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Claudio
de Moura Castro
A (falsa) crise
do vestibular
"É
a má qualidade das escolas de 1º e 2º graus
que gera candidatos mal preparados. Permitir
que
passem mais quatro anos estudando é parte
da solução, não do problema"
Ilustração Alê Setti
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Mesmo eventos nefastos podem ser fonte de educação para
a sociedade. O escandaloso julgamento de O.J. Simpson foi um curso de
direito penal. A crise argentina deixa lições para o Brasil.
Infelizmente, na educação os eventos não costumam
deixar lições. No teste do Pisa, prenhe de ensinamentos,
a única notícia foi o último lugar do Brasil.
O incidente
do analfabeto no vestibular da Estácio de Sá virou munição
para acertos de conta. Mas podemos aproveitá-lo para iluminar o
processo de entrada no superior.
Todos os
anos, dezenas de milhares de alunos, ainda cursando o 2º grau, fazem
vestibular para as universidades federais. É uma prática
para o aluno e um dinheirinho extra para as universidades. Mas, não
tendo diploma, não podem matricular-se. O candidato da Estácio
foi o mesmo caso, pois para fazer o exame e ganhar nota não precisou
de diploma. Como não foi matriculado, não houve ilegalidade.
O presente
sistema de vestibular tomou corpo cerca de trinta anos atrás, quando
as instituições federais abandonaram as tentativas de estabelecer
critérios mínimos de aprovação. Quando as
provas eram muito difíceis para os candidatos, sobravam vagas,
gerando protestos e zangas. Quando eram fáceis demais, havia aprovados
sem que houvesse vagas, gerando os "excedentes", que moviam ações
legais para obter a matrícula. Escaldado com a situação,
o MEC criou o vestibular puramente classificatório. A função
da prova passou a ser somente a de ordenar os alunos por nível
de conhecimento. Dadas as pontuações, são chamados
os candidatos, até preencher todas as vagas. Pax romana
nas províncias do vestibular.
Nas privadas
e públicas, se os candidatos são em maior número
que as vagas, o vestibular seleciona os melhores. Mas, com a expansão
dos cursos, sobretudo nas grandes capitais, existem áreas com mais
vagas que candidatos. Nesse caso, passam todos os que fazem a prova, pois
é praticamente impossível não acertar alguma questão.
Mesmo que haja redação, nada muda. Isso ocorre também
em muitas federais. Se houver mais de nove vagas e só nove candidatos,
aprovam-se os nove, mesmo que não saibam nada. Igualzinho à
Estácio de Sá. Na ausência de níveis mínimos,
se há menos candidatos que vagas, o vestibular é um mero
rito, sem função prática. Para eliminar tal situação,
só se voltássemos a exigir um mínimo de conhecimentos,
abaixo do qual não se permitiria a entrada no superior.
Na Europa,
há um exame de saída, podando os mais fraquinhos
que nem sequer se formam no ensino médio. Nos Estados Unidos, não
há. A política é segmentar o ensino superior. Para
uns, as universidades de elite, ferozmente competitivas. Para outros,
os community e state colleges, que aceitam automaticamente
todos os residentes no Estado. Nessas instituições, cujas
funções incluem dar mais uma chance de aprender, um terço
ou mais têm de fazer cursos de inglês e matemática,
por serem semi-analfabetos.
No Brasil,
tampouco existem exames de saída do médio e seria espinhoso
criá-los, dadas as disparidades regionais. Considerando que nas
federais praticamente não há níveis mínimos
para entrar no ensino superior, será que o Estado deveria criá-los
para as privadas? O Estado dificilmente poderia fazê-lo, ainda que
fosse uma boa idéia, pois exigiria um vestibular único para
todas. Claro, as privadas que queiram podem fixar o próprio mínimo
(trabalho em uma faculdade onde a redação é eliminatória).
No fundo,
são falsas respostas para falsos problemas. O vestibular nada mais
faz que hierarquizar os candidatos pelo seu conhecimento. Pouca diferença
faz se a prova é fácil ou difícil, ensaio ou múltipla
escolha, é a concorrência que torna difícil a entrada.
É claro que, se sobram vagas, entram todos. Ótimo, só
resta a necessidade de recalibrar o ensino nas escolas que recebem os
mais fracos, pois é contraproducente tentar ensinar o que eles
não podem aprender.
Entendamos:
é a má qualidade das escolas de 1º e 2º graus
que gera candidatos mal preparados. Permitir que passem mais quatro anos
estudando é parte da solução, não do problema,
sobretudo se estão pagando do próprio bolso.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)
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