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Roberto
Pompeu de Toledo
Dezesseis palavras
que choram
Uma frase
do governador do Distrito
Federal transforma-o em réu de duplo
crime: racismo e atentado ao idioma
O governador
do Distrito Federal, Joaquim Roriz, deve ser condenado por crime de racismo?
Desde o último dia 31, quando, em evento na cidade-satélite
de Brazlândia, ele qualificou como "crioulo" um cidadão que
o hostilizava, a questão está posta. O PT de Brasília,
acérrimo adversário do governador, iniciou processo contra
ele. Se as palavras de Roriz merecem ou não condenação
será o nosso tema, mas antes detenhamo-nos na frase por inteiro,
que aqui vai reproduzida em maiúsculas e num parágrafo à
parte, para lhe realçar o sabor:
ALI
ESTÁ UM CRIOULO PETISTA QUE EU QUERO QUE VOCES DÃO UMA SALVA
DE VAIA NELE.
A frase,
mesmo que não contivesse o "crioulo", já seria um assombro.
Suas dezesseis palavras configuram um pandemônio sintático.
Do primeiro "que" ao "nele" do final, passando pelo "dão" em vez
de "dêem" e à "vaia" em vez de "vaias", há atentados
de toda ordem contra a língua portuguesa. O conjunto todo é
de levar o professor Pasquale a nocaute. Menção de honra
vai para a "salva de vaia". A "salva" que se conhece é de palmas.
Roriz inventou a "salva de vaias" ou, melhor ainda, "de vaia".
De todo modo, o cerne da questão está no "crioulo". Ele
revelaria não apenas um transgressor da gramática, mas da
lei. Vejamos as linhas de defesa de que disporia o governador.
Crioulo,
ao contrário do que geralmente se pensa, não quer dizer
"negro". Ou melhor: na origem, não quer dizer negro. Quer dizer:
"cria da terra", "filho do local". A palavra proviria de "criadouro".
Com o tempo, perdeu um "d" aqui e um "r" ali, ganhou um "l" e virou crioulo.
No Brasil da escravidão, o crioulo se opunha ao africano. Este
era o escravo ainda de primeira geração, nascido na África.
O crioulo era o já nascido no Brasil, filho de uma escrava que
deu cria. Esse sentido se aparenta ao dos países hispano-americanos,
onde "criollo", nos tempos coloniais, era o habitante nascido na colônia
o branco, não o negro nem o índio , em oposição
ao que nascera na Espanha. Também se aproxima do "créole"
francês, palavra usada para identificar o dialeto falado nas colônias,
mistura do francês com línguas locais. Ou seja: uma língua
criada no local.
Dito isso,
temos um primeiro argumento em favor de Roriz. Ele não estaria
dizendo "Ali está um negro petista etc.", mas sim "Ali está
um filho desta terra..." Já que estamos no afã de refazer-lhe
a frase, poderíamos ir além, e corrigi-la também
no português, para ficar mais palatável aos julgadores. Ela
ficaria assim, igualmente em maiúsculas e num parágrafo
isolado:
ALI
ESTÁ UM FILHO DESTA TERRA, POR SINAL PETISTA, PARA O QUAL PEÇO
QUE VOCES DESTINEM UMA SONORA VAIA.
Não
pegou? Tal linha de defesa soa forçada? Há outra. A de que
tudo não teria passado de brincadeira. Esta é, na verdade,
a linha que está sendo usada por Roriz. Ele conheceria o "crioulo"
em questão, e a palavra com que se referiu a ele representaria
uma fórmula carinhosa. O governo do Distrito Federal até
identificou o destinatário da frase. Seria um certo Marinalvo Nascimento,
cabo eleitoral do deputado distrital Edimar Pirineus, atual secretário
do Desenvolvimento Econômico de Roriz. Outro secretário do
governo, Wellington Moraes, da Comunicação, explicou: "O
governador sempre brinca desse jeito com as pessoas mais simples".
Eis-nos
diante de argumento muito usado pelos acusados de racismo verbal. "Crioulo",
assim como "negão", seria manifestação de carinho.
Talvez existam, mas são sem dúvida raros os casos em que
um negro manifesta o apreço a um branco chamando-o de "brancão".
Mas branco chamar negro de "negão" pode. Acresce, no caso de Roriz,
que ele reserva suas fórmulas carinhosas, segundo seu secretário
de Comunicação, às "pessoas mais simples". As pessoas
mais complexas, infere-se, delas são dispensadas.
Aceitemos
as alegações do governador. Era um amigo, e foi brincadeira.
Mas o amigo, o tal Marinalvo Nascimento, não é um correligionário?
Sem dúvida. É até cabo eleitoral de um próximo
companheiro do governador. Por que cargas-d'água, então,
foi Roriz chamá-lo de petista? E por que foi pedir uma vaia para
ele? Nesse ponto, sempre no afã de oferecer linhas de defesa ao
governador, resta alegar que ele foi vítima de dois lapsos de linguagem.
Quando disse "petista", o que quis dizer é que não se tratava
de um petista. Faltou o "não", só isso. Quanto às
vaias... Já não se disse acima que quem diz "salva" quer
dizer sempre "salva de palmas"? Pois foi isso que o governador quis dizer.
Por um lapso, trocou "palmas" por "vaias", mas o que quis dizer mesmo
foi "palmas". O que nos leva à última correção,
para que a frase enfim se revista de sua definitiva forma e real significado:
ALI
ESTÁ UM FILHO DESTA TERRA, ALGUÉM LONGE DE SER UM PETISTA,
PARA O QUAL PEÇO QUE VOCES DESTINEM UMA SALVA DE PALMAS.
Conclusão:
Roriz deve ser condenado não por racismo, mas porque não
sabe o que diz.
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