das críticas ao novo sistema? Maria
Helena Em pleno século XXI, há pessoas que persistem
em uma visão sindicalista ultrapassada e corporativista, segundo a qual
todos os professores merecem ganhar o mesmo salário no fim do mês.
Essa velha política da isonomia salarial passa ao largo dos diferentes
resultados obtidos em sala de aula, e aí está o erro. Ao ignorar
méritos e deméritos, ela deixa de jogar luz sobre os mais talentosos
e esforçados e, com isso, contribui para a acomodação de
uma massa de profissionais numa zona de mediocridade. Por isso, demos um passo
na direção oposta.
Veja
Os professores se queixam de salários baixos. A senhora dá
razão a eles? Maria Helena Na comparação
com outros profissionais no Brasil e também com professores de escolas
particulares, um conjunto de pesquisas já demonstrou que os salários
dos docentes na rede pública chegam a ser até mais altos. Esse é
um fato, ancorado em números. Apesar disso, acho, sim, que faz parte das
atribuições do estado criar estímulos financeiros à
carreira, de modo a valorizá-la e conseguir atrair mais gente boa para
as escolas públicas. O que não se pode fazer é defender aumento
de salário indiscriminado para professor ruim, desinteressado ou que mal
aparece na escola. Quem merece mais dinheiro no fim do mês são os
bons professores e aquelas escolas públicas capazes de oferecer um raro
ensino de qualidade, apesar das evidentes dificuldades.
Veja
Como funcionará o novo sistema de premiação
dos professores em São Paulo? Maria Helena Criamos
um indicador para aferir a situação atual de cada escola e, com
base nele, estabelecer metas concretas. O desempenho dos alunos em provas aplicadas
pela própria secretaria terá o maior peso. Esse é, não
resta dúvida, um excelente medidor do sucesso acadêmico de uma escola.
Outro é o tempo que um aluno leva para concluir os ciclos escolares. Da
combinação desses e mais fatores resultará o tal índice.
Depois de um ano, ele voltará a ser calculado. Só as escolas que
conseguirem melhorar nas estatísticas vão receber mais dinheiro.
Veja De quanto
será o prêmio? Maria Helena O bônus pode
chegar ao equivalente a mais três salários num ano. Isso para cada
funcionário da escola, da faxineira ao diretor. Foi com um sistema bem
semelhante a esse que a cidade de Nova York alcançou avanços notáveis.
Fizemos aqui uma adaptação necessária à realidade
brasileira: os professores mais faltosos serão automaticamente excluídos
da lista dos premiados. É apenas o justo. O Brasil ainda está pouco
habituado a encarar as políticas para a educação sob uma
ótica mais voltada para os alunos. Eles merecem, afinal, assistir a uma
boa aula e por isso estamos deixando de premiar os professores campeões
em ausência.
Veja De acordo com os mais recentes dados da OCDE (organização
que reúne países da Europa e os Estados Unidos), os estudantes
brasileiros aparecemnas últimas colocações em leitura,
ciências e matemática. Como mudar esse cenário? Maria
Helena Um passo fundamental é fazer a escola se sentir responsável
pelos resultados dos estudantes, algo ainda bastante longínquo, mas possível
de alcançar com a cobrança de metas. Fiz uma pesquisa sobre o assunto
na qual professores entrevistados em diferentes estados brasileiros repetiam a
mesmíssima ladainha: "As notas dos alunos são ruins porque
a escola pública é carente de recursos e os professores ganham mal".
Não acho que seja razoável atribuir tudo a fatores externos. Segundo
essa mentalidade atrasada e comodista, a culpa pelo péssimo desempenho
geral é invariavelmente do estado brasileiro, nunca dos próprios
professores, muitos dos quais incapacitados para dar uma boa aula. A falta de
professores preparados para desempenhar a função é, afinal,
um mal crônico do sistema educacional brasileiro. Sem desatar esse nó,
não dá para pensar em bom ensino.
Veja
Qual seria o melhor caminho para elevar o nível dos professores? Maria
Helena Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia
do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp,
e recomeçaria tudo do zero. Isso porque se consagrou no Brasil um tipo
de curso de pedagogia voltado para assuntos exclusivamente teóricos, sem
nenhuma conexão com as escolas públicas e suas reais demandas. Esse
é um modelo equivocado. No dia-a-dia, os alunos de pedagogia se perdem
em longas discussões sobre as grandes questões do universo e os
maiores pensadores da humanidade, mas ignoram o básico sobre didática.
As faculdades de educação estão muito preocupadas com um
discurso ideológico sobre as múltiplas funções transformadoras
do ensino. Elas deixam em segundo plano evidências científicas sobre
as práticas pedagógicas que de fato funcionam no Brasil e no mundo.
Com isso, também prestam o desserviço de divulgar e perpetuar antigos
mitos. Ao retirar o foco das questões centrais, esses mitos só atrapalham.
Veja
A senhora pode dar alguns exemplos desses mitos? Maria
Helena Um dos mais populares é aquele segundo o qual o aumento
no salário dos professores leva sempre à melhoria do ensino. As
pesquisas mostram que, quando o dinheiro vem dissociado de uma política
de reconhecimento do mérito, ele surte pouco ou nenhum efeito. Um segundo
mito bastante divulgado diz respeito ao tamanho das classes. Os educadores afirmam
por aí ser impossível oferecer uma boa aula diante de classes cheias,
mas os estudos sobre o assunto indicam que, tirando as séries iniciais,
esse é um fator de pouca relevância. Escolas de diferentes países
decidiram inclusive aumentar o número de alunos em sala de aula para resolver
outra questão esta, sim, de grande efeito positivo. Eles estão
esticando as horas de permanência dos estudantes nas escolas e, para arcar
com os custos da medida, precisam fazer caber mais gente numa mesma sala. Resta
ainda o mito do livro didático. Os estudantes de faculdades de pedagogia
aprendem a encarar os livros como uma espécie de camisa-de-força,
e não como uma base a partir da qual podem ampliar os horizontes em sala
de aula.
Veja O
currículo escolar também é visto com certa reticência
pelos professores brasileiros, segundo mostram as pesquisas... Maria
Helena De novo, os professores se sentem tolhidos na sua liberdade
de ensinar baboseira ideológica que passa ao largo de uma questão
central. Sem contar com um currículo, o professor de escola pública
no Brasil, de modo geral, continua a encarar as classes sem uma referência
mínima na qual se mirar. Poucos estados brasileiros (entre as exceções,
São Paulo, Minas Gerais e o Tocantins) dispõem de um currículo
para oferecer às escolas, no qual estejam incluídos os assuntos
a ser abordados em cada matéria, no detalhe. É uma pena. A experiência
mostra que professores com um apoio didático dessa natureza vão
mais longe em sala de aula. Investir na construção de um currículo,
como fizeram alguns dos países da Europa dois séculos atrás,
é certamente um destino mais adequado para as verbas públicas do
que esparramar canteiros de obras Brasil afora um caminho tão comum
para o orçamento da educação no país.
Veja
Quais são as melhores aplicações para o dinheiro
destinado à educação? Maria Helena
Três tipos de uso do dinheiro surtem mais efeito em sala de aula, conforme
apontam as pesquisas: além do investimento em produção de
material didático, os cursos para melhorar a formação dos
professores e os programas de valorização aos bons docentes também
resultam em melhorias concretas no nível do ensino. Não dá
para fugir ainda de gastos extras com escolas sem a infra-estrutura mínima.
À frente dos 5 500 colégios estaduais de São Paulo,
tenho visto de tudo. Em algumas das escolas, a diretora precisa retirar diariamente
lâmpadas e fiações ao final das aulas, para evitar roubos
por parte dos próprios alunos. Eles costumavam trocar esses objetos por
drogas. Outras escolas se tornaram verdadeiros emaranhados de "puxadinhos",
extensões labirínticas do prédio original feitas pela própria
comunidade. São apenas alguns retratos da desordem que precisamos enfrentar.
Diante de tantas precariedades, a velha tradição brasileira de fazer
pirotecnia com o dinheiro público da educação não
parece ter o menor sentido.
Veja
A que tipo de "pirotecnia" a senhora se refere? Maria
Helena À construção de escolas monumentais, repletas
de quadras poliesportivas, piscinas olímpicas e centenas de computadores,
por exemplo. Em geral, elas são um convite à gastança de
dinheiro sem nenhuma evidência de retorno para a sala de aula a longo prazo.
Isso porque, segundo indica a experiência, em pouco tempo essas escolas
entram em decadência por exigir uma manutenção cara demais
para os cofres públicos. Volto à mesma tecla: o que dá certo
na educação é a aplicação disciplinada de um
conjunto de medidas bem mais básicas e não aquelas de efeito
festivo e mais vistosas, como ainda preferem alguns.
Veja
Como algumas escolas públicas conseguem sobressair diante
das demais, apesar do mesmo orçamento apertado? Maria Helena
Há um fator comum a todas as escolas nota 10, e ele merece a
atenção das demais: trata-se da presença de um diretor competente,
com atributos de liderança semelhantes aos de qualquer chefe numa grande
empresa. Sob sua batuta, os professores trabalham estimulados, os alunos desfrutam
um clima positivo para o aprendizado e os pais são atraídos para
o ambiente escolar. Se tais diretores fossem a maioria, o ensino público
não estaria tão mal das pernas.
Veja
Na sua opinião, o Ministério da Educação
(MEC) tem tomado medidas acertadas? Maria Helena No geral,
sim. Os esforços concentrados para melhorar a educação básica
e a ênfase dada às avaliações das escolas são
dois dos pontos positivos. Para mim, ver a educação de volta aos
trilhos é um alívio. No primeiro mandato do governo Lula, tive meus
momentos de tristeza.
Veja
Por quê? Maria Helena Foi um período
de paralisia para a educação, com um retrocesso: o desmantelamento
do antigo Provão, uma prova criada durante o governo Fernando Henrique
para aferir a qualidade das universidades. Funcionava bem, mas acabou vítima
de um velho hábito da política brasileira: o de não dar continuidade
às medidas adotadas pelos antecessores. Numa área como a educação,
de resultados de longo prazo, o tradicional bota-abaixo a cada troca de governo
é algo a ser combatido, tal qual fizeram países como a Irlanda e
a Coréia do Sul, hoje modelos na educação. Eles só
conseguiram abandonar o atoleiro de notas vermelhas depois de firmar uma espécie
de pacto nacional, capaz de sobreviver às sucessivas trocas de governo
ao longo de décadas. O Brasil tem hoje uma meta, para daqui a quinze anos,
e há um bom consenso em torno das estratégias para alcançá-la.
Precisa, daqui para a frente, começar a dar mostras de maturidade política
para conseguir deixar a rabeira nos rankings internacionais de ensino e,
quem sabe um dia, aparecer entre os melhores.