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Brasileiros,
às armas!
Recorrentes,
os boatos em torno
da perda da soberania sobre
a
Amazônia voltam em
versão on-line
João
Gabriel de Lima
Negreiros
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Ninguém
diz que a Estátua da Liberdade pode ser roubada dos Estados Unidos,
ou que alguém vai tirar a Torre Eiffel da França. O boato
de que a Floresta Amazônica pode ser amputada do mapa do Brasil,
no entanto,
é recorrente talvez pelo fato de a floresta estar longe
dos grandes centros do país, e ser para quem mora neles um lugar
inacessível, quase mítico, terreno fértil para lendas.
O medo da cobiça internacional sobre a região começou
no século XIX, quando um tenente da Marinha americana, Matthew
Fontaine Maury, reivindicou a abertura da navegação no Rio
Amazonas para barcos estrangeiros. Foi o bastante para que se pensasse
que os americanos queriam anexar a Amazônia, assim como haviam feito
com o Texas ou com a Flórida. A lenda teve várias ondas
ao longo do último século e meio. Entre outras coisas, dizia-se
que os missionários americanos que catequizavam os índios
tinham interesses bem mais ambiciosos do que levar a palavra de Deus aos
silvícolas. Recentemente a paranóia tomou a forma de um
boato on-line. Circularam na internet e-mails segundo os quais um livro
didático americano já apresenta a Amazônia como região
internacionalizada. As mensagens mostravam até a página
do livro, estampando um mapa acompanhado de um texto de acordo com o qual,
com a internacionalização, a floresta estaria a salvo dos
governos "irresponsáveis e autoritários" da América
do Sul. O mapa e o texto, claro, eram falsos. Um grupo de discussão
na internet localizou dezessete erros no inglês, algo inadmissível
num livro didático. A obra, An Introduction to Geography,
de um tal David Norman, nunca apareceu, embora tenha sido feito um rastreamento
exaustivo nos Estados Unidos.
A maioria
dos que enviaram cópia desse e-mail a amigos o fez, claro, sem
más intenções. Eles viram o mapa, ficaram irritados
e, antes que pudessem refletir e concluir que se tratava obviamente de
um absurdo, repassaram a mensagem e esqueceram o assunto. Existem, no
entanto, alguns grupos na sociedade brasileira que acreditam seriamente
que a perda da soberania do Brasil sobre a Amazônia seja iminente
e essas pessoas também usam a internet para divulgar suas
idéias. Entre os urdidores da tese estão generais aposentados
do Clube Militar do Rio de Janeiro, associações militares
espalhadas pelo país, integrantes da esquerda acadêmica e
marxistas radicais, alguns deles ex-integrantes do Partido Comunista Brasileiro
reunidos no Núcleo Luiz Carlos Prestes, entidade que se abriga
no PDT de Leonel Brizola. As argumentações seguem o figurino
da teoria conspiratória, conforme a definição elaborada
pelo jornalista britânico Adrian Quinn no livro The Age of Anxiety:
Conspiracy Theory and the Human Sciences (A Era da Ansiedade: Teoria
da Conspiração e as Ciências Humanas). O espírito
conspiratório, de acordo com ele, consiste em fazer ligações
entre fatos disparatados. Mesmo que esses fatos sejam reais às
vezes são , a tese resultante é freqüentemente
uma maluquice, porque o cimento que os une está apenas na cabeça
de quem elaborou o raciocínio.
Populismo
rastaqüera A maneira como surgiu a teoria de que a Amazônia
está prestes a se tornar uma zona de controle internacional monitorada
pelos países ricos ilustra bem essa definição. Circula
entre grupos ligados a partidos de esquerda e também entre militares
uma lista de frases de líderes mundiais que defendem, supostamente,
uma soberania compartilhada da Amazônia. Um exemplo: "Ao contrário
do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é só
deles, mas de todos nós", teria dito Al Gore em 1989. "Seria ingenuidade
achar que não há ligação entre uma coisa e
outra", considera o advogado Oscarino Arantes, coordenador-geral do Núcleo
Luiz Carlos Prestes. "A idéia é criar um ambiente político
mundial que torne a tese da internacionalização admissível,
em consonância com a idéia de globalização."
O fato é que nunca nenhum país ou entidade internacional
séria reivindicou direito algum de soberania sobre a Amazônia,
e sempre que uma autoridade deu qualquer declaração infeliz
sobre o assunto a respectiva diplomacia se encarregou de desmentir. Algumas
das frases da lista foram ditas claramente em contextos bastante diferentes.
Outras constituem apenas populismo rastaqüera. "Poucas coisas dão
mais votos no Primeiro Mundo que defender a preservação
de florestas alheias", acredita o economista Ronaldo Serôa da Mota,
especialista em Amazônia e em ecologia, ligado ao Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea). Há quem diga também que
a presença massiva de ONGs ecológicas na região faz
parte do plano. Outro disparate. "Parcela significativa das ONGs defendia
inclusive que a Floresta Amazônica fosse propriedade estatal, como
ocorre na maioria dos países florestais. O Greenpeace, por exemplo,
nunca falou em internacionalização", informa o historiador
e ambientalista José Augusto Pádua, ex-coordenador de florestas
do Greenpeace na América Latina.
Paulo Jares

Exército
brasileiro na fronteira: presença necessária |
A outra teoria,
a da invasão militar, é ainda mais mirabolante e carrega
fartas doses de antiamericanismo. "Desde a independência, os Estados
Unidos têm como política invadir territórios alheios.
Eu não dou dez anos para que eles se voltem para a Amazônia,
região que cobiçam há mais de um século",
prevê o general Hélio Ibiapina Lima, presidente do Clube
Militar do Rio de Janeiro. Não deixa de ser irônico que o
Núcleo Luiz Carlos Prestes endosse inteiramente a tese do general
Ibiapina. "Os militares mudaram muito, e queira Deus que o espírito
de defesa da Amazônia professado por eles se espalhe pelo Brasil",
discursa Oscarino Arantes, admitindo que tem muitos amigos na caserna,
com quem troca figurinhas freqüentemente. É uma convergência
curiosa. Ambos recorrem ao Plano Colômbia para calçar suas
teses. O general Ibiapina atenta para as bases militares que os americanos
estariam plantando na região. Arantes recorre ao argumento de que
os "ianques" bombardeiam tudo que os incomoda. Nunca é demais ressaltar
que tais idéias estapafúrdias, embora partam de setores
ligados à esquerda e ao Exército, refletem pontos de vista
de setores minoritários e pouco representativos dos mesmos. "Os
conceitos atribuídos às entidades nominadas são de
inteira responsabilidade de quem os formulou, não havendo vínculo
de nenhuma delas com o Exército brasileiro", foi a declaração,
por escrito, emitida pelo Centro de Comunicação Social do
Exército em resposta ao questionamento de VEJA sobre as teorias
conspiratórias elaboradas por entidades ligadas ao meio militar.
"Além disso, é impensável que a opinião pública
internacional endossasse uma operação dessas", corrobora
o coronel Manuel Cambeses Júnior, coordenador de relações
internacionais da Escola Superior de Guerra.

O mapa
do Brasil: falsificação com dezessete erros gramaticais |
Claro que
a questão da segurança da Amazônia é importante.
A presença do Exército defendendo as fronteiras da região
é, sem sombra de dúvida, essencial. Não por causa
da hipótese delirante de uma invasão americana, mas porque
a parte brasileira da floresta se situa num pedaço conflagrado
da América do Sul, onde grassam o narcotráfico, guerrilhas
de esquerda e grupos paramilitares de direita. Boatos na internet têm
de nocivo o fato de que eles desviam a atenção do que é
realmente relevante. Mais importante que discutir algo que não
está em questão a soberania brasileira sobre a Amazônia
é debater o desenvolvimento sustentado, ou seja, como levar
progresso à região sem destruir a floresta. Para isso, é
essencial algo que causa urticária nos xenófobos que falsificam
mapas na internet: capital estrangeiro. É graças a uma doação
de 280 milhões de dólares, a fundo perdido, do G-7, o grupo
de países mais ricos do planeta, que o governo federal está,
entre outras coisas, desenvolvendo um programa de fiscalização
da floresta via satélite, indispensável para impedir o desmatamento
da região por parte de madeireiras. Além disso, empréstimos
do Banco Mundial vêm fomentando enormemente o ecoturismo, considerado
uma das vigas mestras do desenvolvimento sustentado. Por último,
os institutos que pesquisam a biodiversidade, ou seja, como empregar as
diferentes espécies da Amazônia na produção
de remédios e cosméticos, são também em parte
financiados com dinheiro de fora. "Estamos atrasados no mapeamento da
biodiversidade, e isso é fundamental para fechar acordos vantajosos
para o Brasil nessa área", observa Mary Allegretti, titular da
Secretaria de Coordenação da Amazônia do Ministério
do Meio Ambiente. Numa época em que captar recursos e negociar
bons contratos é o mais importante, tudo de que o Brasil não
precisa é um ambiente xenófobo fomentado por boateiros on-line.
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