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Acabou em torta
e bate-boca
O fórum
de Porto Alegre teve muito
samba, insultos, idéias velhas
e nenhuma defesa do Brasil
AP/Centro de Mídia Independente
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| Torta na cara: ministra francesa foi o alvo
em Porto Alegre |
O Fórum
Social de Porto Alegre, em sua segunda edição, terminou
na terça-feira passada sem o menor esboço de defesa dos
interesses brasileiros junto às numerosas e poderosas delegações
européias enviadas ao encontro. O comércio agrícola,
que responde por uma grande parcela do PIB brasileiro e é bastante
prejudicado pelos subsídios dos países europeus representados
em Porto Alegre, não foi sequer tema de discussão entre
os milhares de militantes e suas lideranças. Eles dançaram,
beberam pinga com rótulo enfeitado com a foto famosa que Alberto
Korda fez do revolucionário Che Guevara e jogaram torta na cara
de Marie-George Buffet, ministra da Juventude e do Esporte da França.
No último dia teve até briga pública entre os anfitriões
do evento, Olívio Dutra, governador do Rio Grande do Sul, e Tarso
Genro, prefeito de Porto Alegre. Ambos são do PT, esquerdistas
históricos, mas, pelo que se viu, divide-os um profundo fosso ideológico.
Inconformado
com o fato de o governador Olívio Dutra monopolizar todas as atenções
do fórum, o prefeito Tarso Genro abriu os escaninhos da história
e de lá tirou uma imprecação que havia muito tempo
não era ouvida. Ele chamou o governador de "stalinista" e acusou
seus adversários de suprimir propositadamente sua imagem na cobertura
que a TV estatal do Rio Grande do Sul fez do evento. Segundo Genro, para
boicotar sua declarada candidatura ao cargo de governador nas próximas
eleições, Olívio Dutra mandou eliminar a imagem dele,
à semelhança do que o ditador soviético Josef Stalin
costumava fazer com seus desafetos nas fotos oficiais do regime. "Os companheiros
que apóiam Olívio estão adoidados distribuindo adesivos,
até de uma maneira muito constrangedora para nós, porque
o fórum não pode ser instrumentalizado politicamente", queixou-se
Tarso. O governador gaúcho não quis comentar o assunto.
A evidência
do racha do PT gaúcho acabou sendo o grande momento do fórum.
As questões substantivas foram esquecidas em favor da já
gasta pregação contra a manipulação genética
de culturas agrícolas, com uma agravante. Entrou no índex
de condenação dos militantes um importante produto de exportação
brasileiro, o frango. Qual a acusação? Os seguidores do
francês José Bové, talvez o militante profissional
mais bem-sucedido do planeta, acharam de qualificar o frango que o Brasil
exporta de "lixo, um produto industrializado". Mesmerizados pelo charme
das esquerdas européias, os participantes brasileiros engoliram
em seco. Não se ouviu palavra em defesa de um produto que, se perde
feio em sabor para os bípedes franceses, responde no Brasil pela
manutenção de alguns milhares de empregos e, todos os anos,
pela entrada de centenas de milhões de dólares de divisas.
Não
deixa de ser intrigante que as posições brasileiras acabassem
sendo defendidas e muito bem, por sinal no Fórum
Econômico Mundial, em Nova York. Durante a realização
do evento foi criada uma força-tarefa composta de dezenas de entidades,
entre elas o Banco Mundial e comitês da Organização
Mundial do Comércio (OMC), com o objetivo de pressionar os governantes
europeus a colocar um fim aos subsídios de seus produtos. Como
se sabe, os países europeus gastam cerca de 1 bilhão de
dólares por dia subvencionando seus produtores agrícolas.
Essa montanha de dinheiro tem dois efeitos. Internamente, ela cria na
Europa uma barreira inexpugnável que impede que a produção
agrícola do Terceiro Mundo seja vendida em feiras. Ao mesmo tempo,
torna os produtos baratos nos mercados externos, o que fecha mais uma
porta para as exportações brasileiras e dos países
pobres da África, da Ásia e da América Central.
AFP/Paul J. Richards
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| Nova York: manifestante denuncia o escândalo
de falência da gigante Enron |
Estudos mostram
que o protecionismo não é ruim apenas para os países
que, como o Brasil, não conseguem aumentar sua participação
na venda de produtos agrícolas para as nações do
Primeiro Mundo. É ruim também para muitos produtores dos
próprios países do Primeiro Mundo. Nos Estados Unidos, cerca
de 70% dos subsídios federais são destinados a apenas 10%
dos agricultores nacionais, concentrados em seis Estados. Isso é
apontado como motivo para a distorção dos preços
de produtos como o milho, o trigo, o algodão e a soja. Funciona
como um círculo vicioso. O governo dá dinheiro para esses
itens protegidos, a produção se torna maior que a necessidade
do mercado, os preços despencam e os produtores voltam a procurar
a ajuda do governo com a argumentação de que as cotações
estão muito baixas. Acabaram também saindo do fórum
de Nova York as críticas mais coerentes ao processo de globalização
da economia. Horst Koehler, chefão do FMI, levantou a idéia
de reformular os mecanismos internacionais que são os pilares do
capitalismo, como a própria entidade que ele dirige e o Banco Mundial.
Com a autoridade de quem dedicou 24 bilhões de dólares da
própria fortuna para financiar programas de saúde na África
e em outras regiões miseráveis, Bill Gates, fundador da
Microsoft, perguntou durante o fórum: "Será que o mundo
rico está fazendo tudo que pode para melhorar a situação
dos pobres?" Gates mesmo respondeu que não e fez um alerta: "São
justamente as pessoas que acham que o mundo está contra elas que
produzem aquele tipo de ódio tão perigoso para todos nós".
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