Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 738 - 13 de fevereiro de 2002
Economia e Negócios Argentina

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
  Duhalde começa a acertar
Os fóruns econômico e social
Vale a pena investir dinheiro do FGTS na Vale?
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
VEJA on-line
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Recomeça a vida em pesos

A Argentina baniu o dólar de sua
vida econômica, mas já sofre como
um drogado em crise de abstinência

João Gabriel de Lima, de Buenos Aires

 
Protesto contra o governo em Buenos Aires: agora com hora marcada O ministro Remes Lenicov prova um café no anúncio do pacote: fim do dólar


Leia também
Confira a cobertura completa sobre a crise Argentina em VEJA on-line.

Pode-se comparar a situação atual da Argentina à de um viciado de quem se tira repentinamente a droga e que tenta, a todo custo, evitar a síndrome de abstinência. A droga da Argentina era o dólar. O que se depreende do pacote econômico anunciado no domingo 3 é que o país, agora, terá de reaprender a viver sem a moeda americana. O plano do ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, tem duas vigas mestras. A primeira são os cortes nos gastos públicos. O país pretende baixar seu déficit, que foi de 10 bilhões de dólares em 2001, para 3 bilhões de pesos em 2002. Para isso, elaborou a toque de caixa um novo orçamento, que deve ser aprovado pelo Congresso até o próximo dia 15. A segunda é a livre flutuação do câmbio. Desde que caiu na pior recessão de sua história, que fez com que a economia encolhesse 16% em quatro anos, segundo dados oficiais, a Argentina vive como um doente terminal aos cuidados de uma junta de médicos indecisos. Pesificar ou dolarizar?, perguntavam-se diante do paciente que agonizava à sua frente. Agora, em parte devido à falta de escolha, decidiu-se finalmente que o remédio será o peso.

Tudo indica que o coquetel será semelhante ao que foi aplicado no Brasil em 1999. Primeiro, libera-se a cotação do dólar e deixa-se que ele suba um pouco além do que o governo considera seu "valor real", ou de equilíbrio. Esse valor, embora exista no bolso do colete dos presidentes de banco central, é sempre volátil. Se passar disso, o Banco Central intervém no mercado vendendo a moeda americana. Remes Lenicov diz ter reservas no valor de 14 bilhões de dólares para bancar a operação. Num cenário otimista, isso estabilizaria a cotação, estancaria a fuga para o dólar e faria com que os argentinos voltassem a confiar no peso, retomando os investimentos. Mais ou menos como aconteceu no Brasil. Os paralelos acabam aí. A Argentina vinha encolhendo como roupa barata nos últimos anos. O PIB caiu brutalmente em quatro anos. A renda per capita afundou 18% no mesmo período. Ou seja, o desafio não é apenas estabilizar a economia, mas fazer o país voltar a crescer – rápido e muito – sem gerar inflação.

Além disso, a questão cultural não é negligenciável. Enquanto o brasileiro mantém com o dólar uma espécie de amor platônico, o argentino sustenta com as notas verdes uma verdadeira relação carnal. Com todos os percalços vividos pelo país nos últimos anos, o brasileiro ainda consegue pensar em reais. Já o argentino, há mais de vinte anos, se pauta pelo dólar. Tudo começou em 1975, com o chamado "rodrigazo", a maxidesvalorização da moeda empreendida por Celestino Rodrigo, ministro da Economia de Isabelita Perón, que quase levou o país à hiperinflação. "Não foi Menem quem dolarizou a Argentina em 1991. Ela já estava dolarizada desde 1975. Estamos acostumados a pensar em dólares desde aquela época. Vai ser difícil mudar agora", avalia o economista argentino Héctor Rubini, especializado em macroeconomia e finanças. A adoção de uma nova moeda é operação muito delicada num país dolarizado e em crise como a Argentina. O governo Duhalde teve de encarar uma briga feia com o Judiciário. Acabou proibindo os argentinos, por decreto, de recorrer à Justiça para desbloquear o dinheiro nos próximos 180 dias.

Enquanto não anuncia o que já se sabe inevitável – um plano de contenção de gastos e metas inflacionárias –, o governo entregou ao povo um pacote em que procurou agradar a todos, uma velha e perigosa predileção local. Os pequenos devedores e as empresas comemoraram a conversão automática de suas dívidas em dólares por dívidas em pesos. Os bancos, em tese, perderam com a medida, mas não se acredita numa quebradeira generalizada, até porque eles poderão ganhar muito vendendo dólares no atacado. Os poupadores com aplicações em dólares terão seus pés-de-meia convertidos em pesos, com um ganho de 40% na moeda argentina. Houve grande chiadeira. Afinal, quem tinha 100 dólares depositados e retirar os equivalentes 140 pesos do banco conseguirá, no máximo, 70 dólares se atravessar a rua e entrar numa casa de câmbio. Eles têm razão em reclamar. Mas o economista brasileiro Fabio Giambiagi, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um estudioso do caso argentino, faz uma observação: "Em qualquer país normal, alguém que tem dinheiro na poupança e é informado de que vai ter um ganho de 40% em um mês sai comemorando. No caso argentino, ainda não se sabe se isso será bom ou não por causa da inflação, que ninguém imagina qual será".

Por mais assustadora que pareça a situação argentina, há sinais de que o período de crises agudas passou. A revolta agora é crônica, abafada, surda, como a de países sob intervenção de potências estrangeiras. Quem toma um táxi na cidade invariavelmente ouve o motorista chamar a central pelo rádio para saber se há ocorrência de "Código amarillo" no caminho para o local de destino. "Código amarillo" é uma expressão nova. Significa que há passeata e o trânsito está impedido. Quando se tem passeata com lugar e hora marcados, a situação começou a dar sinais de melhora.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS