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Recomeça a
vida em pesos
A Argentina
baniu o dólar de sua
vida econômica, mas já sofre como
um drogado em crise de abstinência
João
Gabriel de Lima, de Buenos Aires
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| Protesto
contra o governo em Buenos Aires: agora com hora marcada |
O
ministro Remes Lenicov prova um café no anúncio do pacote:
fim do dólar |

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Pode-se comparar
a situação atual da Argentina à de um viciado de
quem se tira repentinamente a droga e que tenta, a todo custo, evitar
a síndrome de abstinência. A droga da Argentina era o dólar.
O que se depreende do pacote econômico anunciado no domingo 3 é
que o país, agora, terá de reaprender a viver sem a moeda
americana. O plano do ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, tem duas
vigas mestras. A primeira são os cortes nos gastos públicos.
O país pretende baixar seu déficit, que foi de 10 bilhões
de dólares em 2001, para 3 bilhões de pesos em 2002. Para
isso, elaborou a toque de caixa um novo orçamento, que deve ser
aprovado pelo Congresso até o próximo dia 15. A segunda
é a livre flutuação do câmbio. Desde que caiu
na pior recessão de sua história, que fez com que a economia
encolhesse 16% em quatro anos, segundo dados oficiais, a Argentina vive
como um doente terminal aos cuidados de uma junta de médicos indecisos.
Pesificar ou dolarizar?, perguntavam-se diante do paciente que agonizava
à sua frente. Agora, em parte devido à falta de escolha,
decidiu-se finalmente que o remédio será o peso.
Tudo indica
que o coquetel será semelhante ao que foi aplicado no Brasil em
1999. Primeiro, libera-se a cotação do dólar e deixa-se
que ele suba um pouco além do que o governo considera seu "valor
real", ou de equilíbrio. Esse valor, embora exista no bolso do
colete dos presidentes de banco central, é sempre volátil.
Se passar disso, o Banco Central intervém no mercado vendendo a
moeda americana. Remes Lenicov diz ter reservas no valor de 14 bilhões
de dólares para bancar a operação. Num cenário
otimista, isso estabilizaria a cotação, estancaria a fuga
para o dólar e faria com que os argentinos voltassem a confiar
no peso, retomando os investimentos. Mais ou menos como aconteceu no Brasil.
Os paralelos acabam aí. A Argentina vinha encolhendo como roupa
barata nos últimos anos. O PIB caiu brutalmente em quatro anos.
A renda per capita afundou 18% no mesmo período. Ou seja, o desafio
não é apenas estabilizar a economia, mas fazer o país
voltar a crescer rápido e muito sem gerar inflação.
Além
disso, a questão cultural não é negligenciável.
Enquanto o brasileiro mantém com o dólar uma espécie
de amor platônico, o argentino sustenta com as notas verdes uma
verdadeira relação carnal. Com todos os percalços
vividos pelo país nos últimos anos, o brasileiro ainda consegue
pensar em reais. Já o argentino, há mais de vinte anos,
se pauta pelo dólar. Tudo começou em 1975, com o chamado
"rodrigazo", a maxidesvalorização da moeda empreendida por
Celestino Rodrigo, ministro da Economia de Isabelita Perón, que
quase levou o país à hiperinflação. "Não
foi Menem quem dolarizou a Argentina em 1991. Ela já estava dolarizada
desde 1975. Estamos acostumados a pensar em dólares desde aquela
época. Vai ser difícil mudar agora", avalia o economista
argentino Héctor Rubini, especializado em macroeconomia e finanças.
A adoção de uma nova moeda é operação
muito delicada num país dolarizado e em crise como a Argentina.
O governo Duhalde teve de encarar uma briga feia com o Judiciário.
Acabou proibindo os argentinos, por decreto, de recorrer à Justiça
para desbloquear o dinheiro nos próximos 180 dias.
Enquanto
não anuncia o que já se sabe inevitável um
plano de contenção de gastos e metas inflacionárias
, o governo entregou ao povo um pacote em que procurou agradar a
todos, uma velha e perigosa predileção local. Os pequenos
devedores e as empresas comemoraram a conversão automática
de suas dívidas em dólares por dívidas em pesos.
Os bancos, em tese, perderam com a medida, mas não se acredita
numa quebradeira generalizada, até porque eles poderão ganhar
muito vendendo dólares no atacado. Os poupadores com aplicações
em dólares terão seus pés-de-meia convertidos em
pesos, com um ganho de 40% na moeda argentina. Houve grande chiadeira.
Afinal, quem tinha 100 dólares depositados e retirar os equivalentes
140 pesos do banco conseguirá, no máximo, 70 dólares
se atravessar a rua e entrar numa casa de câmbio. Eles têm
razão em reclamar. Mas o economista brasileiro Fabio Giambiagi,
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
um estudioso do caso argentino, faz uma observação: "Em
qualquer país normal, alguém que tem dinheiro na poupança
e é informado de que vai ter um ganho de 40% em um mês sai
comemorando. No caso argentino, ainda não se sabe se isso será
bom ou não por causa da inflação, que ninguém
imagina qual será".
Por mais
assustadora que pareça a situação argentina, há
sinais de que o período de crises agudas passou. A revolta agora
é crônica, abafada, surda, como a de países sob intervenção
de potências estrangeiras. Quem toma um táxi na cidade invariavelmente
ouve o motorista chamar a central pelo rádio para saber se há
ocorrência de "Código amarillo" no caminho para o local de
destino. "Código amarillo" é uma expressão nova.
Significa que há passeata e o trânsito está impedido.
Quando se tem passeata com lugar e hora marcados, a situação
começou a dar sinais de melhora.
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